Não é só futebol: a luta do Bahia contra o racismo, intolerância e assédio às mulheres

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“Respeitem as mulheres! Prometemos agir em relação a isso, Maria. Podem nos cobrar depois.” Esse tipo de tuite se tornou comum no Esporte Clube Bahia. O caso acima aconteceu na partida do último domingo, na Fonte Nova. Essa pauta, do combate ao assédio às mulheres no futebol, é só uma das que envolvem questões sociais trabalhadas pelo clube.

As iniciativas, que ganham força com as redes sociais, fazem parte do Núcleo de Ações Afirmativas do Bahia. Um grupo formado pelo clube para debater temas como o racismo, intolerância religiosa, a demarcação de terras indígenas, a homofobia ou a importância da democracia.

Conversamos com o gerente de comunicação do Bahia, Nelson Barros, para entender o trabalho desenvolvido, que não é tão comum nos clubes brasileiros.

Yahoo Esportes: O Bahia costuma ter pautas em questões sociais, como o combate ao racismo, violência contra as mulheres, importância da democracia… Por quê?

Nelson Barros: O Bahia não se considera apenas um clube de futebol, é para além do futebol. Costumamos dizer isso em palestras. Pelo tamanho que o Bahia tem, a repercussão que promove, consegue atingir um grande número de pessoas e atenção no noticiário. Temos mais de 3 milhões de seguidores, por exemplo, se juntar todas as redes sociais do clube, sem falar na quantidade de torcedores que estão fora desse ambiente de rede social. Temos a oportunidade de levar mensagens importantes para além do ambiente meramente esportivo.

Também enxergamos o Bahia como um elemento de identidade cultural do estado da Bahia. Então, a democracia e causas sociais são temas valiosos e inatos ao clube. Aproveitamos o pano de fundo, claro, sabendo que somos sobretudo um clube de futebol, se não fosse isso, não teríamos o apelo, mas também queremos, já que dá para fazer, um trabalho que transcenda isso.

Para trabalhar com essa linha bem definida, acredito que precisa ter um respaldo que vem desde a presidência do clube?

O presidente, Guilherme Bellintani, deu uma entrevista recente para a Folha de S. Paulo e falou uma frase muito boa: “A gente, como clube de futebol, está em um ambiente com muitos episódios de ódio, intolerância, assim como a sociedade em um todo. Mas, no Bahia, a gente tem a oportunidade de tentar promover o inverso disso”.

Estou como gerente de comunicação do Bahia desde setembro de 2013 e fiquei feliz porque, desde o início da atual gestão, na virada de 2017 para 2018, ele decidiu que seria criado um Núcleo de Ações Afirmativas no clube.

Então, existe um setor à parte no departamento de comunicação para pensar as pautas a serem trabalhadas?

Sim, existe. Fui designado como um dos interlocutores internos do clube desse Núcleo. A maioria das pessoas que fazem parte são de fora do clube, torcedores de diversas áreas. Foi criado esse grupo, enxerguei de maneira muito positiva porque era uma iniciativa que eu já achava que deveria ter e estou à frente com outras pessoas.

Temos reuniões periódicas, grupos de WhatsApp, onde vamos discutindo o que está acontecendo. Por exemplo, houve o caso de racismo em um vídeo de bastidores do Fluminense, teve a situação da garota do torcedora do Bahia que manifestou sobre questão de assédio no estádio. Os temas vão acontecendo, vamos discutindo e vão surgindo oportunidades para nós agirmos. Claro que são questões discutidas, não são aleatórias.

Vocês recebem ou já receberam muitas críticas por desenvolver um trabalho dessa forma?

Já recebemos críticas, é uma coisa natural… Hoje em dia, todas as pessoas se posicionam com as redes sociais, todo mundo tem acesso, e não dá para dizer que tudo o que a gente faz é aplaudido por 100%. Mas, temos uma certeza que estamos no caminho certo porque vemos uma maioria de manifestações positivas. E não só da nossa torcida, como de torcidas de outros clubes. A gente fica feliz com a repercussão, e que nem é o objetivo. Temos vistos torcedores dizendo que desde que o Bahia passou a atuar dessa forma, o clube virou o segundo time.

