Richarlyson, sobre homofobia: “É vazio, tão pequeno para aquilo que eu sou”

Richarlyson, volante do Guarani, diz que preconceito não atrapalhou sua carreira (Foto: Reprodução SporTV)

Richarlyson, volante do Guarani, diz que preconceito não atrapalhou sua carreira (Foto: Reprodução SporTV)

No mundo cão do futebol, aquele infestado de preconceito, talvez Richarlyson tenha sido a maior vítima. Não faz muito tempo. Há praticamente três meses, o meio-campo de 34 anos, com um currículo cheio de títulos e passagens marcantes, principalmente pelo São Paulo e Atlético-MG, viveu mais um episódio triste em tempos de retrocesso da sociedade. Foi apresentado ao Guarani para disputar a Série B debaixo de protestos e até bombas. Em mais capítulo da série sobre “Homofobia no Futebol” apresentada pelo “Tá na Área” desta segunda, o jogador falou abertamente sobre o assunto no CT do clube campinense, e, principalmente, sobre o lamentável incidente.

– Eu fui questionado sobre o tumulto que aconteceu na minha chegada. Eu falei: “Você quer que eu fale o que sobre isso? Para pessoas que são ignorantes… São pessoas vazias, que não respeitam as pessoas. Nem me conhecem. Vocês querem que eu fale o que para essas pessoas? Eu não tenho o que falar. Para mim, não muda. É uma pessoa vazia. Por isso não gosto de comentar. Para mim é vazio. É tão vazio, é tão pequeno, para aquilo que eu sou, de onde eu vim. O que eu precisei conquistar… Pra que eu vou debater?” – disse o jogador.

A polêmica sobre a sexualidade de Richarlyson surgiu em 2007, quando o então diretor administrativo do Palmeiras, José Cirillo Júnior, insinuou, em um programa de televisão, que o jogador seria gay. O meio-campo se declarou heterossexual. Os advogados entraram com uma queixa-crime contra o dirigente. A confusão (além do preconceito) aumentou quando o juiz Manoel Maximiniano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, arquivou o processo dizendo que o que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro porque prejudicaria a uniformidade de pensamento da equipe. O entrosamento, o equilíbrio, o ideal.

Perguntado se considera o futebol um ambiente impossível para um jogador falar abertamente sobre o assunto, Richarlyson devolveu com outra pergunta:

– Posso falar para você uma coisa. O que difere, para você… vou te fazer uma pergunta. No seu trabalho, se o seu companheiro é homossexual ou se ele é heterossexual, qual a diferença para você? Eu não vejo diferença. Se no trabalho ele está sendo bem, fazendo o trabalho com maestria, eu não vejo diferença. Se ele gosta do mesmo sexo, o problema é dele. Eu tenho que respeitar. Se ele gosta do sexo oposto, que é o normal para a sociedade, eu tenho que respeitar. A diferença é que as pessoas não respeitam a vida individual de cada um. Não é só no futebol.

Segundo o historiador e professor da USP Flávio Muniz, “o futebol se tornou um construtor de índice dessa masculinidade truculenta”, impedindo quem saia da heterossexualidade de se apresentar. Richarlyson concorda, mas não considera que no futebol a homofobia ocorra com mais intensidade.

– Não. É que no futebol é o seguinte. Futebol tem a parte do machismo, que o homem não aceita que o jogador seja jogador. Porque ele acha que é um meio masculino, entendeu:? Isso é certo, é errado? Quem sou eu para julgar?

Filho do atacante Lela, campeão brasileiro em 1985 pelo Coritiba, e irmão de Alecsandro, atacante que atuou pelo Inter, Vasco, Flamengo, Palmeiras, atualmente também no Coxa, Richarlyson acha que o preconceito não atrapalhou sua vida, principalmente pelo apoio familiar.

– Não, pelo contrário. É claro que a base familiar é muito importante, não seria quem eu sou hoje sem minha mãe e sem meu pai e, claro, sem meu irmão, que são as pessoas que sempre estiveram do meu lado, em momentos difíceis, momentos alegres, momentos fáceis, enfim…

No Galo, contra o São Paulo, os clubes onde Richarlyson mais conquistou títulos (Foto: Marcos Ribolli)

No Galo, contra o São Paulo, os clubes onde Richarlyson mais conquistou títulos (Foto: Marcos Ribolli)

Campeão mundial de Clubes da Fifa (2005) e tricampeão brasileiro (2006-2007-2008) pelo São Paulo, além de campeão mineiro (2012-2013) e da Libertadores (2013) pelo Atlético-MG, com passagem pela seleção brasileira, em 2008, Richarlyson tampouco acha que a homofobia do qual foi vítima o tenha atrapalhado profissionalmente.

– Também não. Porque assim… Eu acho que por eu ser tão esclarecido, e quem me conhece, quem consegue ter essa percepção de conhecimento, não vai me julgar. Vai saber que eu sou um cara do bem. E essas pessoas vão ficar do meu lado. E vão proteger as pessoas que estão também do meu lado. Como eu fui. Porque se eu fosse uma pessoa má, eu não ficaria cinco anos no São Paulo, não ficaria quatro anos no Atlético Mineiro. Todos os clubes para onde eu vou, fico muito tempo. Isso não é normal para um jogador. É difícil ter um jogador que se identifica tanto com o clube. E aí eu entro naquela questão. Por que existiam pessoas que não gostavam então? Não vou conseguir entender, e não vou conseguir explicar.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 2014 e 2015, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: GloboEsporte

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