A falácia do ambiente democrático: racismo por questão de cultura

Torcedores na antiga Geral do Maracanã – foto: reprodução

Ipanema, Rio de Janeiro, 1992. O Jornal Nacional apresenta uma reportagem sobre os famosos arrastões que aconteceram nas praias da zona sul carioca naquele ano. Eu, com 13 anos na época, branco, urbano, sem entender a complexidade das diferenças sociais, fiquei perplexo com as imagens. Elas consistiam, basicamente, em jovens, em sua maioria negros, sem camisa, saqueando turistas, em sua maioria brancos, que, sem reação fugiam para a Vieira Souto ou para o mar. A locução de Celso Freitas dava tom a um texto dramático: “ Uma parede humana avança contra os banhistas. Pavor e insegurança. (…) O pânico toma conta da praia. (…) São mulheres, crianças, pessoas desesperadas à procura de um lugar seguro. ”. A mensagem era clara: aquele momento foi de barbárie. Aquilo que não é tão subliminar vem à tona. A praia, o ambiente democrático, a faixa em que, em tese, não há separação por cor, roupa ou classe social, era, naquele instante, tomada por bandidos. Jovens. Negros. Da favela.

O arrastão de 1992 marcou bastante e, um tempo depois, virou pauta de um programa chamado Documento Especial: Televisão Verdade, que passava na TV Manchete e depois no SBT. O apresentador era Roberto Maya, também conhecido por ter sido um ator recorrente em pornochanchadas nos anos 1970 e 1980. O programa era uma espécie de apresentação sem censura do submundo para o mundo. A pauta, óbvia, era O pobre vai à praia. Tem no YouTube e, passados uns 25 anos, chega a ser espantoso como a edição capturou o preconceito do morador da zona sul carioca em relação a quem residia no subúrbio, na zona norte e na favela. O arrastão, narrado em tom de “eles vêm aqui tomar o que é nosso”, foi um pano de fundo que veio a calhar com o pensamento da nobreza carioca. A reivindicação, crua, sem papas na língua, era de uma espécie de “separação por casta” entre quem merecia estar na areia e quem merecia ficar no morro.

Para um desavisado, suponhamos, alguém completamente alheio a qualquer evento cultural – o que é impossível, então que seja um alienígena -, não havia outra mensagem a ser recebida que não fosse o pobre, negro e favelado responsável pela violência, pela barbárie e pela desordem. Mais ou menos como se a única forma da praia se manter um lugar pacífico – ou “de família” ou de “gente de bem” – seria a proibição dos responsáveis por esta barbárie. As entrelinhas são a parte mais perversa do texto. Havia, ali, uma produção de discurso que invocava o créme de la créme do pensamento médio brasileiro: a ideia de uma “higienização social”, da separação hierárquica por cor e classe, do “nada contra, mas cada um na sua”, de expurgar tudo que é primitivo – palavra comumente associada aos negros – do que é civilizado.

A gente aprendeu que os brancos europeus invadiram a África por conta de um irrefreável ímpeto desbravador, quase que por causa de uma inocente “vontade de ver o mundo”. Veja bem, a informação não começou quando o Steve Jobs nasceu. Também era pela economia, pelos recursos naturais e por território. Mas, sobretudo, era por causa do maior poder que se pode ter nesse mundo: dominação cultural. Se você desfaz uma cultura, a transforma e passa a desenvolver uma nova cultura, tem-se aí uma vitória. A Europa coloniza a África por causa de poder. Os livros de História, escritos por brancos e europeus, nos contaram isso de uma forma bem singela: os planos dos “descobridores” era dar civilização ao que era primitivo. A história da civilização é baseada nos grandes impérios. Ela rejeita a África, que só aparece quando justamente nos contam que suas raízes, primitivas, foram exploradas e transformadas em civilização. A história não é contada por quem é mais antigo, é contada por quem tem o domínio cultural dos modos, das produções, da economia e da sociedade. E a história da sociedade humana é norteada justamente por esse conflito: a civilização, o progresso, a tecnologia, o desenvolvimento econômico contra o primitivismo, o arcaico, a barbárie. Os negros ancestrais eram os canibais uivando em volta de um caldeirão de água fervente, com uma comunicação anacrônica e um modo de vida incompatível com aquilo que se determinava como civilização. Ora, todos precisamos comer com talheres, não é mesmo?

