Racismo e xenofobia na pátria de chuteiras

Divulgação CBF

Diariamente episódios de discriminação e injúria racial, dentro do mundo do futebol, são divulgados cada vez com mais frequência através da mídia e redes sociais. De acordo com dados publicados em relatório feito pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, anualmente desde 2014, até maio deste ano já foram contabilizados 14 casos de racismo, 12 dentro de estádios e 2 na Internet.

Apesar de viver num país miscigenado, muitos brasileiros insistem nas piadas racistas e xenofóbicas e cultivam uma boa dose de hostilidade preconceituosa, mesmo que de forma camuflada. O futebol é o esporte mais popular no mundo e, sem dúvida, uma das maiores paixões dos brasileiros que aguardam ansiosamente o início da temporada para acompanhar seu time do coração. O palco deste espetáculo é o estádio e ele recebe pessoas de todas as cores e raças nos quatro cantos do Brasil. Um local onde deveria reinar a democracia, a tolerância e o respeito às diferenças ao invés da segregação, hostilidade e ódio. Infelizmente, na prática é tudo ao contrário.

Na última semana, alguns casos graves ganharam destaque, como o ocorrido durante partida, válida pelo Campeonato Brasileiro, entre Fluminense x Grêmio, em Porto Alegre, no domingo (5). Assim que marcou o quinto gol que deu a vitória de virada para o Tricolor carioca, o jogador Yony González correu para comemorar e foi chamado de “MACACO” por uma torcedora do time gaúcho. Um vídeo com a cena viralizou nas redes sociais e causou repúdio, tanto da torcida Tricolor quanto de torcedores de outros times, que se solidarizaram com o atleta.

O lateral-direito Igor Julião, que atua ao lado de Yony, compartilhou o vídeo em sua conta no Twitter e disse: “A ascensão de classe que o esporte nos proporciona incomoda muita gente. O futebol não pode ser o lugar que racistas, xenofóbicos, misóginos e homofóbicos vomitarão seus absurdos e ficarão impunes”.

O clube também se pronunciou através do Twitter: “O Fluminense sempre será contra qualquer tipo de discriminação. O esporte traz mensagens de união que não dão espaço ao preconceito. Um grande jogo entre dois gigantes não tem lugar para o racismo. #TimeDeTodos”. O Grêmio publicou uma nota em sua página oficial e afirmou que o clube manifesta repúdio a todos os tipos de injúria e está apurando o ocorrido.

A assessora de imprensa do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Daniela Pinho foi procurada pelo Blog Mulheres em Campo e deu a seguinte declaração: “A Procuradoria do STJD vai analisar as imagens sobre o fato e, somente após, irá se manifestar. Torcedor não é jurisdicionado na Justiça Desportiva. O clube é quem responde pela ação de seus torcedores”.

Desprezível constatar que a depreciação racial através de palavras ofensivas tornou-se rotineira. O jogador do Clube do Remo, Emerson Carioca foi alvo de insultos por parte de torcedores do Juventude no confronto entre ambas as equipes, pela Série C do Brasileiro, no último sábado (4) no Estádio Alfredo Jaconi.

Novamente, um vídeo exibindo o momento do transtorno circulou pela Internet e, com razão, causou revolta nos atletas do clube. O volante Yuri expressou seu descontentamento, via rede social: “Foi vergonhoso o que houve durante jogo contra o Juventude. Preconceito e racismo externam o que há de pior no ser humano. É motivo de orgulho vestir a camisa do Remo e representar o povo do nosso Estado. #somostodosíndios #orgulho #flexadadeamor”.

O clube divulgou nota em sua página oficial depois de apuração cuidadosa com jogadores, comissão técnica e torcedores que estiveram no local e lamentou a ocorrência. O comunicado também expressou solidariedade total ao atacante e clamou que “medidas legais sejam tomadas para que casos como esse não voltem a se repetir na sociedade”.

A repercussão do episódio chegou ao conhecimento do maior rival do Leão Azul e o atacante do Paysandu, Nicolas deixou de lado qualquer tipo de antagonismo e externou seu desagrado sobre o preconceito. No jogo de sua equipe contra o Tombense, na segunda rodada da Série C, na última segunda (6), o artilheiro da temporada comemorou o gol feito mandando “flechadas” para sua torcida.

