Vamos falar de assédios no esporte?

Em fins de abril, o programa Fantástico soltou uma reportagem assinada pela jornalista Joana de Assis sobre assédio na Ginástica Artística, no passado conhecida do grande público como Ginástica Olímpica.[1] Mais especificamente, tratava-se de colocar sob acusação a atuação do ex-membro técnico da seleção nacional desta modalidade, Fernando de Carvalho Lopes. O caso baseou-se em cerca de quatro meses de investigação, 80 pessoas entrevistadas (entre atletas, familiares e dirigentes esportivos da modalidade) e em depoimentos de ex-ginastas do gênero masculino, que o acusaram de assédio físico, moral e (particularmente) sexual em determinado momento de seus treinamentos pessoais.[2] Além disso, Petrix Barbosa, medalhista de ouro por equipes nos Jogos Pan-americanos de Guadalajara, em 2011, se manifestou pessoal e publicamente como um dos principais alvos do ex-treinador. Tal denúncia assumiu grandes proporções e chocou a sociedade brasileira.

Fernando de Carvalho Lopes, que também era técnico de ginástica do Movimento de Expansão Social Católica (MESC), um clube esportivo privado de São Bernardo do Campo, foi afastado de suas funções por tempo indeterminado. Desde 2016, quando surgiram as primeiras denúncias contra ele, o clube o havia colocado apenas em funções administrativas e a Seleção Nacional de Ginástica o havia dispensado do grupo, um mês antes dos Jogos Olímpicos do Rio. Consta que, na época, ele estava encarregado dos treinos dos ginastas Diego Hypólito e Caio Souza.

Não sou da área da Ginástica Artística masculina (apesar de tê-la praticado durante anos), mas como pesquisador que estuda gênero e sexualidade no esporte, gostaria de me manifestar a respeito. Claro que o caso de assédio sexual no campo esportivo é condenável e deve ser combatido; eu mesmo já narrei algo do tipo com atletas mais jovens no futebol.[3] Nada justifica o abuso sexual de outras pessoas (inclusive menores), principalmente sem consentimento. Contudo, na maioria das vezes, esse espanto sofrido pela sociedade com a deflagração de uma denúncia como esta diz respeito à separação, tão comumente efetuada, entre esporte e sexualidade. Para as pessoas, o esporte é outro mundo, talvez puro e inocente, apartado da vida mundana de meros mortais. No momento em que um fato se tona “escândalo sexual” no esporte acaba assumindo proporções gigantescas, justamente por má interpretação e mal entendimento das problemáticas de gênero e sexualidade nele imiscuídas.

Ex-treinador da seleção de ginástica Fernando de Carvalho Lopes foi acusado de abuso sexual. Foto: Ricardo Bufolin/Divulgação/CBG.

Quando se considera um/a atleta, de qualquer modalidade (individual ou coletiva), com qualquer nível de desempenho, imagina-se que ele/ela é assexuado/a, que não explicita sua sexualidade nem desejos, que vive “para o treinamento”. Assim se trata, também, àqueles/as com quem treina esse/a atleta, isto é, seus/suas técnicos/as, preparadores/as físicos/as, massagistas e afins. Por isso a sociedade também se espanta quando organizadores de megaeventos (como Copas do Mundo de Futebol e Jogos Olímpicos) distribuem milhares de unidades de preservativos masculinos em suas instalações ou nas Vilas Olímpicas. Para o grande público não há vinculação entre esporte e (explicitação) da sexualidade, em que pese especialistas dizerem que, com treinamento físico intenso, a liberação de fortes quantidades de hormônios (como dopamina, serotonina, endorfinas) provoca no corpo sensações de bem-estar e felicidade, potencializando-o, inclusive, para relações sexuais. Além disso, estar num evento de grande importância, em especial de modalidades muito televisionadas, deixa todos/as esses/as participantes bastante agitados e excitados – e por isso, na atualidade, também se justificam os trabalhos desenvolvidos pela psicologia do esporte junto a tais grupos de indivíduos.