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Tem campanha que rendeu crítica, mesmo sabendo que estava sendo feito o certo?

Obviamente, não é unânime, mas temos certeza que vem tendo um apoio muito maior do que as queixas. Também a gente não se propõe a ser o dono da verdade, a ditar coisas. Queremos iniciar o debate. Por exemplo, a demarcação dos povo indígenas. Criamos um vídeo para o abril indígena. Tínhamos feito ações ano passado e intensificamos esse ano. Não quer dizer que o Bahia defende, que… Teve pessoas que questionaram: “Ah, então vocês defendem que índios invadam propriedades?” A questão não é essa. A questão é que estamos defendendo algo que está na Constituição Federal.

Um ponto muito importante sobre as críticas é que o Bahia não busca defender situações políticas ou partidárias. O que buscamos é defender causas humanitárias. Identificamos, internamente, como lutas humanitárias. Defender o índio, a mulher, o negro, pessoas com deficiência, LGBT… Fazemos isso porque entendemos que é um direito humano. Temos certeza que estamos fazendo o certo porque é o que está previsto, não é coisa da nossa cabeça.

No 31 de março, só Vasco, Bahia e Corinthians, da Série A, se posicionaram a favor da democracia. Foi fácil trabalhar essa pauta no Bahia?

Acho que sim porque, explicando um pouco sobre o contexto do clube, o Bahia vivia em uma época chamada pela torcida de “Era das Trevas”. Um período onde duas famílias se revezavam no poder e, em meados de 2013, houve uma intervenção judicial e que implantou a democracia no clube. Antes, basicamente, havia partido único no Conselho Deliberativo e, depois, os sócios passaram a votar. Temos muito orgulho. E desde que o Bahia se democratizou, começou a se profissionalizar mais, acumulamos uma conquista por ano. O clube deu um salto e atribuímos muito isso a partir da democracia.

Então, foi um prazer muito grande poder se manifestar naquela data. Inclusive, fizemos um vídeo especial, usando a hashtag dos clubes argentinos, a #NuncaMas, e colocamos a #NuncaMais. A gente gostaria que todos os clubes participassem, mas cada um faz o que pensa.

Uma torcedora do Bahia manifestou nas redes sociais sobre o assédio sofrido na partida de domingo na Fonte Nova, e o clube avisou que vai correr atrás das providências. O Bahia entende que um comportamento desse tipo por um torcedor mancha também a instituição?

Manchar é um termo muito forte, embora tenha sido algo grave. Foi muito feio, inconcebível, mas que manche a história é difícil. Agora, sendo a gente, fazendo o que a gente faz, com as nossas posturas, fica muito mais complicado. Tem que tentar se corrigir cada vez mais, os nossos torcedores também… E acho que eles têm feito isso e, se olhar os comentários, a maioria tem um comportamento legal.

E, para contextualizar, o Bahia vem fazendo ações nesse sentido. Ano passado, em março, fizemos uma roda de conversas com mulheres para discutir o assédio, com questionário na internet sobre a experiência da mulher em ir ao estádio. Em novembro, iniciamos a ronda Maria da Penha nos jogos na Fonte Nova, especializada nesses casos. Vamos intensificar e, inclusive, a mulher se sente segura e confortável em relatar um caso para uma policial feminina.

Sobre a resposta à torcedora no Twitter, não foi algo aleatório. Entramos em contato com ela, pedimos autorização porque a gente sabia da repercussão, e como ela até disse que não imaginava. Não buscamos publicidade, likes, cliques… Tudo é muito consequência e nem imaginava que várias ações tivessem repercussão.

Qual o recado que o clube quer passar ao torcedor que, por vezes, pode não se identificar com as questões sociais trabalhadas?

Pergunta difícil… Queria dizer que o Bahia é um clube democrático, aceitamos todos os tipos de conversas até os limites legais. Aceitamos todo o contraditório, desde que não venha com racismo, machismo, homofobia… Nós não vamos aceitar, mas não é porque o Bahia não tolera, é que a nossa Constituição, nossas leis, não toleram. Então, quero reforçar, as bandeiras defendidas pelo Bahia não são partidárias ou do clube. São humanitárias, transcendem a questão política e fazemos nossa contribuição porque queremos melhorar nossa sociedade.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: Yahoo

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