Filha de Bob Marley ajuda a levar a seleção feminina da Jamaica ao primeiro Mundial

Foto: Associated Press

Quando o sobrenome Marley está em evidência, o mais natural (e até automático) é associá-lo ao reggae, estilo musical de Bob, o mais famoso da família. Só que dessa vez o protagonismo está com uma mulher, Cedella, filha do cantor. E o assunto não é música. É futebol.

Atualmente, Cedella Marley, de 51 anos, é embaixadora global do futebol feminino na Jamaica. E, apesar de também ter herdado o dom para a música, sua principal vocação é com a moda. Ela chegou a desenhar o uniforme que seu compatriota, o ex-velocista Usain Bolt, vestiu nas Olimpíadas de 2012, em Londres.

O caminho para o futebol só surgiu depois que seu filho mais novo, voltando de um treino, trouxe para casa um folheto. Nele, havia uma mensagem: “Apoie as Reggae Girlz”. A partir daí, mostrou interesse pelo assunto e, na sequência, assumiu o cargo na Federação de Futebol da Jamaica.

– Decidi me envolver depois que vi que elas eram um grupo de jovens atletas talentoso, com a paixão pelo futebol. E eu acredito que todos têm o direito de lutar por seus sonhos – disse Cedella.

O apoio pedido pelas Reggae Girlz chegou às mãos de Cedella como um pedido de socorro. O time de futebol feminino da Jamaica tinha ficado três anos sem jogar e, após boa campanha na Copa Ouro, preliminar às Eliminatórias do Mundial do Canadá, em 2015, buscava patrocínio para se manter em atividade.

Cedella Marley desenhou o uniforme de Usain Bolt, para as Olimpíadas de Londres, em 2012 — Foto: Associated Press

Cedella, então, resolveu colocar a Fundação Bob Marley como patrocinadora máster do time. De lá para cá, as coisas melhoraram para as Reggae Girlz. Mais patrocínios, mais estrutura e a sonhada vaga na Copa do Mundo da França, em 2019. Uma história de cinema para a filha do Rei do Reggae.

– As meninas saíram de praticamente uma situação de extinção para alcançar marcas históricas. A história é definitivamente feita daquilo que se fazem os sonhos, e é por isso que eu sinto como se fosse um filme da Disney, que, antes, esperava para acontecer. E, agora, está acontecendo – contou.

Idealizadora de não somente um projeto, mas de um movimento, Cedella Marley não precisou pensar muito para escolher a trilha sonora deste filme. Com direito, é claro, a reggae e Bob Marley.

– Com certeza, seria “Get Up, Stand Up”. E eu acho que é autoexplicativo, porque ao invés de dizer “Preacher man, don’t tell me: Heaven is under the hell” (homem pregador, não me diga que o céu está sob o inferno), nós devemos, num geral, dizer que ninguém pode nos falar, como mulheres, que deveríamos nos barrar e não ser vistas, ouvidas ou não jogar futebol – explicou.

Não tivesse dado certo como cantor, Bob Marley gostaria de ter se arriscado nos campos de futebol. Como o futebol já estava nos sonhos do pai de Cedella, a embaixadora acredita que Bob, que morreu em 1981, estaria orgulhoso de sua missão com as Reggae Girlz.

– Meu pai amava futebol. Ele sempre me dizia que se não fosse músico, teria sido jogador. Eu acredito que ele esteja feliz e ansioso para ver as Reggae Girlz fazendo história, e orgulhoso da sua família e sua fundação, por serem responsáveis por isso – disse.

A estreia da seleção jamaicana na Copa do Mundo da França será contra o Brasil, no dia 9 de junho, às 11h30 (de Brasília). A TV Globo e o GloboEsporte.com irão transmitir não apenas este, m todos os jogos da Seleção. O SporTV exibirá também outras partidas da competição.

Seleção feminina da Jamaica vai disputar pela primeira vez a Copa do Mundo — Foto: Ronald Martinez/Getty Images

           Veja a entrevista com Cedella Marley na íntegra:

Por que você decidiu patrocinar as Reggae Girlz e como se envolveu com isso?

– Há mais ou menos cinco anos, meu filho mais novo trouxe um folheto, que o técnico dele de futebol entregou, pedindo às pessoas: “Torça para as Reggae Girlz”. Antes daquilo, eu não sabia que existia um time de futebol feminino na Jamaica. Decidi me envolver depois que vi que elas eram um grupo de jovens atletas talentoso, com a paixão pelo futebol. E eu acredito que todos têm o direito de lutar por seus sonhos. Procurei a Federação Jamaicana de Futebol, e o presidente da época (já falecido) Capitão Horace Burrel me chamou para ser embaixadora global do futebol feminino.

Conte um pouco mais sobre este patrocínio. Como ele funciona?

