No que lesiona o Tinga alguém chama-lo de Macaco?

Caro Paulo Sant’Ana.

Acredito que você sabe que uma das principais justificativas para a escravidão foi a ideia errônea de que os negros eram uma raça inferior, assemelhada aos símios. Acreditavam que eles eram atrasados, estúpidos e de uma simplicidade brutal. Desta forma, passou-se a aplicar a discriminação com base racial para justificar a escravidão negra.

Nesse sentido, ainda, é importante salientar que “o tráfico negreiro foi uma das atividades mais importantes da Idade Moderna, ao lado do comércio das especiarias orientais, da produção de açúcar e da mineração”. Sendo assim, era preciso ter argumentos científicos e religiosos para a escravidão, alguns perpetuados até os dias de hoje.

Sobre a África negra, foi disseminada a ideia que seus habitantes levavam uma existência infeliz e miserável, ou, pelo contrário, viviam num estado de beatitude, adquirindo sem esforços os produtos maravilhosos da natureza, enquanto o Ocidente, por sua vez, era obrigado a assumir as duras tarefas da indústria.

Durante muitos anos, nós, negros, fomos proibidos de frequentar escolas, pois éramos considerados doentes de moléstias contagiosas. Os poderosos do Brasil sabiam que o acesso ao saber sempre foi uma alavanca de ascensão social, econômica e política de um povo. Através de decreto, os racistas do Brasil encurralaram a população negra nos porões da sociedade. Lugar que, até hoje, muitos negros ainda vivem.

Não obstante, não se pode negar a diferença conceitual entre genótipo e fenótipo, porquanto, apesar da identidade cromossomial, as expressões exteriores são tecnicamente capazes de estabelecer padrões distintivos externos, não significativos – por óbvio – de superioridade ou de inferioridade apriorísticas, mas úteis a categorizações ou taxonomias de natureza antropológico-sociológica. Tais elementos fenotípicos podem relacionar-se com variáveis ambientais, temporais, geográficas e climatológicas.

Baseado na questão da inteligência ou cor de pele se perpetuou a comparação entre os negros e os símios e por essa razão nós negros não queremos ser chamados de Macacos, até porque, ninguém usa essa comparação para nos elogiar. Caso fique em dúvida, olhe os últimos fatos que aconteceram no Brasil e no mundo.

O seu questionamento ao perguntar “No que lesiona o Tinga, ou qualquer outro negro, chama-lo de Macaco?” é repugnante e mal intencionado, afinal, é proveniente de um formador de opinião. Além do que, traz consigo a arma mais vil que o sistema usou para perpetuar o racismo até os dias de hoje: o de desqualificar a acusação. O racismo dever ser combatido sempre, por todos, em qualquer circunstância, independente do sentimento passional que o futebol carrega.

Para encerrar, declaro que chega a ser triste e cansativo ver pessoas que não têm ideia do que significa receber (e/ou, sentir) insultos racistas tentando justificar atitudes condenáveis, como foi o seu caso no programa Sala de Redação de segunda-feira.

Marcelo Carvalho