Transgêneros se unem para formar time de futebol e ‘família’ em SP

Foto oficial: integrantes do time dos 'Meninos Bons de Bola', formado só por jovens transgêneros, após o treino do último domingo (14) (Foto: Fábio Tito/G1)

Foto oficial: integrantes do time dos ‘Meninos Bons de Bola’, formado só por jovens transgêneros, após o treino do último domingo (14) (Foto: Fábio Tito/G1)

Uma quadra de esportes na região central de São Paulo é o local escolhido por um grupo de rapazes transgêneros (que nasceram biologicamente do sexo feminino mas se identificam como masculino) para se reunir, jogar bola e trocar ideias sobre muitas coisas em comum: paixão pelo futebol, namoros, tratamentos hormonais e cirurgias. Mais do que um time, os integrantes dos “Meninos Bons de Bola” formam uma família.

A ideia de formar um time surgiu há cerca de nove meses em uma conversa entre o orientador socioeducativo transgênero Raphael e a psicóloga Moira Escorse, quando ambos eram amigos e colegas de trabalho no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD) da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social.

“Pesquisei e vi que muitos meninos transgêneros já tentaram suicídio e estavam saindo ou entrando em uma depressão, como eu. Junto com a Moira, pensamos: ‘Por que não fazer uma atividade que una esses meninos como uma família para conversar sobre hormônios, cirurgias e namoradas?’”, lembra Raphael, que tem 30 anos e, embora tenha nascido biologicamente menina, sempre se identificou como menino.

O primeiro treino dos “Meninos Bons de Bola” aconteceu no dia 28 de agosto de 2016, no Parque da Juventude, na Zona Norte de São Paulo, e reuniu cerca de 30 meninos trans que Raphael convocou por meio de grupos que participa nas redes sociais.

“Depois da primeira partida, sentamos em círculo e cada um contou um pouco da sua história. Foi bem forte. Somos invisíveis ainda e temos necessidade de falar”, afirma Raphael, que embora tenha nascido biologicamente menina, sempre se identificou como menino. “Hoje, se um de nós compartilha pensamentos negativos, acolhemos. Damos bronca, parabéns, nos incentivamos. Nos tornamos uma família”, acrescentou.

Treino dos 'Meninos Bons de Bola', time composto só por homens transgêneros que se reúne semanalmente para 'pelada' seguida de bate-papo (Foto: Fábio Tito/G1)

Treino dos ‘Meninos Bons de Bola’, time composto só por homens transgêneros que se reúne semanalmente para ‘pelada’ seguida de bate-papo (Foto: Fábio Tito/G1)

A psicóloga Moira Escorse, que além de trabalhar no CRD também atende em uma clínica particular, conta que acompanhou os momentos iniciais de formação deste time. “Os meninos compartilhavam olhares e silêncios que confortavam e ajudavam a aliviar o peso de ser quem se é. Porque no fundo eles pagam um preço bastante alto perante esta sociedade machista, patriarcal e preconceituosa”, diz Moira.

Nesta quarta-feira (17) é celebrado o Dia internacional da luta contra a homofobia e transfobia.

A especialista explica que estratégias de interação, seja via debates, discussões ou esporte, podem colaborar com o bem-estar deste público e favorecer aberturas individuais. “Existe uma imensa tendência ao isolamento, mas enfatizo que é uma depressão pressionada pela sociedade, que exclui esta pessoa ao mostrar que ela não tem lugar de pertencimento, que não tem reconhecimento enquanto indivíduo de direito e de afetos, sendo que assim, cabe a pessoa transexual o lugar da exclusão ou da depressão e/ou suicídio, seja físico, psicológico ou moral”, completa.

          Meninos Bons de Bola

O time de futsal conta com 20 jogadores; três deles jogaram no futebol profissional, e os demais no amador. Os treinos aconteciam no Parque da Juventude, mas mudaram de endereço desde que 20 homens abordaram o grupo dizendo que não poderiam continuar ali.

Eles conseguiram doação de uniformes, chuteiras e bolas, mas não têm mais parceiros e estão sem técnico também. A equipe já participou de sete jogos em festivais e amistosos, e tem a meta de entrar em alguma competição ainda no segundo semestre deste ano.

Os jogadores procuram caminhar ou correr durante a semana, não só por conta dos treinos, mas também devido às doses de hormônios, que causam ganho de peso se não houver controle de alimentação e exercícios.

Nem todos no time fazem o tratamento com hormônios ou se preparam para cirurgia, e apenas o jogador Cláudio Galícia (apelidado ‘Vovô’, o mais velho do elenco) já fez a mudança do nome, mas cada atleta está em uma fase especial da transição.

          Raphael Martins (Dan), ala direito

Raphael atua como ala direito, é fã da jogadora Marta e praticou futebol durante muito tempo no campo – onde, aliás, ganhou o apelido de ‘Dan’ porque roubava danone de colegas de equipe. As questões de gênero lhe interessam desde a infância.

“Na adolescência me assumi como lésbica, mas ainda me sentia estranho. Isso me atormentou e comecei a me informar. Foi difícil achar profissionais capacitados. Vou fazer uma cirurgia para remoção dos seios depois de 10 anos me preparando com ginecologistas, endocrinologistas, psiquiatras e psicólogos. Estou feliz, mas também preocupado e ansioso.

Já enfrentei tantos momentos de discriminação que me sinto anestesiado. O pior aconteceu há três anos, quando tomei um táxi, sentei no banco da frente, e o motorista começou a me ameaçar dizendo: ‘Vou te mostrar como ser mulherzinha’. Dei uma cotovelada nele e consegui pular para fora do carro, que estava parado no semáforo, mas isso me marcou muito. Tentei suicídio com remédios porque eu pensava que não queria viver nesse mundo.

