Seleção Brasileira - 1950. Em pé: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer e Bigode. Agachados: Friaça, Zizinho, Ademir, Jair, Chico e Mário Américo (massagista). Copyright: Wikicommons

Seleção Brasileira – 1950. Em pé: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer e Bigode. Agachados: Friaça, Zizinho, Ademir, Jair, Chico e Mário Américo (massagista). Copyright: Wikicommons

A história do futebol brasileiro contém, ao longo de um quase um século, registros de episódios marcados pelo racismo. Eis o paradoxo: se de um lado a atividade futebolística era depreciada aos olhos da “boa sociedade” enquanto profissão destinada a pobres, negros e marginais, de outro ela se achava investida do poder de representar e projetar a nação em escala mundial.

O processo de difusão do futebol em São Paulo teve ao longo da história um caráter multifacetado, percorrendo vários espaços lúdicos, engajando inúmeros agentes sociais, avançando mediante uma dinâmica não isenta de contradições. Desde as escolas religiosas, passando pelos times de fábrica, incluindo os clubes de elite, a bola começou a rolar muito cedo – no Velódromo Paulista e na Várzea do Carmo.

Por toda parte, ela estimulava a formação de equipes, atraía a atenção do público, abria caminho entre as classes sociais e os grupos étnicos, seguindo o traçado das linhas de ferro, como, por exemplo, o da Ponte Preta, em Campinas, onde, como revela o historiador José Moraes Neto, em 1900 atuava Miguel do Carmo, jovem ferroviário e jogador negro.

          Vínculo menos assimétrico entre negros e brancos

O trem do futebol descortinava perspectivas promissoras no terreno das relações sociais. Mas embora transportasse ricos e pobres, negros e brancos, ele o fazia alocando os diversos grupos em vagões separados, combinando os critérios de distinção social com os da discriminação racial para reservar à juventude privilegiada o uso exclusivo da primeira classe. Enquanto esta agia de modo a reforçar as divisões internas da composição, a mocidade alegre dos subúrbios buscava franquear a passagem a fim de enriquecer a experiência da viagem.

Caberia, nesse sentido, um papel de destaque aos jogadores que logravam transitar entre os diversos compartimentos – mediadores culturais que atuavam tanto no circuito oficial dos clubes de elite, quanto nos circuitos populares dos times de várzea. De acordo com o historiador René Duarte Júnior, tal era o caso de Arthur Friedenreich, o qual, antes de se distinguir no aristocrático Paulistano havia jogado no modesto São Paulo.

Friedenreich: trânsito entre os dois lados

Autor do gol da vitória contra o Uruguai, por 1 a 0, na dramática decisão do Sul-Americano de 1919, ele também participava dos jogos comemorativos da Abolição celebrados a cada 13 de Maio entre “Pretos x Brancos”. Mestiço, filho de um imigrante alemão e de uma afrodescendente, o atacante ora alinhava ao lado dos primeiros, ora cerrava fileiras com os segundos, desvelando a complexidade das relações raciais e a margem de manobra dos atores, bem como o jogo sempre aberto e indefinido das identidades coletivas. Os encontros festivos, no entanto, acabaram proscritos pelo Estado Novo, contrário a toda forma de manifestação que explicitasse os antagonismos raciais na sociedade. Além disso, no início dos anos 1930, o futebol enfrentaria os solavancos provocados pelos embates entre os adeptos do amadorismo versus os defensores do profissionalismo.

          Leônidas da Silva: identidade ambígua do atleta

Seria nesta conjuntura adversa que, na estação de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, Leônidas da Silva pegaria o bonde da história. Símbolo da proeminência adquirida pelo boleiro em detrimento do sportman, ele encarnava a mudança destinada a apagar os últimos vestígios da marca refinada, esnobe e excludente que a juventude privilegiada procurara atribuir à prática do esporte inglês, substituindo-a gradativamente por uma feição mais popular do jogo, por uma dimensão mais nacional do futebol, por uma identidade mais ambígua do atleta, como nos permite inferir a observação do próprio Diamante Negro: “naquela época”, jogador “era tratado como marginal”.

Eis o paradoxo: se, de um lado, a atividade futebolística era depreciada aos olhos da “boa sociedade” enquanto profissão destinada aos pobres, negros e marginais, de outro lado, ela se achava investida do poder de representar e projetar a nação em escala mundial.

          Riscos simbólicos

A realização da Copa do Brasil em 1950 viria a se constituir, neste sentido, em uma rara oportunidade. A rigor, o clima de otimismo já se encontrava instalado muito antes do início da competição. Contudo, no dia da decisão contra o Uruguai sobreveio o inesperado revés. Foi, então, que os torcedores descobriram os riscos simbólicos envolvidos na tarefa de reimaginar a nação dentro das quatro linhas do campo.

As reportagens da crônica esportiva elegiam o goleiro Barbosa e o defensor Bigode como bodes expiatórios, exprimindo a vontade de “descarregar nas costas” dos referidos jogadores os “prejuízos” acarretados pela derrota. Uma chibata moral, eis a sentença proferida no tribunal dos brancos.

           A revolta da chibata

Nos anos 1970, por não atender às expectativas normativas suscitadas pelo estereótipo do “bom negro”, Paulo César Lima foi classificado como “jogador-problema”. Responsabilizado pelo fracasso do Brasil na Copa da Alemanha, pleiteava o direito de voltar a vestir a camisa verde e amarela. O rumor de que o banimento tinha o respaldo de um ministro de Estado, não o surprendia: “Se for, mais uma vez vou ter a certeza de que sou um negro que incomoda muita gente”. E acrescentava: “Não vou ser um negro tímido, quieto, com medo e temor das pessoas”.

Dessa maneira, nas páginas de O Estado de S.Paulo, Paulo César esboçava a revolta da chibata no futebol brasileiro. Enquanto Barbosa e Bigode, sem alternativa, suportaram com dignidade o linchamento moral na derrota de 1950, Paulo César contra-atacava os que pretendiam condená-lo pelo insucesso de 1974, reeditando as acusações de “covarde” e de “mercenário” – as mesmas dirigidas a Leônidas no passado. Ao contrário de Friedenreich, no entanto, Paulo César assumia, sem ambiguidades, as cores e as causas defendidas pela esquadra dos pretos em todas as esferas da vida social.

“Sinto na pele esse racismo subjacente”, revelou certa vez à imprensa francesa: “Isto é, ninguém ousa pronunciar a palavra ´racismo`. Mas posso garantir que ele existe, mesmo na Seleção Brasileira”. Sua ousadia consistiu em pronunciar a palavra interdita no espaço simbólico utilizado pelo discurso oficial para reafirmar o mito da democracia racial.

Texto de: José Paulo Florenzano, professor de Antropologia da PUC-SP e autor do livro “A Democracia Corinthiana” (2009).

Fonte: GoetheInstitut