Caso Sidão: encoberto por um véu do racismo velado

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O verbete “velado” é um adjetivo que significa: Dissimulado; que não se quer demonstrar: sentimentos velados. Escondido; que está oculto ou coberto por algo.

A palavra pode ser usada para definir o caso envolvendo o goleiro do Vasco da Gama, Sidão que no último domingo (12), teve uma atuação abaixo da média e levou três gols que pontuaram a derrota do clube que defende para o Santos, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro. Com isso, o atleta foi eleito como o “Craque do Jogo”, prêmio concedido pela Rede Globo, por uma votação em massa feita por internautas com o claro intuito de ridicularizar sua atuação no duelo.

Numa análise da situação com o viés do preconceito, muitos desses internautas não se deram conta da discriminação racial sutilmente oculta e que, infelizmente é banalizada e considerada como uma “brincadeira”, de muito mau gosto, cabe ressaltar. A pior forma de racismo é o velado, pois as pessoas o cometem sem enxergar que são racistas. Um problema histórico do Brasil.

Se Sidão falhou em campo, foi um gigante fora dele. Adotou uma postura admirável na hora em que aceitou dar a entrevista a uma jornalista da citada emissora, na saída de campo. Visivelmente abatido, assumiu seus erros antes de ouvir da jornalista que tinha recebido o prêmio, uma covardia com requintes de deboche, e foi humilhado em rede nacional. O jogador abaixou a cabeça e saiu de campo em silêncio, usando uma camisa que trazia nas costas o nome da senhora Vera Lúcia, a quem prestou uma homenagem no Dia das Mães.

“Foi o dia mais triste da minha carreira por estar com o nome da minha mãe nas costas”, declarou o goleiro no final do jogo.

A repercussão foi imediata nas redes sociais e a hashtag #Sidão não demorou a ser uma das mais comentadas no Twitter, e ganhou a adesão de muitos, como a de Maxi Lopez, atleta do Vasco que postou: “Nós jogadores do Vasco estamos arrasados pelo jogo de hoje e sabemos que é um resultado horrível mais o que fizeram com nosso companheiro de clube é inaceitável. Sidão é um ser humano e profissional exemplar e repudiamos qualquer gesto de humilhação. Estamos com você Sidão”.

O arqueiro recebeu apoio de atletas de outros clubes, como Rodrigo Pimpão, do Botafogo, que comentou: “Respeito e empatia são necessários em qualquer profissão. O que aconteceu hoje foi uma profunda falta de respeito e sensibilidade com um colega de profissão”. Assim como o goleiro do Bahia, Douglas que em entrevista ao Esporte interativo declarou: “Nossa cultura é pobre e pequena. O torcedor prefere zoar um profissional, que também é ser humano e pai de família, do que exaltar quem fez boa partida. Falta de sensibilidade do torcedor que não se coloca no lugar do atleta. Foi uma falta de respeito o que fizeram com Sidão”.

Moisés Lima, que defende a camisa do Palmeiras disse, por Twitter: “Nós jogadores, repudiamos a brincadeira de mau gosto feita com Sidão. Nós temos de dar o exemplo de saber perder, mas ser expostos ao ridículo é inaceitável”. Seu clube também prestou solidariedade via redes sociais: “A Sociedade Esportiva Palmeiras respalda a manifestação de seus atletas em apoio ao profissional Sidão, goleiro do Club de Regatas Vasco da Gama. O respeito deve existir sempre”.

O São Paulo, clube onde o goleiro já atuou, divulgou pelo Twitter: “Conhecemos muito bem seu profissionalismo e, principalmente, seu caráter. Por aqui, deixou amigos e gente que torce muito por você. Não tira o sorriso do rosto porque amanhã é um novo dia”. O assunto chegou ao conhecimento da diretoria do Resende Futebol Clube que manifestou prontamente seu apoio, também por Twitter: “No Brasil humilhar as pessoas quando estão por baixo é esporte. Estamos contigo, Sidão! Caso queria vir ao Resende na próxima temporada disputar o Carioca, recebemos de braços abertos”.

O Vasco da Gama divulgou nota oficial, no domingo (12), às 22h56, onde expressou seu repúdio diante da exposição constrangedora do seu atleta em rede nacional. Abaixo, a nota na íntegra:

“Uma infeliz entrada ao vivo para a entrega de um prêmio que evidentemente não representava o espírito proposto. O Clube entende que a ironia, não por outra razão também chamada de “espírito esportivo”, faz parte do futebol. Da mesma forma, o Clube respeita a opinião pública e convive harmonicamente com reivindicações e críticas de seus torcedores e de todo o ambiente do futebol. No entanto, o episódio deste domingo (12/05) vai muito além desta questão. O Clube está convicto de que ele poderia ter sido perfeitamente evitado. A partir deste caso didático, a própria Rede Globo já anunciou que reverá os critérios de votação durante as partidas de futebol, uma maneira de evitar a repetição de situações desrespeitosas a outros profissionais e a depreciação de um importante produto de suas transmissões. Acreditamos que a emissora – uma importante parceira não apenas do Vasco da Gama, mas do futebol brasileiro – terá a habitual sensibilidade para conduzir este caso e, se assim entender, manifestar publicamente um pedido de desculpas ao Club de Regatas Vasco da Gama e a seus torcedores, assim como já o fez ao profissional Sidão.

Manifestamos nossa solidariedade ao atleta Sidão e aproveitamos ainda para agradecer a demonstração de apoio de diversos profissionais, com destaque para o comentarista Walter Casagrande Jr., que reconheceu o deslize, mesmo estando presente na citada transmissão. Este espírito deve guiar a boa convivência no esporte”.

O comentarista da emissora e ex-jogador, Casagrande expressou sua insatisfação com o ocorrido com uma postagem em seu Instagram, onde escreveu:

“Quero pedir desculpas ao Sidão por essa ironia de mau gosto com esse troféu ridículo. Ele é um trabalhador honesto e merece respeito de todos. Me desculpe mesmo”.

Se de um lado, muitos o apoiaram, de outro teve a turma que não se considera racista e postou comentários ofensivos como:

“A zoeira é valida, sempre existiu e vai continuar existindo. A galera votou no Sidão como craque, agora não venha pagar de arrependido”.

“Torcida do Vasco é humilhada pelo time em campo rotineiramente, foi humilhada ao ver o clube contratando Sidão a contragosto e o clube aproveita pra lançar nota oficial por causa da babaquice da Rede Globo. Bela merda”.

“Quando o Muralha virou capa de jornal sendo humilhado ninguém ficou de mimimi, só os rubro-negros abraçaram o cara. Agora vocês querem vir de mimimi por causa de troféu irrelevante do Sidão. Para que tá feio!”.

O último comentário se refere ao episódio lamentável quando o jornal Extra publicou em sua capa, no dia 1 de setembro de 2017, um “comunicado” onde informou que o goleiro Muralha não seria mais tratado pelo apelido por seus jornalistas, numa tentativa de desmerecer o profissional, por “coincidência” também negro. Na época, os responsáveis se recusaram a admitir o erro e afirmaram que fizeram uma piada e que piadas não devem ser explicadas.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

por: Carla Andrade

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