Racismo, piada com mortos em tragédia e ameaças a rivais e até a comentarista; futebol italiano luta contra o ódio

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A rivalidade entre Juventus e Torino foi aquecida nesta semana, mas talvez da pior forma possível. Atos de vandalismo de torcedores alvinegros contra o patrimônio e a memória da mais famosa equipe já formada pelo rival deram o tom na véspera do clássico, que ocorre neste sábado, às 15h45 (de Brasília), no Juventus Stadium, em Turim, pelo Italiano. E o duelo pode dar ao time bianconero o título da atual temporada.

As provocações iniciaram na última quarta-feira, véspera do aniversário de 68 anos da tragédia de Superga, isto é, o acidente aéreo que vitimou 18 jogadores do Torino, então tetracampeão italiano e base da seleção do país, em 1949.

O avião que trazia o time de volta de Lisboa chocou-se com um dos muros da Basílica de Superga. Não houve sobreviventes. Além dos jogadores, foram mortos tripulantes, jornalistas e dirigentes. No total, 31 vítimas. A data (4 de maio) jamais foi esquecida.

Mesmo assim, torcedores juventinos picharam muros na estrada que conduz até o topo de Superga, onde está a Basílica, com ofensas pesadas. Frases como “De Lisboa para Torino, era melhor vir de motocicleta”, “4 de maio: bois no pasto”, “10, 100, 1.000 x Superga” e “Torino [time] de judeus” estavam lá e foram apagadas pelos moradores.

Já na sexta-feira o estádio que o Torino está terminando de construir e pretende inaugurar no final do mês teve uma das laterais pichadas com a palavra “Estábulo”. O local, que está sendo revitalizado, é o mesmo palco onde jogou o time tragicamente morto há 68 anos.

As ações ocorreram poucos dias depois do zagueiro Leonardo Bonucci, jogador da Juventus, quebrar um protocolo e acompanhar o filho Lorenzo, de apenas quatro anos, ao estádio Olímpico Grande Torino para assistir à partida entre Torino e Sampdoria.

Bonucci não é torcedor do Torino. Mas o filho dele é e tem como ídolo o atacante Andrea Belotti, artilheiro do Campeonato Italiano com 25 gols, ao lado de Dzeko, da Roma.

Apesar do bom exemplo, a reação vista nos dias que seguiram foram de ódio. O que revoltou torinistas, mas também juventinos como o goleiro Gianluigi Buffon.

“Neste belo dia após a vitória sobre o Monaco, os meus pensamentos estão com os familiares do Toro, seus fãs e com esses campeões gloriosos que foram o orgulho de toda a nação e da massa torcedora do Torino”, escreveu Buffon em seu Facebook.

“Honra a vocês, campeões do Grande Torino, para a eternidade. E que sejam perdoados aqueles que praticaram esses atos inqualificáveis, que se divertem com eles e que vos faltam ao respeito 70 anos depois”, prosseguiu.

“Os mortos estão mortos e temos de deixá-los em paz e respeitá-los, mesmo que fossem os vossos inimigos ou rivais mais ferozes. Os mortos têm mulheres, filhos, netos e não têm porque sofrerem mais do que já sofreram. (…) Uma saudação a todos aqueles que acreditam, em particular no esporte e que devemos ser homens de boa vontade”.

O texto ainda atacava os pichadores: “Estão mais mortos que os mortos”. E fazia uma lembrança aos falecidos no acidente de Heysel, quando 39 juventinos foram esmagados no estádio, na Bélgica, antes da final da Liga dos Campeões contra o Liverpool. Na Itália, é comum rivais relembrarem o fato com provocações e piadas desumanas.

Outros jogadores da Juventus e também do Torino falaram sobre o acontecimento e com um mesmo pensamento: que esse clima não chegue ao clássico.

O duelo tem um significado especial para a Juventus. Se a equipe derrotar o Torino e a Roma não vencer na rodada, será campeã pela sexta vez consecutiva, um recorde.

Mas mesmo vencendo a Juventus não saberá se o título é seu exatamente neste sábado. Isso porque a Roma só enfrentará o Milan no domingo, às 15h45 (de Brasília), em Milão, com transmissão da ESPN Brasil e WatchESPN.

Além disso, a equipe bianconera vive a expectiva de voltar à final da Liga dos Campeões. Após derrotar o Monaco por 2 a 0, fora de casa, está a um empate da decisão. O segundo jogo contra os franceses será na próxima terça-feira.

           Ameaças a rivais e até a comentarista

As atitudes de ódio antes de Juventus e Torino não são uma únicas na Itália. Muitos exemplos recentes aconteceram recentemente e reforçam a intolerância presente.

Em Roma, supostos torcedores da Lazio fizeram uma ameaça inédita e aterrorizante aos jogadores do clube rival na última quinta-feira.

Eles penduraram bonecos com camisas de De Rossi, Nainggolan e Salah em local próximo ao Coliseu. Os bonecos estavam “enforcados” e havia uma faixa, na qual estava escrito: “Um conselho, sem ofensas: Durmam com as luzes acesas”.

As ameaças não foram entendidas, uma vez que a Lazio até venceu o clássico contra a Roma por 3 a 1, no último final de semana.

Recentemente também alguns torcedores do Milan se irritaram com o ex-jogador Massimo Ambrosini, que defendeu o clube rubro-negro no passado. O motivo? Eles não gostaram de comentários negativos do ex-atleta sobre o atual time milanista na partida contra o Sassuolo pelo Campeonato Italiano. Alguns mandaram mensagens ofensivas à emissora de Ambrosini com ofensas e pedidos de que ele fosse demitido.

A Itália também voltou a assistir casos de racismo. O meia Sulley Muntari, do Pescara, ouviu ofensas racistas na partida contra o Cagliari, no último domingo. Em protesto, saiu andando do campo. Mas foi ele quem acabou punido (um jogo de suspensão).

Para piorar, o comitê que julgou o caso declarou que não puniria o Cagliaria porque era apenas uma dezena de torcedores que estavam causando “tumulto”.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 2014 e 2015, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: ESPN

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