Muricy, Santa Cruz, São Paulo e seleção; Grafite repassa carreira em carta à esposa

Grafite com a esposa, Grace, e os filhos (Foto: Reprodução)

E aí, Neguinha?!

Olha, passados 18 anos dessa caminhada, eu preciso te falar algumas coisas. Na realidade, lhe agradecer por ter sido fundamental para que o Dina virasse Grafite. Claro que muitas pessoas participaram disso, como meu pai, seu Odair, que me ensinou a ter caráter e a dar valor ao que falo, e seu Valnoi, que me deu emprego vendendo saco de lixo. Agora, até pode parecer algo menor, no entanto, se eu não tivesse aquele dinheiro, como poderia me bancar? Minha família não passava necessidade, mas nunca tive fartura. E seu Heleno, que é meu empresário até hoje? Se ele não tivesse apostado em mim, lá no começo, certamente eu teria seguido a carreira de metalúrgico, igual ao meu pai – e ainda jogaria pelo Tererê, aquele time de várzea lá de Campo Limpo.

Naquele tempo a gente ainda nem se conhecia, você nem imagina como era levar aqueles corres da polícia enquanto eu trabalhava. Sabe como é, né? Pobre, preto, no Brasil… Embora nunca tenha me abalado com isso. Parece até que já sabia que você estava no meu caminho. De certa forma, você sempre esteve nele.

Você precisava ver quando cheguei na sua cidade, o Recife. Quando olhei para aquele estádio do Arruda me tremi todinho. E quando eu o vi lotado? Grace, eu quase não consegui jogar de nervoso. Foi ali que eu vi que era jogador profissional. Aquele estádio lotado, aquela torcida… Ali, eu, que sempre fui São Paulo de coração, me apaixonei pelo Santa Cruz. Aliás, que torcida… No começo eles queriam me matar. Eu perdia gols, eu não sabia muita coisa e a cobrança quase que me deixa maluco. Você lembra?

Chegaram a quase me dispensar. Já imaginou, a gente voltando para o interior de São Paulo? Foi justamente em momentos difíceis que você me fez crescer. E me apoiou e me levou para cima. Tanto que hoje, mesmo depois de ter saído do Santa após um rebaixamento, a torcida me adora.

É engraçado olhar para trás e ver que, se não fosse o Muricy Ramalho, que vetou a minha dispensa, a gente nem sequer tinha ficado no Recife. Ele notou que eu tinha potencial, só não tinha preparação. Resultado: tu acabou tendo que me esperar até tarde, porque eu ficava treinando até a noite, para aprender a chutar com ele…

Olhando agora, isso foi até engraçado. Pesado mesmo foi a nossa passagem pelo Rio Grande do Sul. O lugar é ótimo, tudo muito bom, não fosse você ter que aturar minha raiva com a falta de chance no Grêmio. E a Coreia do Sul? Meu Deus… A gente fez tudo errado. Dormia tarde, não sabia nada da língua, você grávida da Cecília, o time horroroso, o treinador péssimo. Aquilo era pior do que vender saco de lixo. Ainda não entendo como você aceitou morar ali e ainda teve forças para segurar meus problemas. Felizmente, o Cuca me ligou e a gente veio para Goiânia. Lembra como tudo mudou no Goiás? Destaque do Brasileiro de 2003, um monte de clube interessado, várias propostas. A gente tinha tudo para ficar deslumbrado. Isso se os ensinamentos de seu Odair e tua calma não existissem. Vocês me fizeram seguir o caminho certo.

Você lembra a euforia que eu entrei em casa quando acertei com o São Paulo? Jogar no time que sempre torci, ver meus ídolos de perto e morar em uma cidade que eu conhecia… Eu parecia uma criança. Para mim, a vida estava perfeita. Você, porém, Grace, sempre me fez crescer. Sempre me mostrou que eu podia mais.

Lembro da sua tristeza naquele episódio do racismo. Você viu que aquilo mexeu muito comigo, me fez lembrar do meu passado, questionar porque nós, negros, precisamos passar por esse tipo de coisa. E quando todo mundo que prometeu me ajudar se afastou, você fez questão de chegar junto e mostrar que a nossa família era superior a uma imbecilidade de um argentino. Hoje nem guardo mágoas dele. Mágoa para quê, aliás? Fui campeão da Libertadores, do Mundial e ainda fui convocado para a seleção por conta da minha passagem pelo São Paulo. Não tem por que ficar remoendo esse ponto pequeno do passado.

Sei que você teve que se esforçar muito para que a gente pudesse se adaptar ao povo francês, quando fui jogar no Le Mans. E na Alemanha? Eu sabia que enquanto os jornais noticiavam que eu era o melhor atacante do país, que formava a melhor dupla que o Wolfsburg já teve, com o Džeko, você sofria porque nossas filhas não tinham onde estudar. A Maria Luiza, nossa mais velha, coitada, teve que voltar para o Brasil. Nossa vida deu um nó e quase larguei tudo. Você que me chamou no canto e me lembrou das nossas dificuldades. Você que me deu colo e me fez ver que eu tinha que seguir em frente.

Valeu a pena, né? Pensei em tudo isso quando a gente se reuniu na sala lá de casa, em 2010, antes da convocação de Dunga. Era uma terça-feira, vocês todos na sala e, sem coragem de ver a TV, acabei indo para o terraço. Afinal, a chance não era grande. Neymar despontando, Adriano como favorito… Você gritou alto quando meu nome foi chamado. Quem diria: o vendedor de saco de lixo agora ia jogar uma Copa do Mundo. Quem liga se alguns críticos falaram que a convocação era injusta? Eles não jogaram a Copa. Eu, sim. Até mesmo quando eu resolvi largar a Europa para jogar em Dubai você entendeu bem e me acompanhou. Tudo por nossa família.

Quando eu resolvi largar Dubai para voltar para o Santa, aí eu vi que você não entendeu muito. Mas fala a verdade: foi muito bom ver nossas filhas com orgulho do pai, né não?! Lembra da alegria da Maria Sofia? Seis mil pessoas me esperando para uma apresentação, 50 mil pessoas gritando meu nome… Pô, você sabe que eu precisava disso. Quando o Benício for mais velho, se ele quiser ser jogador de futebol, certamente terá o sonho de passar por isso. E eu sei que você também ficou muito feliz. Tudo bem que eu passei muito tempo sem receber. Afinal, dinheiro nunca foi o nosso foco. A gente sempre quis ser feliz. É justamente na cidade que eu te conheci que me sinto feliz. Até tentei sair outra vez, você aceitou se mudar para Curitiba, mas a gente sabia que a minha cabeça não estava no futebol.

A prova disso foi ano passado. Por mais que eu quisesse, não consegui ter o mesmo nível. Até porque a idade chega, né? E chegou. Hoje, Grace, era isso que queria falar: obrigado por guiar meus passos durante todos esses anos, por me apoiar durante meus sonhos.

Grafite com o Wolfsburg, comemorando o título do Campeonato Alemão 2008/09 (Foto: AP )

Dá muito orgulho de olhar para trás e ver as histórias que construímos. E eu não poderia encerrar minha carreira sem dedicá-la à pessoa que fez isso ser uma realidade.

Neguinha, isso tudo é pra você.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: GloboEsporte

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