O que explica a raiva de Serena Williams no US Open?

No último sábado, Serena Williams desabou em quadra. Ela não só perdeu o título do US Open – aquele que seria seu 24º Grand Slam conquistado – para a incrível e talentosa jovem japonesa Naomi Osaka (precisamos ressaltar o imenso feito dela), como também perdeu o controle emocional da partida quando se revoltou contra algumas decisões da arbitragem que chegaram a tirar um game dela.

As manchetes dizem que ela “armou um barraco”. Ou que “perdeu a cabeça” e “explodiu” diante do árbitro. E o que se viu em quadra foi realmente uma Serena Williams indignada com aquilo que estava acontecendo. Isso porque, na primeira penalidade aplicada contra ela, o árbitro Carlos Ramos alegou que a americana havia violado a regra de “coaching” (aquela que diz que atleta e técnico não podem se comunicar durante um set). A maior vencedora de Grand Slams da Era Moderna não se conformou: “Eu não trapaceio. Nunca trapaceei na minha vida. Eu não ganho assim. Prefiro perder se for para trapacear”, disse Serena ao árbitro.

Há que se ressaltar o feito de Naomi Osaka, vencedora do US Open em cima de Serena Williams (Foto: Robert Deutsch / Reuters)

A partir daí, a cabeça dela saiu de quadra. A tenista até tentou voltar para o jogo, mas sua indignação com a situação só aumentou com as outras duas penalidades marcadas pelo juiz – a quebra da raquete e as palavras proferidas ao árbitro quando o chamou de “ladrão”. Serena chorou antes mesmo do fim do jogo, perdeu o troféu e desabafou toda a sua revolta na coletiva de imprensa.

“Eu já vi outros homens xingarem árbitros de diversas coisas. Estou aqui lutando pelos direitos das mulheres, por igualdade de gênero e por muitas outras coisas. Para mim, dizer ‘ladrão’ e ele me tirar um game, foi uma punição sexista. Ele nunca tiraria um game de um homem que o chamou de ‘ladrão’. Por isso, é algo que me tira do sério. Mas vou continuar lutando pelas mulheres”, afirmou.

Serena discute com o árbitro na final do US Open (Foto: Robert Deutsch / Reuters)

“Sinto que o fato de eu ter que passar por isso é só um exemplo para a próxima pessoa que também tenha sentimentos e queira expressá-los. É um exemplo para aquelas que são mulheres fortes e que poderão fazer isso que eu fiz sem punição por causa do que aconteceu hoje. Não funcionou para mim, mas vai funcionar para a próxima”, concuiu.

Seria muito simplista da nossa parte tratar esse debate apenas como uma questão de violação ou não das regras. (Para isso, há um detalhamento dos motivos das penalidades de Serena aqui, o posicionamento da WTA aqui e o da ITF aqui). Pela história de Serena Williams, em respeito ao que ela já enfrentou e conquistou, não dá para limitar essa discussão apenas às regras antiquadas que o tênis insiste em não atualizar – a lendária Billie Jean King, aliás, falou sobre isso: “O coaching acontece o tempo todo, em todos os níveis de tênis. Então, por que não apenas permitir isso?”, questionou, em artigo publicado no Washington Post.

Para quem acha que Serena “deu chilique”, exagerou na sua postura de reclamação dentro de quadra, é preciso entender um pouco mais de tudo o que já aconteceu na carreira da tenista.

Questionada sobre sua feminilidade. Sobre sua aparência “masculina”. Sobre a “veracidade” de seu corpo. Uma mulher não poderia ser tão forte assim, afinal. Enviada para o teste antidoping por cinco vezes em menos de seis meses em 2018 – nenhuma outra tenista teve que passar por tantos exames. Chamada de “forte demais” ou “gorda demais” ou acusada de “não pertencer ao esporte feminino”. Tendo sua qualidade ainda colocada em xeque, mesmo após a conquista de 23 Grand Slams. Não incluída na lista de maiores tenistas de todos os tempos (que só tem homens, diga-se), mesmo tendo no currículo mais troféus do que todos eles. “Ah, mas o feminino é mais fácil”, “ah, mas ela não tem concorrente”, desculpas, desculpas e mais desculpas para não dar a ela o crédito do que conquistou com muito suor.

