Professor ensina boxe para crianças no Vidigal e revela talentos no esporte

Raff Giglio, do Instituto Todos na Luta, formou mais de mil jovens Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Numa comunidade carente, as crianças convivem desde muito cedo com adversidades como a pobreza e a falta de oportunidades. No Vidigal, é dentro de um ringue de boxe que muitos jovens locais e de favelas vizinhas aprendem a nocautear as dificuldades. O esporte ensinado por Raff Alexandre Giglio, de 53 anos, e sua equipe do Instituto Todos na Luta já apontou para muitos deles novos caminhos além das vielas da favela. Ele é o personagem de hoje da série Extraordinários, que, em comemoração aos 20 anos do EXTRA, conta todo domingo a história de uma pessoa que ajuda a mudar a vida de outras.

E não foram poucos os que transformaram as lições de Raff em verdadeiros golpes de sorte. Pelo projeto, criado por ele no Vidigal há 25 anos, já passaram mais de mil crianças e jovens. Alguns, como Esquiva Falcão Florentino, de 28 anos, foram longe. Em 2012, tornou-se primeiro boxeador brasileiro a conquistar a medalha de prata em uma Olimpíada, nos Jogos de Londres. O jovem nascido em comunidade carente de Vitória (ES) chegou ao Vidigal em 2007, então com 17 anos. Hoje, luta profissionalmente nos Estados Unidos. Pelo menos outros três alunos, com passagem pela seleção brasileira de boxe, prometem seguir esse caminho: Patrick Lourenço, de 25 anos, Michel Borges, de 26, e Luiz Fernando Rodrigues da Silva, de 21, nascidos e criados no Vidigal. Os dois primeiros participaram dos Jogos do Rio, em 2016.

— O maior prêmio, o melhor salário é ver que esse trabalho de anos está valendo a pena, estou conseguindo transformar vidas. Não tem dinheiro que pague ver uma revelação, que peguei criança, bem-posicionada no esporte, como atleta olímpico e podendo ajudar os pais — comemora Raff.

Ex-morador do asfalto, Raff foi conquistado pela favela, para onde se mudou com a família há 23 anos. Apaixonado por boxe desde criança por influência do avô paterno, passou a ter contato com o esporte na adolescência, quando um amigo o levou para a academia do Mestre Santa Rosa, na Lapa. Mais tarde, já experiente, montou uma academia no Clube Federal, no Leblon, cuja clientela era formada por jovens de classe média. Com o fechamento do clube, mudou-se para uma escola particular perto da favela, onde passou a oferecer bolsas, um embrião do projeto.

Mais tarde, a academia se mudou para a favela, onde está desde 1993 e atende de graça 126 jovens. Embora a maioria seja do Vidigal, há alunos de locais como Rocinha e Chácara do Céu. Em 2010, virou ONG Instituto Todos na Luta, cuja sede (Rua Caminho Boa Vista 118) tem o aluguel pago pelo ator Malvino Salvador, padrinho e um dos principais parceiros da ONG.

Patrick Lourenco disputou Olimpíada, no Rio, em 2016 Foto: Ana Branco / Agência O Globo

— Para quem mora na comunidade, falta oportunidade. É muita criminalidade à nossa porta, e o projeto foi que me mostrou o lado bom da vida, de ser um bom cidadão, de tentar realizar meus sonhos de maneira positiva. Comecei com 13 anos. Sempre gostei de esporte, mas de início entrei por curiosidade, até porque com essa idade uma criança não tem ainda certeza do que quer. Um amigo me convidou. Cheguei e fui bem recebido e bem tratado pelos técnicos e pelo Raff. Fui vendo que tinha talento, que levava jeito. Os técnicos também viram isso em mim, me motivaram, incentivaram e apostaram em mim. Comecei a acreditar que podia ir longe, participar de uma Olimpíada e ser reconhecido no esporte. Participar dos Jogos valeu pelo legado que eu carrego. Hoje sou atleta de alto rendimento do Exército e sonho com Tóquio, em 2020 — afirma Patrick Lourenço sobre o projeto que o projetou.

          Sucesso e fila de espera

O projeto de Raff deu tão certo que para garantir uma vaga é preciso enfrentar uma fila de espera e, então, contar com a desistência ou a eliminação por faltas de algum aluno, já que só é permitido um máximo de 30% de ausências por mês. As aulas são de manhã e à tarde, e as turmas são divididas por faixa etária e sexo.

Crianças iniciam cedo no esporte Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Os mais novos, de 9 a 13 anos, treinam às segundas, quartas e sextas-feiras. Adolescentes, de 14 a 17, às terças e quintas-feiras. Já os alunos de alto rendimento, com potencial de virar atletas, passam por treinamento mais intensivo, de segunda-feira à sábado.

Wellington Lisboa, o Índio, de 25, é outra pedra lapidada pelo projeto, onde entrou com 14 anos. Hoje, é treinador e técnico no instituto, além de ser formado em Educação Física:

— O projeto teve grande importância na minha vida. Através dele, consegui uma profissão e sou reconhecido no Vidigal, no Rio e no Brasil pelo boxe. Só me trouxe experiências positivas.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: Extra

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