Vítima de racismo na Argentina, Baiano relata trajetória até virar jogador

Baiano, de 39 anos, defenderá o Luziânia na Série D do Brasileiro deste ano: satisfeito no DF

Baiano, de 39 anos, defenderá o Luziânia na Série D do Brasileiro deste ano: satisfeito no DF

Dermival Almeida de Lima perdeu os pais quando tinha apenas 16 anos. Foi despejado de casa logo depois da morte da mãe, com seus irmãos, por não pagar o aluguel. Em meio a uma série de adversidades, incluindo uma tentativa de suicídio, conseguiu realizar o sonho de ser jogador de futebol. Nos campos, passou a ser chamado de Baiano.

Às vésperas do Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo — comemorado em 13 de maio —, o jogador nascido em Capim Grosso (BA) contou ao Correio sua difícil trajetória. Com a carreira estabelecida, foi vítima de racismo quando atuou no Boca Juniors, da Argentina, em 2005. Campeão do Torneio Pré-Olímpico de 2000, da Copa Conmebol de 1998 com o Santos e do Brasileirão Série B 2003 pelo Palmeiras, o volante, de 39 anos, vai disputar a Série D 2017 pelo Luziânia. O time estreia contra a Aparecidense, no dia 22. No DF, atuou por Brasiliense, Gama, Brasília e Ceilândia.

          Preconceito

Lá no Boca Juniors, eu estava no céu até o Desábato ser preso naquele episódio com o Grafite. Minha vida virou um inferno, não com a população, mas com os jogadores. Eu era o único negro e brasileiro atuando na Argentina. Os jogadores me xingaram de tudo que se possa imaginar. Eram (primeiro) os adversários nos jogos, mas depois os próprios companheiros do Boca começaram. Quando eu chegava ao vestiário, eles me diziam: “Ah, não o chame de negro”, “não, chama de loiro”, “ele é loiro”, “Grafite”. Aquilo machucava, e eu perdi o prazer de jogar. Alguns jogadores, como Fabián Vargas, Morel Rodríguez, Palácio, Ledesma e o Fernando Gago, falavam para eu não ligar, mas não chegaram a me defender. Depois de oito meses lá, paguei para sair e voltei para o Palmeiras.

          Reação ao racismo

Cada situação é única. A maneira que eu superei foi com muito amor da minha família. Infelizmente, acontece no futebol e na vida. O que eu posso falar para quem passa por isso é que tenha fé em Deus e que nós somos muito maiores e melhores do que qualquer circunstância, o amor supera tudo. Eu tive muito amor no meu lar. Eu sabia que, para o meu filho, eu não era um macaco. Sabia que, para minha esposa e para a minha família, eu não era um negro sujo.

          Infância

Comecei no futebol na escolinha do Verde Natureza, em Capim Grosso. Na rodoviária da cidade, vendia milho, laranja, geladinho. Muito cedo, minha família foi para Santos, tenho cinco irmãos. Fomos num baú de caminhão, eram para ser três dias de viagem e foram seis. Chegamos lá em janeiro de 1991 para trabalhar como camelôs no centro de Santos. Eu vendi meia, cueca, isqueiro. Fiquei de camelô de 1991 a 1996, mesmo jogando no Santos. Morávamos num cortiço, com outras famílias. Havia um banheiro coletivo, que, para você tomar um banho, era preciso ir à meia-noite, uma hora da manhã.

          Santos

Estava jogando na praia numa noite de domingo e, após a partida, um senhor que estava assistindo perguntou por que eu não ia fazer um teste no Santos. Era junho de 1993. Às 6h da segunda-feira, eu estava na Vila. Falei que um senhor tinha me mandado fazer um teste, me perguntaram quem era o senhor e eu disse que não sabia. Não me deixaram fazer o teste. Cheguei em casa e tomei uma surra da minha mãe porque não tinha trabalhado. Na terça e na quarta-feira, aconteceu a mesma coisa. Na quinta, o infantil do Santos ia para um amistoso e faltavam dois jogadores. Aí, pediram para me deixar jogar. Eu me destaquei e voltei para casa com a ficha de inscrição do Santos.

          A perda do pai

Em 1995, minha mãe foi à Bahia. Num sábado, íamos jogar com a Portuguesa pelo Campeonato Paulista Juvenil. Ela me ligou e disse: “Tem três dias que o teu pai faleceu. Não estava conseguindo falar com você”. Desde os 7 anos, eu não via o meu pai; minha mãe tinha se separado dele. E eu já estava com 15, quase 16. Não tinha como eu ir, seriam três dias de ônibus, e ele já tinha sido enterrado.

          A orfandade

Minha mãe voltou para Santos depois da morte do meu pai. Chegou passando mal. Ela ficou bebendo chá de erva cidreira, de capim santo, tratando em casa, porque, quando ia ao hospital público, ficava cinco, seis horas e não era atendida. Acontece que, depois de três meses que eu tinha perdido meu pai, minha mãe morreu. Como não tínhamos dinheiro, ela ia ser enterrada como indigente. Pegamos emprestado e pagamos o enterro. Quando ela morreu, tinha três meses que não pagávamos o aluguel. Não conseguimos pagar porque precisávamos comprar os medicamentos. Ao voltarmos do cemitério, estavam jogados na rua o fogãozinho de duas bocas, um botijão, as meias, as cuecas, as réstias de alho, tudo que nós vendíamos. Quando vi aquilo, bateu o desespero, sem pai, sem mãe.

          Desespero

Depois disso, a primeira coisa que pensei foi em suicídio. ‘Vou tirar minha vida, que assim estarei com a minha mãe’. Caí debaixo do ônibus. Fiquei machucado, sangrando, mas não quebrei nada. Eu lá debaixo do ônibus, aquele desespero, todo machucado, emocional e fisicamente. Saí e fui para a praia, onde eu poderia tomar banho. Entrei direto no mar, os ferimentos doeram mais. Eu me lembrei do Carlão, que fornecia comida no Santos, e fui bater na casa dele. Ele cuidou dos ferimentos e me levou para a igreja. Hoje, é meu pastor.

          Afastamento

Larguei o Santos depois que meus pais morreram. Precisava vender para comer. No Santos não tinha salário. Alguns meses depois, o Coutinho (então técnico do Peixe) me encontrou vendendo no centro e perguntou se eu voltaria para o Santos caso ele arrumasse um lugar para mim no alojamento. Fui morar embaixo da arquibancada da Vila Belmiro. Fui para a Copinha para completar o elenco, acabei jogando e me destaquei. Subi para o profissional pouco tempo depois. O Coutinho e o Carlão foram anjos na minha vida.

          Reconhecimento

Quando eu saí de Capim Grosso (BA), falaram que eu ia para São Paulo ser um trombadinha, um bandido. Eu sempre voltei, uma vez a cada dois anos, mas foi diferente em 2016, quando estive lá para carregar a tocha olímpica (da Rio-2016). Com quase 100 mil pessoas, de Capim Grosso e das cidades vizinhas, gritando meu nome, e meus filhos vendo, o sentimento foi de que valeu a pena tudo o que eu tinha passado. Virar texto de cordel nas escolas e ser exemplo é muito bom.

          Brasília

O Brasiliense me contratou em maio de 2012. Lá fui campeão, joguei Série C e D. Depois, fui para o Gama. Gostei daqui. A minha família sempre abriu mão de tudo para me acompanhar, eu sou casado e tenho três filhos. Hoje, minha esposa faz faculdade de gastronomia. Estamos estruturados aqui e felizes.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 2014 e 2015, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: SuperEsportes

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