Minha mãe, sempre me apoiou, mas faleceu recentemente. Foi ela quem escolheu meu nome, Raphael”.

          Bernardo, goleiro

Bernardo tem 28 anos, é professor e atua como goleiro no time. Disse enfrentar discriminação diariamente e vê o time “quase que como um pretexto” para se preocupar com o próximo.

“Não é fácil para a minha família porque conviveram comigo durante 25 anos como Bianca. É uma transição lenta e gradual, em que você precisa se posicionar o tempo todo e pedir para que te chamem no masculino. Com a minha sobrinha, que tem 5 anos, foi muito mais fácil porque ela não está contaminada com um monte de preconceitos de gênero e identidade.

Estou reunindo os documentos para fazer a retificação do nome, mas não é um processo barato, nem fácil. Custa R$ 4 mil para mudar o gênero e o nome civil na identidade.

Discriminação acontece o tempo todo por conta da aparência, e quando a gente fala que é homem trans, a situação piora porque somos vistos como monstros. No Metrô levo muita cotovelada.

Esse time para mim é importante em várias perspectivas. A gente se sente muito sozinho e este time reúne meninos da cidade toda, que têm vontade de jogar bola e gostariam de fazer isso com outros caras trans porque as vivências são muito parecidas. Não é só treino, mas apoio e assistência. O treino é quase um pretexto para que a gente se conheça, esteja próximo e se preocupe um com o outro.”

          Pedro Eduardo, pivô

Pedro atua como pivô e, diferentemente da maioria dos amigos, sempre teve o apoio da família, inclusive da irmã gêmea.

“Meu ídolo é minha mãe, uma guerreira que criou a mim e a minha irmã, mesmo com as dificuldades financeiras. Ela só estudou até a 4ª série, mas é uma pessoa que sempre está aberta para receber minhas informações. Existe uma falta de conhecimento sobre o assunto, mas tenho um grande apoio na família e levo o que aprendo para eles.

Eu e minha irmã gêmea éramos vestidos igualmente na infância, com vestidos e roupas femininas, e eu entrava em pânico, chorava. Nas brincadeiras, ela sempre me deixava ser quem eu queria. Eu sempre era o pai e tinha os nomes e as figuras masculinas, e a defendia como irmão. Sempre tive essa postura.

Na sétima série, uma professora lançava olhares preconceituosos. Uma vez eu estava distraído e não ouvi ela me chamar. De repente, escuto ela dizer “ei, Maria Machadão’. Perguntei se ela estava falando comigo e ela disse ‘Sim, por quê? Tem mais alguma Maria Machadão aqui?’. Virei motivo de risos e os colegas passaram a me tratar assim.”

          Gabriel Henrique, atacante

Gabriel, de 23 anos, começou a jogar futebol incentivado pelo pai, e passou por clubes como São Paulo e Corinthians. Ele já foi agredido por skinheads e foi parar no hospital.

“Jogo bola desde os sete anos e meu pai sempre me incentivou. Sempre usei roupas masculinas com incentivo do meu pai e da minha madrinha. Acho que sempre fui o menininho dele.

Já joguei no masculino de vários times, como São Paulo, Corinthians e Juventus, comecei aos 14, 15 anos. Nunca sofri preconceito com os outros jogadores nesses times. Não me viam pelo nome, mas pelo que eles viam em campo. Aceitavam de boa, sem preconceito.

Quando eu ainda estava me descobrindo fui agredido por skinheads na Avenida Paulista. Dois caras começaram a provocar meus amigos gays e, quando eles, fugiram, implicaram comigo, dizendo que se eu queria ser homem, eles me ensinariam.”

          Robert Costa, pivô

Robert tem 26 anos e uma trajetória marcada pelos obstáculos que enfrentou por viver em um mundo de desinformação.

“Desde a infância lido com preconceito e enfrentei bullying na escola. Me senti perdido e me envolvi com drogas. Não tinha nenhum ideal e se eu morresse estava no lucro. Conheci um advogado que salvou a minha vida.

Pesquisei sobre transexualidade e me identifiquei. Tive uma recaída e conheci um psicólogo que me ajudou, mas profissionais não entendem o assunto.

Minha família não opina na minha vida. Eu não dou abertura, só comunico. Na infância, diziam que eu estava doente por ser lésbica. Tentei me matar quando meu pai também ficou contra mim.

O time é um meio de interagir, um lugar de união. Somos um pouco isolados. Cada um é psicólogo um do outro, e tem tudo para dar certo. Só precisa do comprometimento de todo mundo para continuar”.

          João Gabriel Lopes (Gold), ala esquerdo

João Gabriel, de 19 anos, apelidado “Gold” devido a um grupo de amigos do colégio, conta que desde criança todo mundo já reconhecia que ele era diferente.

“Fiz a transição no final do ano passado, aos 18 anos. Tinha na cabeça que era melhor esperar [a maioridade], pra que já fosse mais independente e não dependesse de assinatura dos meus pais pra nada. Eles abraçaram, mas foi um pouco difícil. A questão são os rótulos que a sociedade coloca.

Se puder falar de um ídolo que não seja do futebol, seria a atriz Carol Duarte, que interpreta a Ivana, personagem transgênero da novela das 9 (‘Força do Querer’). Ela tem mostrado bem o que é a luta interna de um homem trans, isso é muito importante.

Meu objetivo é jogar um dia no futebol profissional como homem.”

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 2014 e 2015, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: GloboEsporte

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