Ninguém nasce racista – Atletas e técnico falam sobre o combate ao racismo

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Uma luta diária e que deveria ser de todos. O racismo é condenável sempre, venha de onde vier, ele que pode atingir um professor, um médico, até simplesmente uma pessoa que esteja atravessando a rua, como também pode atingir as pessoas que fazem do esporte a sua profissão. Toda vez que isso acontece é a sociedade como um todo que perde. Nesse dia internacional de combate ao racismo, o blog Garrafão Rubro-Negro se solidariza com quem já foi vítima e abre espaço para a reflexão através de depoimentos de atletas e técnicos sobre esse tema.

Ex-jogadores do Flamengo abordam o choque de realidade com o racismo em algumas situações.

O pivô Alirio Alves, campeão do NBB 1 pelo Flamengo, falou sobre o racismo que sofreu na Argentina e a falta de esperança que tem no combate a toda forma de preconceito.

– Eu já sofri racismo. Eu passei por esse constrangimento, ou melhor, essa falta de respeito. Quando fui atuar na Argentina, a torcida acabou me chamando de macaco. Por mais que o mundo faça mais campanhas para a conscientização sobre esse tema, infelizmente, eu acredito que as pessoas cada vez mais pensam numa forma de serem desumanas.

90750d9aUm dos grandes nomes na era Oscar Schmidt, Leonardo Figueiró, atualmente técnico do Contagem Towers na Liga Ouro 2017, falou da pertinência de se falar sobre esse tema e a importância do esporte para lidar com a discriminação.

– Eu acho esse tema muito pertinente. Além de eu ser negro, eu tenho uma doença chamada vitiligo, que são manchas brancas pelo corpo. Realmente acontece de as pessoas olharem e julgarem a pessoa. Ou pior ainda acham que devem tratar uma pessoa por sua aparência. É uma coisa lamentável. Mas que tem que ser tratado com muito pé no chão. O esporte na minha carreira e na minha vida foi de fundamental importância para eu saber lidar contra esse preconceito.

O racismo não tem nacionalidade – Qualquer um está sujeito a sofrer essa discriminação.

7aceeb42Um dos jogadores mais identificados com a torcida rubro-negra, o pivô Jerome Meyinsse destacou o tipo de experiência que sofreu que podem ser consideradas racistas e sua visão sobre esse tema.

– Eu, além escutar alguns torcedores, às vezes, me chamarem de “negro puto”, eu não senti tanto racismo na minha vida, pelo menos, em frente à minha cara. Eu acho que as pessoas não fizeram também em razão do meu tamanho. Eu sou grande mesmo e as pessoas não irão fazer na minha frente por medo. Mas já escutei um monte de história dos meus amigos. Mas falando do Brasil, eu não deixo as pessoas me chamarem de negão, nego, preto, esse tipo de coisa. Pois eu acho isso tudo errado. E se você olha para o que ocorre no mundo para todo os lados tem pessoas negras que estão maltratadas. Mas me disseram que negão, preto, podem ser vistas como uma palavra de carinho, mas eu não vejo assim. A cor da minha pele não me define.

Meyinsse lamenta que as pessoas ainda não são conscientes sobre o racismo.

– As pessoas ainda não são conscientes do racismo que existe. Eu vou dar um exemplo que ocorreu no Brasil. Eu escutei alguém falar comigo e falou para mim que o pivô no basquete tem que ser negão. Ele estava falando de boa, sobre basquete, e eu nem percebi na hora. Mas depois, eu pensei qual é o motivo de tem que ser negão quem atua como pivô? Qual motivo que ele pensa dessa forma? Jogador dessa posição tem que ser grande, tem que ser forte e botar medo no defensor. Mas a pessoa tem que se conscientizar que esse pensamento não fica somente no basquete, mas também nos outros esportes. As pessoas acabam usando essas expressões de forma inconsciente em suas vidas. E se você olhar as estatísticas, a polícia mata muita mais as pessoas negras e as pessoas nas ruas acabam tendo mais medo dos negros. Mas tudo em razão desses pensamentos, que as pessoas negras são mais agressivas, são mais perigosas. São pensamentos que podem parecer pequenos, mas acabam sendo muito grandes quando falamos no racismo.

76dbdc78O norte-americano Jason Robinson, integrante do elenco rubro-negro no NBB 8, falou sobre como tema é visto nos Estados Unidos e o que mais o incomoda sobre o racismo.

