Para que isso acabe de uma vez por todas

Foto: ESPN

“Tem que haver um precedente para que isso acabe de uma vez por todas.” Essas foram as palavras do atleta Serginho após se retirar do campo aos 40 minutos do segundo tempo da partida disputada por seu time, Jorge Wilstermann, contra a equipe do Blooming, válida pelo Torneio Apertura da Bolívia. Serginho não aguentou mais ouvir as ofensas racistas que lhe haviam sido direcionadas durante todo o jogo.

Sergio Henrique Francisco, conhecido como Serginho, tem 34 anos e atua na Bolívia desde 2017. No Brasil já passou por times como Linense, Portuguesa e Boa Esporte. Ao tratar do episódio da última semana, Serginho disse que, a cada momento em que tocava na bola, era chamado de macaco e de gorila.

A atitude de Serginho gerou enorme repercussão e chamou a atenção inclusive do presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, Evo Morales, que prestou solidariedade ao atleta e condenou a atitude dos torcedores do Blooming. A equipe de Serginho, Jorge Wilstermann, também se posicionou em defesa da atitude de Serginho, cobrando punições aos responsáveis pelas ofensas.

Entretanto, Serginho não presenciou apenas comentários de apoio. Logo ao relatar a situação ao árbitro da partida, este teria reagido com ironia e deboche, o que contribuiu com a atitude de Serginho de deixar o gramado. Durante a transmissão da partida, o comentarista da televisão ainda argumentou que o jogador deveria se acostumar a isso.

O presidente do Blooming, por sua vez, citou o “folclore do futebol” ao falar do episódio e ainda solicitou a punição de Serginho ao Tribunal de Justiça Desportiva daquele país, e o caso ainda será julgado.

Infelizmente, o episódio ocorrido com Serginho não representa um caso isolado. Em 2005 o atleta Grafite foi alvo de insultos racistas do jogador argentino Desábato. Grafite procurou a polícia, e, logo após a partida, o argentino Desábato foi encaminhado à delegacia, onde permaneceu preso por quase dois dias.

Em 2014 o atleta Tinga, atuando pelo Cruzeiro na Taça Libertadores da América, ouvia gritos da arquibancada que imitavam o som de macacos a cada vez que tocava na bola. Em entrevista ao final da partida, Tinga disse que trocaria todos os seus títulos por igualdade.

Nesse mesmo ano, o goleiro Aranha foi vítima de ofensas racistas por parte da torcida gremista em partida disputada em Porto Alegre. O atleta reagiu, informando ao árbitro da partida e registrando boletim de ocorrência. Na esfera disciplinar esportiva, o Grêmio acabou excluído da competição em virtude desse episódio.

Os casos de racismo envolvendo jogadores são vistos em diversas partes do mundo – a cena do brasileiro Everton Luiz chorando ao final de uma partida na Sérvia marcada por cânticos e faixas racistas foi apenas mais uma dentre tantas imagens dessa natureza.

Aliás, é importante que se diga que não só os atletas sofrem com a discriminação racial dentro do campo de jogo. Em partida do campeonato gaúcho de 2014, disputada em Bento Gonçalves/RS, o árbitro Marcio Chagas, além de ouvir insultos racistas, encontrou bananas no para-brisa e no cano de descarga de seu carro, que se estava ainda danificado. Depois de longa batalha travada por Márcio, o Esportivo foi condenado a indenizar o ex-árbitro e hoje comentarista esportivo. Na seara esportiva, o Clube Esportivo foi punido com a perda de pontos e multa.

A data de 21 de março – Dia Internacional da Luta contra a Discriminação Racial – é tida como um marco na luta pelos direitos sociais para a população negra. Nessa mesma data, Marcio Chagas protocolou no Ministério Público pedido de investigação de novas ofensas racistas recebidas na internet.

O sentimento insuportável sentido por Serginho também já motivou outros atletas a tomarem a mesma atitude e se retirarem da partida. Em 2017 o ganês Sunley Muntari agiu diante das ofensas racistas de torcedores do Cagliari, da Itália. Antes ainda, em 2013, o também ganês Kevin-Prince Boateng já havia se retirado de uma partida na Itália pelo mesmo motivo, tendo sido inclusive acompanhado por seus companheiros e também pelos atletas da equipe adversária.

Na última semana, a temática também esteve na pauta da NBA, quando o atleta Russel Westbrook discutiu com torcedores do Utah Jazz após ouvir insultos racistas. O atleta disse, após a partida, que ouviu de um torcedor que ele “se ajoelhasse, como era acostumado a fazer antes”. O Utah Jazz anunciou o banimento do torcedor, mas Westbrook, por sua vez, foi punido pela Liga por ter utilizado “linguagem inapropriada e tom ameaçador”.

Frequentemente, aqueles que se indignam frente a atitudes racistas no campo de jogo ficam isolados ou ainda recebem sanções. Foi o caso de Koulibaly, zagueiro do Napoli, que, em partida ocorrida há três meses pelo campeonato italiano, recebeu o segundo cartão e foi expulso ao reclamar com o árbitro sobre as ofensas racistas advindas da arquibancada. Muntari também havia sido expulso quando informou ao árbitro sobre os insultos recebidos.

As principais entidades de administração do esporte têm promovido há algum tempo campanhas contra a discriminação racial nesse meio. No entanto, no momento em que atletas se indignam frente a um comportamento racista e tomam atitudes como o abandono da partida, ainda são sujeitos ao julgamento de órgãos disciplinares e muitas vezes submetidos a suspensões.

É fundamental que a comunidade esportiva esteja ao lado daqueles que se insurgem frente a essa situação. Serginho, Boateng, Marcio Chagas e tantos outros. São esses que, mesmo diante de todo o sacrifício pessoal, estão contribuindo para mudar o esporte. A vida em sociedade é um aprendizado coletivo, e as ações de hoje construirão o nosso futuro. Como bem disse Serginho: é preciso agir agora para que isso acabe de uma vez por todas.

por: Vinicius Calixto – Mestre em Direito na UFMG, pós-graduado em Direto Esportivo e graduado em Direito na UnB. É autor do livro “Lex Sportiva e Direitos Humanos: Entrelaçamentos Transconstitucionais e Aprendizados Recíprocos”. Atualmente é consultor jurídico da Rede Esporte pela Mudança Social (REMS) e professor do Curso de Pós-Graduação em Direito Esportivo e Negócios do Esporte do CEDIN. Escreve aos domingos na coluna “Direitos Humanos em Jogo”.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: LeiemCampo

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