Dessa forma, cabe sublinhar que esporte não está apartado da vida e muito menos da sexualidade! As pessoas envoltas com o campo esportivo comem, dormem, relacionam-se, riem, choram e, inclusive, fazem sexo como todas as outras pessoas, que não se encontram inseridas nesse campo.

Obviamente, nada justifica o caso de assédio sexual de Fernando em relação àqueles ginastas, mesmo porque era uma prática rotineira e fora de eventos esportivos. E aí aparece outra dimensão que deve ser sublinhada, qual seja, a do poder que exerce alguém na função de comando (técnicos/as, auxiliares técnicos/as, preparadores/as físicos/as) frente a atletas. O poder sobre o corpo do outro é tamanho que esse outro (seja ele quem for, um ginasta adolescente, uma patinadora infanto-juvenil ou um jogador adulto de futebol) acaba se submetendo a ele em forma de reverência e submissão.[4] Quem nunca assistiu, por exemplo, nas entrevistas coletivas de futebol masculino, um atleta se referindo ao técnico como “o professor”? Isso é a materialização do poder constituído na figura de autoridade, seja pelo carisma, seja pela violência. É nesse sentido que entendemos porque demorou tanto tempo para Fernando ser denunciado: a autoridade constituída por ele, junto à equipe de jovens adolescentes ginastas, colocava-o num lugar de inatingível (mesmo frente a tamanho abuso que praticava em relação àqueles corpos).

Portanto, mais do que tentar jogar novas luzes sobre o caso de assédio na Ginástica, ou extrair algo da situação que, certamente, os jornalistas já realizaram à exaustão, procurei trazer outras dimensões não comuns de um universo que, embora muito midiatizado e divulgado, é pouco conhecido das pessoas. Não se tratou aqui de achar uma explicação geral que interprete “o caso de assédio” na Ginástica Artística e também estou longe de tentar explicar as pulsões sexuais do ex-treinador envolvido na situação. Particularmente isso cabe a outros/as especialistas.

Gostaria de finalizar meu texto com uma reflexão, clara e potencialmente inquietante. Frente a todo o ocorrido, o Ministério dos Esportes disse “condenar todo e qualquer caso de assédio e abuso sexual e defender a completa investigação do caso por parte das autoridades competentes, com punição exemplar dos responsáveis”.[5] Resta-nos perguntar sobre quem vai puni-lo (ou nos punir) acerca do assédio moral a que os atletas/os brasileiros/as são submetidos/as frente às suas/nossas exigências pelas conquistas de medalhas em nome do país? Ou esse assédio praticado pelos órgãos oficiais e pela população em direção aos “ídolos de ocasião” não se trata de uma forma de assédio em vigor no esporte?

NOTAS DE RODAPÉ

[1] Fonte escrita (da reportagem televisiva): “Escândalo na Ginástica”. Globo Esporte (online). Disponível em: <http://interativos.globoesporte.globo.com/ginastica-artistica/abuso-na-ginastica/especial/escandalo-na-ginastica>, acesso em 30 abr 2018.

[2] Fonte: “Clube afasta técnico de ginástica artística por denúncia de abuso sexual”. Jornal Nacional (online). Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/04/clube-afasta-tecnico-de-ginastica-artistica-por-denuncia-de-abuso-sexual.html >, acesso em 30 abr. 2018.

[3] Texto publicado no site Ludopédio, em 15.04.2018: “Eu só queria jogar futebol”. Disponível em < http://www.ludopedio.com.br/arquibancada/eu-so-queria-jogar-futebol/>, acesso em 09 mai 2018.

[4] Agradeço a Laurita Marconi Schiavon, professora da Universidade Estadual de Campinas, o lembrete desta dimensão. Debatemos que ela ser mais bem explorada cientificamente, principalmente na Ginástica Artística.

[5] Fonte: “Clube afasta técnico de ginástica artística por denúncia de abuso sexual”. Jornal Nacional (online). Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/04/clube-afasta-tecnico-de-ginastica-artistica-por-denuncia-de-abuso-sexual.html >, acesso em 30 abr. 2018.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Ludopédio

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