– Eu cresci como negro e tive que lidar com o racismo desde muito jovem. Eu sempre notei as pessoas se movendo para o outro lado da rua, segurando suas carteiras, suas bolsas e fazendo comentários bobos. Minha forma de lidar com o racismo sempre foi com bondade e inteligência. Se as pessoas me tratam ou falam alguma coisa para mim, eu não tenho que responder da mesma forma ou mostrar que elas afetaram a minha vida de alguma maneira. Meu primeiro dia na universidade de Kentucky, eu fui chamado de “nigger” e não existe tempo que apague isso da minha memória, eu nunca esquecerei. O racismo é uma escolha que as pessoas fazem e muita das vezes são ensinadas a serem assim. Na minha humilde opinião, somos todos iguais. O ódio a outra raça não faz sentido para mim, como também não faz sentido o Donald Trump ser presidente dos Estados Unidos.

c0ca4346*Nigger: Expressão usada entre na comunicação entre negros nos Estados Unidos, linguagem entre eles, que a tradução literal poderia ser “negão” ou crioulo”. Mas muitos negros não gostam dessa expressão, pois antigamente os brancos norte-americanos usavam essa palavra de forma racista e para diminuir o valor dos negros na sociedade.

A visão da jovem promessa do basquete rubro-negro sobre a discriminação racial.

O pivô João Vitor é uma das grandes promessas do atual elenco rubro-negro que disputa o NBB. Felizmente, o jovem jogador não sofreu nenhum tipo de racismo, mas alerta sobre a importância de as pessoas combaterem essa questão.

– Graças a Deus nunca sofri nenhum tipo de preconceito no basquete e não tenho nenhuma história pessoal que possa considerar como racismo. Mas sei que infelizmente ainda temos esse tipo de situação que é muito chata. Eu espero que o tipo de pessoa que tem esses pensamentos preconceituosos tenha alguma chance de mudar essa sua ideologia.

8b07ea92A educação como ferramenta de conscientização na luta contra o racismo.

Seja nas aulas de Educação Física ou na prática do esporte nas categorias de base de algum clube, o papel do técnico (professor) acaba sendo fundamental na orientação e correção dos jovens que forma inconsciente acabam por usar expressões que podem ser consideradas racistas. Leonardo Bruno, ex-treinador das categorias de base do Flamengo, ressaltou a importância desse trabalho junto aos jovens talentos.

– Não fica muito escancarado a questão do racismo nas categorias de base, principalmente no que se diz respeito a equipe. Mas as vezes isso acaba ocorrendo como uma forma de brincadeira, mas também quando existe a diferença de classe social. O meu papel como treinador é que todos se respeitem, eu sempre prezo por isso. Não preciso fazer que eles se gostem e virem grandes amigos fora de quadra, mas dentro do contexto de equipe em quadra, eles precisam se respeitar. Eu acho que não é tanto do controle do técnico o que ocorre no vestiário. Meu papel como professor é ensinar valores, passar esses valores para os jovens com quem eu estou lidando e mostrar que não existe diferença entre as pessoas, seja pela raça, cor. O papel do treinador é saber que ele vai influenciar muita gente. E eu já tive esse feedback de atletas que me disseram o quanto eu influenciei. O professor tem um papel de saber o quanto ele pode influenciar positivamente e negativamente as pessoas.

1bd1c174Leandrinho Barbosa admite que já sofreu racismo e conscientiza a todos sobre a importância da educação familiar.

Um dos maiores talentos do basquete brasileiro e com passagem pelo Flamengo, Leandrinho Barbosa, atualmente no Phoenix Suns, na NBA, relatou que já foi vítima do racismo e a importância da educação na família para lidar com essa discriminação racial.

– Infelizmente já fui vítima do racismo por algumas vezes. Menos mal que nunca de maneira direta, mas através do preconceito em frequentar determinados lugares (restaurantes e eventos) e adquirir determinados itens de consumo, quando não era um atleta conhecido e que foram “resolvidos” a partir do momento que fui reconhecido como atleta da NBA. É algo que só realmente quem sofre sabe o que significa, sabe o que a pessoa sente naquele momento e felizmente, eu tive uma grande educação concedida por minha mãe, que me explicou que medidas extremas não levam a nada, pois é muito difícil, alguém olhar de maneira “torta” para você, somente porquê você tem uma outra cor. A luta contra o racismo deve existir sempre, pois todos somos iguais em tudo, independentemente da cor de cada um.

5e6e4e6eQue a essência e a inteligência de todas as pessoas possam ser valorizadas sempre, independentemente da cor, sejam elas com seu talento no cavaco, no bisturi ou até jogando no garrafão. O blog buscou através dessa matéria informar a todos sobre a luta contra esse preconceito. E você, informado de maneira ampla e plural, poderá escolher o caminho que queira seguir. Que as pessoas que são racistas sejam punidas e as autoridades investiguem se por trás disso existe algo a mais do que a pura irracionalidade. E a melhor forma de se combater ao racismo, pode ser resumida em uma palavra: respeito – uma forma muito generosa de amar.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 2014 e 2015, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: GarrafãoRubro-Negro

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