– Como embaixadora, meu principal objetivo é aumentar a conscientização sobre as Reggae Girlz e tentar ajudá-las a ganhar o apoio que precisam para se preparem às competições. A Fundação Bob Marley é uma organização independente que não visa lucros, baseada fundamentalmente na Jamaica. Nossa missão é impactar positivamente aqueles que estão a nossa volta, de forma consistente e sustentável. Nós temos parcerias com várias organizações para promover assistência médica, livros escolares, e diferentes programas focados em acadêmicos, música, esportes e outros aspectos da sociedade e cultura. Foi um processo natural à fundação se tornar a patrocinadora master para trazer parceiros, como a Fundação Alacran.

O que a classificação para o Mundial da França significa à Jamaica?

– Bom, sendo o primeiro time feminino da região do Caribe a se qualificar para a Copa do Mundo, isso já significa muito. A gente chegou perto em 2014, assim como Trinidad e Tobago, isso é um momento muito especial, não somente pela Jamaica, mas para toda a região. Historicamente, o futebol no Caribe é visto como um esporte para homens, e as jogadoras não eram levadas a sério. Isso, em termos de financiamento e apoio em geral. Esta é a real mudança, na nossa percepção. E eu acredito que o time já é uma inspiração para todo mundo, especialmente para meninas jovens.

Você disse que seu pai ficaria orgulhoso ao ver tudo o que está acontecendo. O que acha que ele diria se estivesse vivo?

– Meu pai amava futebol. Ele sempre me dizia que se não fosse músico, teria sido jogador. Quando jovem, ele usava seus talentos e a ética de trabalho para promover não somente a si, como às pessoas em sua volta. Eu acredito que ele esteja feliz e ansioso para ver as Reggae Girlz fazendo história, e orgulhoso da sua família e sua fundação, por serem responsáveis por isso. Então, depois de acalmar os ânimos por ver as garotas chegando até lá, acredito que ele pensaria o seguinte: “Ok, então o que vem depois? Precisamos ter certeza de que elas terão tudo de melhor para alcançarem aquilo que elas realmente querem”. O que você planta é o que você colhe.

Você também chegou a falar que a seleção feminina jamaicana era como um “filme da Disney a ser feito”. Você pode explicar melhor esta história, por favor?

– Se você assistir a qualquer filme da Disney, ele começa com alguém que está tentando conseguir algo, aí tem o vilão, que tenta atrapalhar o caminho desta pessoa do ponto A ao B. Neste enredo, o protagonista conhece alguém que acredita em seus sonhos e começa a ajudá-lo. E é assim que tudo se torna próspero. Foi neste sentido que eu disse que isso é como um filme da Disney, porque, de fato, as meninas saíram praticamente de uma situação de extinção para alcançar marcas histórias. Então, a história é definitivamente feita daquilo que se compõe os sonhos e é por isso que eu sinto como se fosse um filme da Disney, que, antes, esperava para acontecer. E, agora, está acontecendo.

E se você pudesse decidir o enredo deste filme? Como seria?

– É óbvio que eu gostaria que elas fossem campeãs, mas chegar à Copa do Mundo já é avançar o próximo capítulo do futebol feminino jamaicano. O primeiro capítulo seria a nossa jornada até a França e todos nós sabemos que isso já é algo para colocarmos em nossos livros de história. A partir daí, eu vejo as Reggae Girlz, e o Caribe como um todo, se preparando para a estreia no Mundial, investindo mais tempo, talento e paixão para estabelecer a nossa região como uma séria comunidade do futebol feminino. Eu acho que isso só tem feito as pessoas abrirem os olhos para assistirem ao que realmente está acontecendo na nossa região. E eu espero que isso traga a mudança.

A Jamaica vai ser o primeiro adversário do Brasil no Mundial da França. Como as meninas estão se preparando para encarar um time com mais experiência?

– Você vai me contar como o Brasil está se preparando? É segredo (risos). Então, basicamente, as minhas irmãs brasileiras também estão jogando com talento bruto, garra e determinação. E é isso que temos em comum. Não somente com o Brasil, mas com os outros times da região. As nossas Reggae Girlz têm atuado em alguns amistosos e têm tido boa performance. Ganhamos da África do Sul por 1 a 0 num amistoso. Estamos dando o nosso melhor com o que temos e espero que a gente consiga bons resultados.

Para fechar, se você pudesse escolher uma música do Bob Marley para representar a seleção da Jamaica, qual seria?

– Com certeza, seria “Get Up, Stand Up”. E eu acho que é autoexplicativo, porque ao invés de dizer “Preacher man, don’t tell me: Heaven is under the hell” (homem pregador, não me diga que o céu está sob o inferno), nós devemos, num geral, dizer que ninguém pode nos falar, como mulheres, que deveríamos nos barrar e não ser vistas, ouvidas ou não jogar futebol. Isso não vai acontecer. Então, definitivamente, “Get Up, Stand Up” seria a música que eu iria escolher para todos os programas que envolvessem mulheres no mundo a fora. E essa música deveria ser um hino para todos os times femininos que estão na Copa do Mundo. É o hino do movimento.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: GloboEsporte

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