O goleiro preto: o dilema do negro drama e o ser ou não ser

           Um dia após o outro. Mas o dia foi péssimo

Dia das mães. Faço o de sempre, uma saga. Saio de Belo Horizonte e sigo para Nova Lima, cidade natal da minha mãe. Lá é o nosso ponto central, a casa que meu avô idealizou, minha avó deu sequência e os filhos e filhas tentam manter o sonho. Imaginem isso numa família preta, contrariamos as estatísticas.
Depois de uma rodada ruim para meu time entro no carro e voltando para casa me deparo com o vídeo do goleiro Sidão recebendo o prêmio de melhor jogador em campo, numa votação feita pela internet. Me parece irônico. A mesma emissora que transmitiu um reality show e premiou uma racista, deu a mesma abertura para expor ao ridículo um goleiro preto. Coincidências. Mas, não somos racistas. Não é verdade Ali Kamel?

           Como a imprensa esportiva dá espaço para o racismo estrutural

Algumas pessoas vão ficar no vídeo, mas eu gostaria de irradiar, de extrapolar essa análise para outros momentos, para depois retornar ao caso do Sidão.

No programa do Fox Sport, no dia 16 de fevereiro de 2018, o ex jogador Edilson, conta mais um causo sobre seus dias em campo, nessa ocasião ele lembra de um jogo entre Palmeiras e Guarani. E ele lembra de algo que Zinho, também ex jogador, disse durante o jogo. Segundo Edilson, tendo como baliza a fala do companheiro de time, goleiro negro sempre falha:

“Tá vendo o que eu falei? Tá vendo o que eu falei? É goleiro negão! Goleiro negão sempre toma um gol!”

O que mais espanta é que tudo isso ocorre em tom de brincadeira, como se estivessem numa mesa de bar. Risadas, falas atravessadas, tom mais alto. Cenário perfeito para a masculinidade (uma estética que precisa ser repensada) se fazer presente. Obviamente um dos jornalistas lembra que Jailson é importante para a conquista do brasileiro de 2016. Mas isso não parece ser o bastante para Edilson, jogador que provavelmente deve ter sido vítima do racismo estrutural:

“Deixe chegar a hora certa. Deixe chegar.”

Esse programa é um exemplo perfeito do modo como as questões raciais são tensionadas pelo apagamento da identidade negra. É também um exemplo da forma como a imprensa esportiva domina muito o tema, para além da ofensa racial durante as transmissões. Um dos jornalistas pergunta sobre a identidade racial de Dida, mas Edilson insiste no apagamento:

“Dida é pardozinho…”

Isso tudo em meio aos risos dos colegas. E tudo isso enquanto passa o dedo no braço, de forma semelhante ao gesto feito pelo zagueiro Antônio Carlos. Um ponto importante, Edilson é também produto do racismo estrutural. E outro ponto, como diria Baco Exu do Blues: “Ser preto não é só ter pele/Coisa que joalheiro entende”.

A passagem protagonizada por Edilson, me faz lembrar de uma reflexão realizada professor, autor e jurista Silvio Luiz de Almeida em uma entrevista para a Rede TVT. Nessa oportunidade, o intelectual faz uma observação sobre a manipulação da cor da pele de uma pessoa preta (independente do tom da pele), ou o que chamamos de colorismo:

“A ideia de colorismo é a ideia de que existe uma graduação da cor da pele das pessoas negras, o que as faz mais “aptas” a disfrutar dos privilégios da branquitude, ou aquelas menos “aptas” por que tem a cor da pele mais escura, então seria uma espécie de graduação do racismo a partir do tom da pele. Aí você me pergunta assim: ‘eu sou negro ou sou branco?’ Primeiro vamos começar de um lugar. Racismo […] é aquilo que Achille Mbembe, […] chama de loucura codificada. Racismo é uma coisa para enlouquecer as pessoas, pra deixar as coisas sem explicação, para permitir a manipulação e a destruição das pessoas. Por algo que elas não podem escolher. No plano ético é a configuração do que a gente chama de maldade.” Aliás, me parece importante ressaltar que Silvio é filho do ex goleiro do Corinthians, Lourival de Almeida Filho, o Barbosinha, que jogou no clube entre os anos de 1967 e 1968. Seu apelido não foi gratuito, para o bem e para o mal.

           O caso de Sidão: ou o eterno retorno do racismo brasileiro

Algumas pessoas podem pensar: “o que essa observação tem a ver com Sidão?” Ela nos mostra como a mídia esportiva brasileira manipula as questões raciais e as narrativas que surgem a partir dela. Segundo Edilson, Dida não é tão negro para sofrer a desconfiança. Mas, ironicamente, no ano de 2006, antes da copa do mundo, muitos anos depois sem ter um goleiro negro em uma copa do mundo, Chico Anysio não achava Dida confiante o bastante para dizer:

“Não tenho confiança em goleiro negro. O último foi Barbosa, de triste memória na seleção”

Assim, retorno ao caso de Sidão. Confiança. Que talvez, do ponto de vista técnico não seja um goleiro genial, mas ele está fazendo seu trabalho e obviamente, vai realiza-lo da melhor forma possível. Contudo, fico imaginando, qual o contexto para a análise para sacramentar que um goleiro é bom ou não? Pensando em Sidão, um atleta que pensou em desistir do próprio trabalho? Mas, antes de seu primeiro jogo, a desconfiança no desempenho do jogador era colocada pelos torcedores e reforçada pela imprensa esportiva, depois do sucesso no início da sua passagem no gol do São Paulo, veio a lama. Assim como aconteceu Barbosa, Dida, Jailson, Barbosinha e outros tantos goleiros negros convivem com o estigma da desconfiança. Mas é impossível deslocar o debate racial sem levar consideração o seu par contraditório, afinal, se a desconfiança está com goleiros negros, a confiança sempre esteve com a branquitude.