Se a gente perguntar o que é civilização, o que é educação e o que são bons modos, a resposta será mais ou menos padronizada. Porque isso é uma construção social determinada por uma hegemonia cultural de pessoas que decidiram que isto seria assim. É o conflito máximo da humanidade e a gente nem percebe. Se as grandes guerras do século XX foram por poder político, o silencioso conflito onde um vencedor já existe há muito tempo é por poder cultural. A cultura dominante no mundo lançou todas as bases de comportamento do ser humano contemporâneo: as ideias de moral, valores, ética, costumes, convivências e sentidos. Em nenhum desses quesitos a cultura ancestral africana está presente. Nesse duelo cultural, há um banditismo sem precedentes: se toleramos as crenças orientais, se entendemos os valores cristãos, se procuramos compreender o islamismo, as tradições africanas foram decompostas a folclore, ideia de barbárie e, na única resistência possível, em incompreensão sobre o que se tratam de fato tais tradições.

Para a África, sobraram as guerras e a ideia do primitivismo. Faça uma pesquisa, sem cunho científico: o modo com que as pessoas no mundo ocidental imaginam uma comunidade em Uganda ou no Quênia, por exemplo, está associada à imagem de pobreza, doença e fome. Efeitos colaterais de um massacre cultural. São incalculáveis os ovos quebrados para que a omelete da civilização fosse cozida. Dispersos pelo mundo, acumularam-se em supostas sociedades mais desenvolvidas, mas do jeito que essa dominação cultural permitia: nas senzalas, nas favelas, nas ruas, na escravidão, na subvida. À margem do processo, criou-se a ideia natural de inferioridade, repassada em gestos que são tão sutis quanto perversos, como, por exemplo, repassar a ideia de que só há violência na praia por causa deles.

A hipocrisia nossa de cada dia faz a gente soltar pérolas como a classificação de ambientes democráticos: a praia, o samba e o futebol, por exemplo. Acho curioso como se atribui ou se convenciona um ambiente democrático só pela presença de negros e pobres. Ambiente democrático é a sociedade, em sua pluralidade, em suas representações para todas as esferas. Não existe ambiente democrático porque a sociedade é culturalmente voltada para um segregacionismo que foi construído historicamente pelos brancos. Também é engraçado quando se fala em meritocracia, quando a gênese de todas as desigualdades são as produções culturais que sempre colocaram o negro como um povo guerreiro, por exemplo. O racismo nasceu muito antes de nós e não basta apenas não falar sobre ele, como disse o Morgan Freeman, para ele desaparecer. Ele está em nós porque a gente foi culturalmente forjado numa sociedade em que ele é muito mais combatido como alívio de consciência do que como de fato uma produção cultural que precisa ser mudada.

No ambiente democrático (sic) do futebol, aquele que não deveria ser racista, porque o maior jogador da história é negro (sic), o racismo é natural. Porque não é um ambiente democrático (sic) separado de ambientes não-democráticos. Ao contrário dos otimistas, deslumbrados e tecnocratas, o futebol não é uma célula separada dos outros fatos sociais. Ele pertence a uma massa social, não é nem apêndice, é parte, é integrante. Então, ele ressona, amplifica e ecoa todos os gritos que a nossa cultura ocidental (de mundo ou submundo) tem para oferecer. Não é porque temos amigos negros que não somos racistas. Não é porque torcemos para o craque negro que não somos racistas. No fundo, mesmo que a gente não cometa nenhum ato racista não estaremos não sendo racistas. Porque aquela imagem do arrastão de 1992 fez com que todo mundo passasse a esconder o relógio na beira da praia depois de ver alguém parecido com aquele que estava cometendo os delitos. Porque assim é que se dá o mundo. A gente é reflexo das mensagens que a gente recebe e da cultura que nos é repassada. A higienização não está no ato, está no sentido: ao passar por uma favela, ao enxergar o negro na praia, ao não compreender porque há um processo natural de distância social que opõe o negro e o branco, ao, depois de um adversário marcar um gol contra seu time, escolher um xingamento de raça para ofender o rival. São os efeitos nefastos de uma cultura perversa: o racismo, antes de mais nada, é sensitivo. Quase instintivo. Por vezes, intuitivo. Sempre, sem exceções, cultural.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

por: Carlos Guimarães

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