É preciso estômago forte para assistir aos vídeos abaixo. Neles, personagens do futebol relembram abusos sofridos em campo, comportamentos que não nasceram com a banana lançada ao gramado e mastigada por Daniel Alves, ou com as frutas sobre o carro depredado de Márcio Chagas. O preconceito é histórico. Não surpreende, portanto, que recente pesquisa do Instituto Methodus, com 300 porto-alegrenses, apontou que 50,3% dos entrevistados já testemunhou xingamentos racistas proferidos em estádios. Quando Tinga ouviu “uh, uh, uh” em Garcilaso, ou no instante em que Arouca foi chamado de macaco em Mogi, estavam sofrendo a discriminação que nunca sumiu. A novidade do início de 2014 está na impressionante sequência, de Lúcio a Neymar, de Márcio Chagas a Paulão. Nos vídeos e textos desta página, ZH ouve pesquisadores, torcedores, árbitros e jogadores para tratar de um fenômeno antigo que se espalhou feito vírus nos últimos meses.

Link para os vídeos

Como os moradores de Porto Alegre veem o racismo

83,7% Dos porto-alegrenses ouvidos pelo Instituto Methodus creem que o termo “macaco” em cânticos tem conotação racista

50,3% Dizem ter presenciado, em estádios de futebol, alguém chamar o juiz/jogador de “macaco”, “negão” etc

80,2% Acreditam que atitudes de violência ou preconceito têm se intensificado no futebol nos últimos anos

Mais racismo ou mais denúncias?

A explosão de casos no Brasil e Exterior levantou a questão: foi o racismo ou o número de denúncias que aumentou no futebol? Quantificar o problema é tarefa difícil, já que tribunais esportivos como o TJD-RS, no âmbito regional, e o STJD, no nacional, não têm levantamentos para medir a evolução do preconceito.

Basta lembrar das últimas edições do Gauchão, porém, para verificar o crescimento. O último registro de racismo era de 2012, sofrido por Vanderlei, do Caxias. Em 2014, três ocorrências vitimaram Lúcio, do São Paulo-RG, Márcio Chagas e Paulão, do Inter.

Diante da súbita onda de casos, pesquisadores procuram respostas. Apontam o possível aumento do racismo, mas também a conscientização para denúncia e repercussão de comportamentos antes vistos como normais.

– Houve, na minha opinião, um recrudescimento recente de vários preconceitos, inclusive o racismo. Na medida em que algumas atitudes promoveram ascensão social de certos grupos, isso desacomoda outros setores, que reagem – destaca o professor de história da UFRGS, César Guazzelli. Arlei Damo, chefe do Departamento de Antropologia da UFRGS, concorda:

– É preciso notar a modalidade de racismo à brasileira, que é invisibilizado por conta do modelo hierárquico da sociedade. Enquanto os negros estão “no seu lugar”, que é subalterno, não há problema nenhum. O que aconteceu nos últimos 20 ou 30 anos foi uma mobilização de movimentos que trabalham com conceitos igualitaristas. E esses conceitos permitem que atos racistas sejam vistos como algo anacrônico, quando antes faziam parte da rotina.
Com punição aos clubes, esperança é de criar “vigilância interna”

Quando o caso Márcio Chagas resultou na perda de pontos e rebaixamento do Esportivo, houve quem reclamasse da sanção à instituição, com o argumento de que é injusto fazê-la pagar pela ação de alguns de seus torcedores. Um dirigente do clube, em e-mail enviado ao colunista Adroaldo Guerra Filho, do Diário Gaúcho, levanta até a possibilidade de que torcedores do Veranópolis tenham depredado o carro do árbitro, relatando que o portão de acesso ao estacionamento não estaria trancado na noite do episódio.

Versões divergentes à parte, quem apoiou e fundamentou a punição espera que ela crie uma espécie de “vigilância interna”, da mesma forma que ocorreu quando casos de invasão de campo passaram a prejudicar os clubes.

– Essas são as punições devidas. São fortes, mas tocam aquilo que deve ser tocado. Elas atacam a coletividade, e aí passa a existir um controle coletivo – diz Damo.

A simples sanção, porém, pode não ser suficiente. O professor da UFRGS e doutor em Educação Física pela Universidade do Porto, em Portugal, Marco Paulo Stigger, lembra de que o esforço de conscientização não pode ser abandonado:

– Se vou me pautar só pela punição, estou abrindo mão do processo educacional, da esperança nos seres humanos, da possibilidade de que as coisas mudem efetivamente.
Ascensão e queda do #somostodosmacacos

Daniel Alves ainda sentia o gosto da banana mastigada em Villarreal quando Neymar publicou uma foto ao lado do filho no Instagram. A dupla, sorridente, imitava o gesto do lateral do Barcelona. Era o início da campanha #somostodosmacacos, que rapidamente se espalhou.

Não é nova a ideia de um grupo “abraçar” o termo que surgiu para inferiorizá-lo. Ao apropriar-se do xingamento comumente usado por quem tem preconceito de gênero, a Marcha das Vadias, por exemplo, procura tirar força do apelido que surgiu como insulto às mulheres.

No caso da discriminação racial, porém, a rejeição foi grande, e o movimento de descrédito veio na mesma velocidade da propagação. O próprio Daniel Alves disse “não gostar” da campanha em entrevista ao programa Altas Horas, da TV Globo. E a contrariedade não se limitou aos macacos e bananas da mensagem.

Muitos dos internautas que deram apoio inicial com retuites e curtidas se revoltaram com a utilização comercial da causa. A agência de publicidade Loducca, a pedido de Neymar, foi responsável pela concepção do conteúdo, o que gerou desconforto por pressupor o planejamento prévio do gesto de Daniel Alves. Pouco depois da publicação da imagem de Neymar, uma camisa que replicava a mensagem estava à venda no site da grife do apresentador Luciano Huck , aumentando a rejeição à campanha.

A onda de críticas motivou nota oficial da agência, em que justifica o conteúdo por emitir “alerta aos brancos que somos todos iguais, vindos do mesmo macaco”. A Loducca ainda lamentou suposto preconceito com a campanha por ter sido concebida por uma agência de publicidade.

“Macaco imundo” e o apelido da discórdia

“Somos campeões do mundo,
da Libertadores também,
chora macaco imundo,
que nunca ganhou de ninguém.”

Os versos acima são repetidos em quase todos os jogos do Grêmio, enquanto se acirra o debate sobre o apelido de “macaco” para designar o Inter e seus torcedores.

Colorados reclamam de racismo e lembram da tardia aceitação de jogadores negros pelo rival. Por outro lado, há gremistas que negam preconceito na alcunha. Citam a versão de que o apelido surgiu porque os colorados subiam em árvores para assistir aos jogos na Chácara dos Eucaliptos, primeiro estádio utilizado pelo Inter.

Hoje, a polêmica vai muito além da discussão sobre sua origem, e passa pela forma como o termo é interpretado pelos dois clubes. Diante dessa mescla de opiniões, ZH questionou jogadores, pesquisadores e torcedores sobre o assunto. Confira:

Fonte: Zero Hora