Mulheres ganham espaço no esporte; só falta ganharem poder

Membros do Conselho de Ética e do Conselho de Administração do COB (divulgação)

A lista de presidentes de confederações tem 34 homens e uma única mulher. O alto escalão da Secretaria Especial de Esporte, do governo federal, só tem homens. Também são homens que comandam todas as principais secretarias especiais de Esporte. E homens que presidem os principais clubes de futebol, e os principais clubes poliesportivos, e as federações de futebol, e que ocupam todos os principais cargos da CBF, do COB…

Neste 8 de março, como de costume, a maior parte dessas organizações ou anunciou medidas que ampliam o espaço para a mulher no esporte ou apresentou histórias de mulheres que são exemplos em suas áreas. Avanços que param quando atingem uma linha vermelha que separa quem manda de quem obedece.

A Confederação Brasileira de Judô é um exemplo. Nesta sexta (8), a entidade lembrou duas medidas recentes que favorecem as mulheres: a equivalência da faixa mínima para participação em competições nacionais (roxa) e uma cota de duas árbitras mulheres por competição. Nenhuma dessas medidas altera a concentração de poder nas mãos dos homens.

Na CBJ, são homens o presidente e os dois primeiros vices-presidentes – uma mulher aparece em quarto e último lugar na linha sucessória. Nas somas dos Conselhos Técnico, de Administração, Fiscal e de Ética, há 28 cadeiras. São 25 ocupadas por homens e três por mulheres: a terceira vice, Érika Miranda e Rafaela Silva, essas últimas duas indicadas pelos atletas, por cota de. No STJD do judô são 10 homens e uma mulher. Exatamente a mulher atua como secretária. Já entre o quadro de funcionários, todos os cinco cargos de chefia são ocupados por homens.

A própria confederação reconhece que há muito o que se fazer. Em texto divulgado neste Dia Internacional de Mulher, lembrou que apenas 25% das atletas federadas no país são mulheres, taxa que cai para 14% entre as técnicas. Mas não há, entre os dados divulgados pela CBJ, uma única linha sobre a falta de representatividade delas na estrutura de poder.

Não é o caso, aqui, de apontar o dedo para o judô. Com exceção da ginástica (onde a predominância de atletas é feminina, até por haver uma modalidade, rítmica, exclusivamente para mulheres, todas as outras confederações têm altíssima concentração de poder nos homens. Na CBDA (desportos aquáticos), são homens o presidente, o vice e os presidentes do conselho fiscal e do STJD. O problema vem de baixo: dos 27 presidentes de federações estaduais, 25 são homens.

Até recentemente, o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC) aproveitava seu congresso para realizar um “Concurso de Musas dos Clubes”, escolhidas entre as associadas. Como os quartos eram duplos, elas tinham o direito de viajar acompanhadas da “diretora social” do clube, em um espetáculo para os homens, os que mandam nos clubes. As mulheres são as musas e, quando muito, as responsáveis pela área social.

Começa daí a estrutura machista do esporte brasileiro. Porque são esses dirigentes de clubes (homens quase sempre), que elegem os presidentes de federações (homens quase sempre), que por sua vez escolhem a cúpula de poder das confederações (formada por homens quase sempre), que elegem quem manda no COB (homens quase sempre)…

Partem desses homens, donos do poder, as medidas absolutamente paliativas que visam ampliar o espaço das mulheres na prática esportiva. Recentemente, o Olhar Olímpico mostrou que vem caindo o número de velejadoras mulheres na vela. O problema foi reconhecido pela confederação, que não tem um projeto para reverter a situação. Sua cúpula é formada por três homens. A diretoria tem sete homens. Não há nenhuma mulher com poder na confederação que tem como estrelas Martine Grael e Kahena Kunze.

Quem deveria dar o exemplo também não o faz. O governo federal nunca teve uma mulher com cargo relevante no esporte, nem no antigo Ministério do Esporte, nem na nova Secretaria Especial de Esporte, que só tem homens no primeiro escalão. Uma mulher chegou a ser indicada para o cargo – a esposa de um importante colaborador de campanha de Jair Bolsonaro (PSL) -, mas acabou demitida antes de ser nomeada. Foi substituída, adivinhem, por um homem.

O jornalismo esportivo, por mais que se esforce ao apontar o dedo para muitos problemas, também tem o mesmo vício. Esse texto, afinal, também é escrito por um homem. Outros sites importantes, como do Lance! e do GloboEsporte.com também têm seus “blogueiros olímpicos”, e eles são homens. Como se vê, há muito o que se fazer. E em muitos lugares.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Blog Olhar Olímpico

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