A escolha do gesto tem tudo a ver com Robgol, um ídolo bicolor, que em 2005 comemorou da mesma maneira os gols feitos em jogo contra o Juventude, onde também foi vítima de preconceito. Nicolas foi além e comentou em suas redes sociais:

“É uma forma de protesto, também lembrando o Robgol, que marcou história no meu clube. Não podemos mais aceitar esse tipo de situação. O pessoal do Pará sofreu lá em Caxias do Sul com essas questões de racismo e foram chamados de índios. Independente da rivalidade é necessário abraçar a causa para tentar excluir esses tipos de comentários do futebol. Se cada um fizer a sua parte, conseguiremos.”

Cabe relembrar a história que viveu Robgol em 2005. Em partida entre Juventude e Paysandu, em Caxias do Sul, o atacante foi agredido física e verbalmente pelo zagueiro do adversário, Antônio Carlos. Em entrevista concedida ao Lancenet!, o ex-jogador falou sobre o desgaste dentro das quatro linhas

“No início do jogo, ele me acertou no estômago e reclamei. Me xingou e disse: “Para você ganhar todo dinheiro que eu ganhei até hoje, vai ter de jogar 50 anos naquela terra de índio.” Ele ofendeu a todos em Belém. A índole não muda. Ele não teve conduta de homem. Ficou comprovado, depois, que é racista”, afirmou.

O retorno veio em setembro do mesmo ano e foi em alto estilo. No jogo da volta, no Mangueirão, torcedores bicolores usaram adornos indígenas e o Papão venceu o duelo por 3×0 e Robgol celebrou seus tentos com as “flechadas”. Uma coincidência do destino é que o Papão receberá justamente o Juventude na próxima rodada da Série C, no sábado (11).

Em confronto pela Copa do Brasil, em 11 de abril, no Estádio Alfredo Jaconi, novamente o Juventude se envolveu em caso de injúria racial. Um torcedor do time foi flagrado chamando Gustavo Bochecha, volante do Botafogo, de “MACACO” enquanto o jogador aquecia fora de campo. Houve denúncia e o agressor foi identificado e retirado do local pela polícia e encaminhado ao Juizado Especial Criminal, onde respondeu pelo feito.

O clube de Caxias do Sul publicou nota oficial em seu site após o fim do jogo e afirmou não compactuar com o ato discriminatório e considerou descabidos os insultos por parte de seu torcedor. Em um trecho do comunicado afirma que “ao tomar conhecimento do fato, o Esporte Clube Juventude prontamente se mobilizou juntamente com a Polícia Militar para que fosse realizada a identificação do torcedor. O Esporte Clube Juventude reitera que atitudes individuais e isoladas não representam a postura da torcida e do clube”.

Segundo informações da assessoria de imprensa do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), sua Procuradoria vai denunciar o clube por infração ao artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). Sobre atos de racismo o artigo citado determina que “Praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência tem como pena: suspensão de cinco a dez partidas, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de cento e vinte a trezentos e sessenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código, além de multa, de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais)”.

Outro clube que terá que dar explicações para a o STJD é o Criciúma, pelo mesmo motivo do caso citado anteriormente. No dia 11 de abril, durante duelo pela Copa do Brasil, onde a equipe jogou contra a Chapecoense, no Estádio no Heriberto Hülse, um torcedor se referiu ao jogador Eduardo, como “MACACO”, enquanto concedia entrevista na beira do gramado. O atleta optou em não fazer um Boletim de Ocorrência.

Apesar disso, o Verdão do Oeste afirmou em comunicado oficial que “não ficará inerte diante deste ocorrido e lutará para que todas as medidas cabíveis sejam tomadas. Racismo não é normal e essa atitude não passará”.

O clube ainda ressaltou que “a atitude lamentável partiu de apenas um torcedor do Criciúma e que não representa em nada os torcedores carvoeiros que receberam, de forma digna e civilizada, a delegação alviverde”.

Depois destes inúmeros exemplos envolvendo racismo e xenofobia, cabe a pergunta: Quando os protagonistas e os torcedores do “país do futebol” vão respeitar com rigor o lema “Somos Todos Iguais”, adotado pela Confederação Brasileira de Futebol?

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

por: Carla Andrade

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