Serena Williams passou por tudo isso e também por uma gravidez complicada. Inclusive, ela conquistou seu último Grand Slam, o Australian Open de 2017, grávida de 5 semanas. Teve complicações no parto e quase morreu. Voltou às quadras, foi chamada de gorda. Usou uma roupa específica para evitar coagulações (aquelas que quase a mataram após o parto) e viu esse uniforme ser proibido pelos organizadores de Roland Garros por “desrespeitar a identidade do torneio”. Diante de tudo isso, não dá para entender a raiva de Serena?

Serena durante coletiva de imprensa (Foto: Geoff Burke / Reuters)

É como se questionassem o mérito de Pelé por tudo o que fez no futebol, alegando que “era um tempo de marcação fácil”. Ou como se duvidassem da habilidade de Michael Jordan porque ele “não tinha concorrentes à altura”. Para Serena Williams, nunca foi possível apenas jogar tênis. Era preciso jogar, vencer, ignorar as críticas, seguir provando seu valor, ouvir mais críticas, calar, jogar, ganhar, ganhar mais vezes, ser a maior vencedora e, ainda assim, ter sua capacidade questionada.

No momento em que o árbitro marca o “coaching” contra ela, a tenista se revolta porque passou a vida toda tendo que provar que não trapaceia. Seu corpo é forte, sim, mas não porque ela faz uso de substâncias ilícitas, e sim porque desde pequena ela se dedica ao esporte incansavelmente. Seu jogo é veloz como o de um homem, mas isso é resultado de treinamento, não do uso de hormônio. E a sua postura é intimidadora, sim, porque ela aprendeu que teria de ser uma mulher forte e resiliente para conseguir sucesso em um meio tão masculino como é o esporte.

“Quando uma mulher demonstra suas emoções ela é ‘histérica’ e é punida por isso. Quando um homem faz o mesmo, é franco e não há repercussões. Obrigado, Serena, para invocar esse duplo padrão. Mais vozes são necessárias para fazer o mesmo”, opinou Billie Jean King.


“Ramos (árbitro) deu a Serena um tratamento diferente do que ele daria a um jogador (homem)? Eu vejo que sim. As mulheres recebem tratamento diferente em todas as áreas da vida. E isso é uma realidade principalmente para mulheres negras. E as mulheres têm o direito de questionar qualquer injustiça, assim como qualquer homem. Eu entendo o que fez Serena agir daquela forma. E espero que toda menina e toda mulher que estava vendo aquele jogo saiba que ela deve sempre lutar pelos seus direitos e pelo que acredita. Nada vai mudar se isso não acontecer”, frisou Billie Jean.

Vale lembrar que o árbitro Carlos Ramos já puniu tenistas como o espanhol Rafael Nadal e o próprio sérvio Djokovic em outros torneios. Com Nadal, o juiz o advertiu por demorar a realizar o seu serviço. Djoko também levou advertência por conduta anti-desportiva. Além destes, Andy Murray foi advertido pelo árbitro de cadeira nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 e Venus Williams – a irmã de Serena – também bateu de frente com o português após punição por “coaching”. O português é conhecido por ser um dos árbitros mais rígidos do circuito mundial.

Serena Williams abraça Naomi Osaka, que declarou tê-la como ídolo de infância (AP Photo/Andres Kudacki)

Mas esse não é um texto sobre as regras do tênis. Não é para absolver ou culpar Serena. É para lembrar que sua raiva tem muita razão de ser. Seu desabafo também. E para reforçar a importância da existência de uma tenista como ela, com a coragem para questionar o sistema, fazer valer seus direitos e lutar pelo reconhecimento que merece. Mulheres são ensinadas a abaixar a cabeça e aceitar, mas Serena nunca foi assim – ainda bem!

Como disse Billie Jean King em seu texto no Washington Post: “Para os fãs, o jogo estelar de Osaka foi ofuscado por uma regra de tênis arcaico que acabou levando a um abuso de poder. E o que aconteceu na quadra ontem acontece com muita frequência. Isso acontece no esporte, no escritório e no serviço público. Em última análise, uma mulher foi penalizada por se defender. Uma mulher enfrentou o sexismo, e a partida continuou.”

A revolta de Serena é compreensível. E a vitória de Osaka também foi mais do que justa. Vamos dar à japonesa os devidos louros de quem, aos 20 anos, conseguiu manter a cabeça no lugar diante de todas as adversidades e vencer a melhor tenista de todos os tempos que jogava em casa. Sem sombra de dúvidas, ela também se inspirou na americana para conseguir conquistar esse troféu.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Dibradora

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