Recorro novamente as reflexões de Silvio de Almeida, que durante o evento do Museu do Futebol em São Paulo, nos apresenta uma reflexão importante, que nos ajuda a entender aquele momento da “premiação” de Sidão:

“Ser Branco não é você ter a brancura da pele. Ser branco é você carregar consigo, por conta de uma série de determinações sociais, privilégios. E não é que o sujeito se arroga como privilegiado. Ele é privilegiado, por conta de certas características, que um determinado espaço, vão ter um significado específico. […] Ser branco é como você é dispositivado, dentro de toda uma estrutura de privilégios. Qual o privilegio de você ser branco? Um dos privilégios de você ser branco? É você logo de cara receber a confiança das pessoas, em geral, uma pessoa branca […] terá a confiança das pessoas, naturalmente por ser brancas.”

Afinal, quantos goleiros negros temos no futebol brasileiro? Goleiros precisam ser frios, racionais, saber tomar decisões sob pressão, aliás, goleiros precisam suportar pressão. Segundo a construção racista, homens pretos são irracionais, são impulsivos e violentos. Ainda pensando nas reflexões de Silvio de Almeida, no museu do futebol, qual imagem a imprensa esportiva – a mesma que faz caricatura com Black face (eles chamam de piada) do técnico Roger Machado –constrói a respeito jogadores africanos? Fortes fisicamente, mas displicentes, não sabem refletir a organização do jogo, são irracionais. Logo, esses homens não podem ocupar cargos tão importantes assim.

Voltamos ao ponto inicial e talvez o rap, que tanto ajudou Marcio Chagas a ler o a realidade brasileira, à qual o futebol se insere, seja um porto para entender esse momento. Afinal, jogadores negros, independente de sua posição vivem seu Negro Drama, vivem entre o sucesso e a lama. O direito sobre suas vidas segue nas mãos de uma imprensa esportiva que entende muito pouco das relações raciais e em situações como a ocorrida com Sidão, tratam o caso como um erro editorial, basta pedir desculpas e acham que não são responsáveis por essa realidade. Logo, não adianta ser goleiro de um grande time, ganhar bem, quando o erro acontece, falta análise sincera, um olhar mais humanizado para homem preto que levava o nome de sua mãe nas costas. Falta ainda dialogar com o torcedor, afinal tudo fica a cargo da “paixão” e o que ocorreu na internet foi algo inevitável.

É impossível deixar de pensar que o erro vem carregado pela racionalidade do racismo estrutural brasileiro. Nesse momento só consigo pensar nesse trecho de “Negro Drama” dos Racionais Mc’s:

“Aê, você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você, morou irmão?
Cê tá dirigindo um carro
O mundo todo tá de olho em você, morou?
Sabe por quê? Pela sua origem, morou irmão?
É desse jeito que você vive, é o negro drama
Eu não li, eu não assisti
Eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama
Eu sou o fruto do negro drama”

O gueto não é somente a quebrada que meus ídolos da adolescência falam. É também o gueto do homem preto, seu exílio constante em seu próprio país, como nos ensina Abdias do Nascimento. Viver com a desconfiança de seus pares, para além do desempenho técnico.

Mas, se eu pudesse pensar em algo para dizer para Sidão, mesmo não acompanhando tanto sua carreira de perto, deixaria essa mensagem ensinada, novamente pelos Racionais Mc’s:

“Bênção, mãe
Estamos iniciando nossas transmissões
Essa é a sua rádio Êxodos
Hei! Hei!
Vamos acordar, vamos acordar, porque o Sol não espera demorou, vamos acordar
O tempo não cansa ontem a noite você pediu, você pediu… Uma oportunidade
Mais uma chance, como Deus é bom né não nego?? Olha aí, mais um dia todo seu
Que céu azul louco hein?
Vamos acordar, vamos acordar, agora vem com a sua cara, sou mais você nessa guerra
A preguiça é inimiga da vitória, o fraco não tem espaço e o covarde morre sem tentar
Não vou te enganar, o bagulho tá doido e ninguém confia em ninguém
Nem em você, os inimigos vêm de graça
É a selva de pedra, ela esmaga os humildes demais
Você é do tamanho do seu sonho, faz o certo, faz a sua
Vamos acordar, vamos acordar, cabeça erguida, olhar sincero, ta com medo de quê?
Nunca foi fácil, junta os seus pedaços e desce pra arena
Mas lembre-se: Aconteça o que aconteça, nada como um dia após outro dia”

Sidão, independente de qualquer coisa. Sou mais você.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

por: Luciano Jorge de Jesus

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