Lado B da Copa América: Bicampeão, o Chile luta agora para apagar seu rastro homofóbico vindo das arquibancadas

O Chile é uma das seleções que mais atraem atenção para a Copa América de 2019. A seleção chega ao Brasil com um retrospecto recente vitorioso, com dois títulos do torneio: em 2015, com a conquista inédita em casa, e no ano seguinte, nos Estados Unidos, na Copa América Centenário, ambas decididas nos pênaltis contra a Argentina. No entanto, esse período não foi marcado apenas por glórias.

Em 2015, várias polêmicas envolvendo o Chile aconteceram na Copa América. Primeiro, a prisão do meia Arturo Vidal durante a competição por dirigir sob efeito de álcool e causar um acidente de carro. Além disso, durante o jogo as quartas de final contra o Uruguai, o lateral Gonzalo Jara aplicou uma “dedada” em Edinson Cavani, que reagiu e, na sequência, foi expulso. O lateral chileno também foi suspenso pela Conmebol e não jogou o restante da competição.

Outra polêmica aconteceu na decisão do campeonato, contra a Argentina. O meia Valdivia, velho conhecido dos brasileiros, xingou o técnico Jorge Sampaoli após ser substituído por Matías Fernández no segundo tempo. Vale lembrar que a trajetória com a seleção chilena em 2015 foi o trabalho que deu projeção ao treinador argentino, que no ano seguinte foi contratado pelo Sevilla. E as polêmicas daquele ano não acabaram por aí.

Em novembro, a Federação Chilena foi multada pela Fifa por causa do comportamento preconceituosos de torcedores, que gritavam insultos homofóbicos aos adversários em partidas das Eliminatórias para a Copa da Rússia – Mundial que não contou com os chilenos, inclusive. Essa foi apenas a primeira sanção que, tempos depois, alçou o Chile a um recorde constrangedor. Segundo levantamento do jornal “Folha de S. Paulo”, entre 2015 e 2017, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia, a Federação Chilena recebeu dez multas por gritos e manifestações preconceituosas de sua torcida. O valor somado que a entidade teve que pagar à Fifa foi de R$ 794 mil. Nenhuma outra federação no mundo foi mais penalizada por esta prática de seus torcedores do que a chilena – uma marca vergonhosa, oposta às glórias alcançadas pela seleção em campo.

Torcedores do Chile erguem a bandeira do país antes da final da Copa América de 2015, contra a Argentina MARTIN BERNETTI/AFP/Getty Images

“É um problema realmente grande dentro da cultura dos torcedores no Chile”, destaca a historiadora e professora da Universidade de Hofstra, na região de Nova York, Brenda Elsey, em entrevista exclusiva à ESPN Brasil.

Um caso em particular chamou a atenção de Brenda em 2017, quando o atacante Alexis Sánchez anunciou seu noivado com a atriz e modelo Mayte Rodríguez. O assunto ganhou muita repercussão na mídia, já que havia desconfiança em relação à sexualidade do jogador.

“Eu usei o caso particular de Alexis Sánchez como uma representação de problemas de homofobia na mídia esportiva”. Brenda lembra que uma repórter sugeriu que a mídia deveria prestar mais atenção em um caso importante de violência doméstica que aconteceu no país na mesma época, em vez de focar na vida amorosa do jogador. “A reação ao que ela disse foi tão cheia de ódio e tão depreciativa que me fez refletir sobre esses problemas de homofobia que tem acontecido no futebol desde o início do século XX. E o que eu vi na mídia esportiva foi uma atenção obsessiva e sem motivo para este anúncio particular”, afirmou a historiadora, autora do artigo “Making fútbol straight again: Homophobia, misogyny and the politics of Alexis Sánchez’s sexuality” (Fazendo o futebol hétero de novo: Homofobia, misoginia e política da sexualidade de Alexis Sánchez).

“Futebol é um universo machista, homofóbico e que tem uma exacerbação de um modelo de masculinidade, baseada numa ideia de virilidade. E uma das formas de você depreciar o rival é reduzindo a sua masculinidade”, explicou o historiador e mestre em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo, Maurício Rodrigues, em entrevista exclusiva à ESPN Brasil.

Claro, a homofobia não é exclusividade do Chile. Esse tipo de comportamento faz parte do futebol desde sempre. Ofensas e gritos preconceituosos são frequentemente entoados nas arquibancadas. Basta lembrar do que se ouve em tiros de meta batidos nos clássicos entre os rivais do estado de São Paulo. Esse tipo de desrespeito – infelizmente ainda comum – continua a levar dor e tristeza aos “alvos” das manifestações e explicita os preconceitos da sociedade.

Luta contra a homofobia

“Quando meus pais souberam [que era lésbica], não receberam isso bem, e eu me sentia mal, como se estivesse doente”, disse a zagueira da seleção chilena feminina de futebol, Fernanda Paz Pinilla Roa.

Pinilla, que também defende o Córdoba CF, da Espanha, explica que o preconceito é muito forte no Chile. “A sociedade chilena é bem machista. Temos tido, desde pequenos, uma educação muita marcada pelo machismo, e isso está naturalizado”. A atleta de 25 anos começou a jogar futebol aos 10, com homens, amigos e colegas de escola. Aos 12, encontrou uma equipe feminina. “Até então, não conhecia nenhuma mulher que jogava futebol”.

Para Pinilla, o próprio ato de as mulheres praticarem um esporte dominado pelos homens já é visto de forma preconceituosa por parte da população. “Alguns assumem que somos lésbicas pelo fato de jogarmos futebol. E dizer isso é o mesmo que dizer que apenas as pessoas que gostam de mulheres podem gostar de futebol. É algo estúpido que ouço milhões de vezes desde quando era menina”, aponta.

“Algumas jogadoras da seleção nacional que eu entrevistei ouviram de membros da comissão técnica que elas não deveriam ser vistas juntas e de mãos dadas enquanto usavam a camisa da seleção. Elas eram insultadas e ouviram que, basicamente, jogavam futebol apenas como uma forma de conhecer outras mulheres”, afirmou Brenda Elsey.

A historiadora também acredita que as federações precisam desempenhar um papel maior e apoiar programas que sejam positivos sobre inclusão, e não apenas punindo as pessoas por seu comportamento. “Acho que envolve as federações. No caso do Chile a ANFP, mas também a CBF no Brasil e a Conmebol. Elas não têm oferecido programas que tentam desenvolver outras formas de ver o jogo. Claramente a Fifa precisa desenvolver um papel mais efetivo”. Apesar do cenário ainda ser bastante desanimador em relação ao respeito aos homossexuais no futebol, Pinilla acredita que há motivo para estar otimista quanto uma melhora na situação no Chile.

“Acho que nos últimos cinco anos houve um crescimento exponencial, mas é um avanço na América Latina que ainda vai precisar de mais alguns anos para crescer e, principalmente, vai ter que estar relacionado com a forma como criamos as crianças hoje em dia. Sempre penso nisso. Já deveríamos criá-los explicando toda essa diversidade de gênero e de relações”, projeta a zagueira que precisa, dia após dia, defender sua própria presença dentro de um gramado de futebol.

Veja o vídeo: Bicampeão da Copa América, Chile tenta apagar rastro homofóbico vindo das arquibancadas – Federação Chilena recebeu várias multas da Fifa por comportamento homofóbico de seus torcedores

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: ESPN

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