LGBTs enfrentam tabus e abrem espaço no esporte

Uma equipe poliesportiva formada por homens gays, a primeira transexual autorizada a disputar partidas oficiais de vôlei e o primeiro time de homens trans do Brasil

No Brasil, muitos grupos sofrem dificuldade de inserção social. Entre eles, o público transexual. O país lidera o ranking de violência contra trans, conforme levantou a ONG Transgender Europe: entre 2008 e 2015, 802 trans foram mortos. Os números mostram o preconceito enfrentado por parte da nossa sociedade, refletido no esporte. Entretanto, esse cenário vem mudando lentamente. A comunidade transexual aos poucos está tomando quadras e campos.

Em março deste ano, a curitibana Isabelle Neris foi a primeira jogadora transexual autorizada a jogar em times femininos no Brasil. A Federação Paranaense de Vôlei (FPV) deu aval à atleta para competir em torneios ligados à federação.

Isabelle é a primeira mulher transsexual autorizada a jogar por equipes de vôlei feminino. (Foto: Arquivo pessoal/Isabelle Neris)

Isabelle precisou de muita perseverança para seguir no vôlei, pois, segundo ela, dentro do esporte foi onde enfrentou os piores episódios de preconceito. “Com a visibilidade, podemos apoiar e incentivar cada vez mais pessoas a irem em busca do que querem, a verem que, devagar, a sociedade está abrindo espaço para nossa classe, que é tão segregada”, ressalta.

Ser a primeira jogadora trans a receber autorização de um órgão oficial para competir em um time feminino foi “um sonho realizado, após passar por várias situações que quase me fizeram desistir”. Isabelle ainda aborda a importância social da prática esportiva em sua vida: “O esporte me ajudou muito a não estar à margem da sociedade como a grande maioria das transexuais”.

“Também me sinto feliz em poder mostrar à sociedade e ao grupo trans que nós merecemos respeito e queremos uma oportunidade de mostrar que somos capazes”, destaca a atleta trans.

Atualmente, Isabelle treina na Companhia do Voleibol, em Curitiba. “Estou participando de vários campeonatos e fazendo aquilo que me faz feliz: jogando voleibol”, conta. Apesar disso, a jogadora aponta que, infelizmente, o preconceito ainda impera. Em esportes coletivos principalmente, pois se nota uma exclusão da grande maioria quando há alguém LGBT interessado em ingressar no esporte.

Equipe poliesportiva gay em Porto Alegre

Os Pampacats e sua torcida ao fundo. (Foto: Arquivo Pessoal/Pampacats)

De acordo com Rogério Dervanoski, coordenador da equipe de futebol do Pampacats, time poliesportivo formado apenas por homens gays na capital gaúcha, existem outras equipes em diversas regiões do país. Em Porto Alegre, há também o Futebol Magia. Em São Paulo, o Unicorns, o Futeboys e o Bulls. No Rio de Janeiro, o Beescats e o Alligaytors. Em Belo Horizonte, o Bharbixas. Em Curitiba, o Capivaras. E em Floripa, o Sereyos.

Rogério conta que o Pampacats nasceu como alternativa à marginalização histórica sofrida por homens gays no futebol. “Outra questão importante foi de criar uma ambiente inclusivo, no qual. independentemente da qualidade técnica dos jogadores, todos possam jogar sem serem ou se sentirem repreendidos”, enfatiza.

O time, que surgiu apenas com uma equipe de futebol, percebeu que Porto Alegre poderia ter uma equipe poliesportiva gay. Por meio das redes sociais, começaram a recrutar outros interessados em integrar a equipe. Atualmente, contam com duas modalidades: futebol e vôlei. Também planejam desenvolver equipes em outros esportes no próximo ano.

Rogério fala que nunca escutaram nenhum comentário “besta” no time, apesar de, na primeira vez partida que disputaram, terem ficado com um pouco de receio. “É um ambiente machista, mas não sofremos nenhum tipo de preconceito. Mesmo quando levamos a bandeira do arco-íris pela primeira vez à quadra. Pelo contrário, recebemos muito apoio de diversas pessoas, independentemente da orientação sexual”, lembra.

Time de futebol do Pampacats. (Foto: Arquivo Pessoal/Pampacats)

Para Rogério, o esporte vai muito além de sua prática. “Ele trata de inclusão social, bem-estar e, no Brasil, onde o futebol é tido como o principal esporte, é fundamental que qualquer pessoa possa praticar”, afirma. E complementa:

“O esporte é uma ferramenta de união. Em tempos que o ódio está em evidência, nada como utilizar o esporte como elo para o amor e a diversidade.”

Os outros times costumam receber o Pampacts de forma muito acolhedora, além de serem grandes incentivadores do surgimento de mais equipes como essa. “No domingo realizamos nosso primeiro amistoso contra o time do Futebol Magia. Foi incrível a experiência de dividir um espaço com outros gays, levando a bandeira do esporte para unir”, comenta Rogério.

O Pampacats existe há 3 meses, completados no dia 11 de novembro. O início foi a partir de uma chamada do time paulista Unicorns convidando Porto Alegre para participar do campeonato nacional de futebol chamado de Champions Ligay.

“Reuniram-se algumas pessoas para discutir a criação do time. Quando começamos, há três meses, não tínhamos ideia do quanto conseguiríamos, em tão pouco tempo, impactar tantas pessoas”, lembra. Rogério também fala sobre a importância da criação da equipe. “Nosso time surgiu do anseio de praticar esportes e estar inserido em um ambiente esportivo sem preconceito”, destaca.

Os jogos de futebol do Pampacats ocorrem duas vezes por semana: nas segundas-feiras, das 21h30 às 22h30, e às quintas-feiras, das 22h30 às 23h30. Nos sábados, são dois horários para a equipe de vôlei: das 17h às 18h e das 18h às 19h. “A expectativa é de criarmos mais uma turma do vôlei, devido à grande procura”, adianta.
O time está em processo de finalização do logotipo e de confecção dos uniformes, além da criação de novas modalidades, buscando agregar o maior número de atletas. A equipe conta com um perfil de torcedores no Instagram, o Pampalovers. “Isso demonstra o quanto o esporte pode somar em um ambiente tantas vezes taxado de preconceituoso, mas que para nós é mais um ambiente onde podemos ser quem somos, felizes e desportistas”, ressalta.

O primeiro time transgênero do Brasil

O Meninos Bons de Bola é o primeiro time de homens transgêneros do Brasil. (Foto: Arquivo pessoal/Meninos Bons de Bola)

O Meninos Bons de Bola (MBB), primeiro time de homens transgêneros do Brasil, completou um ano de existência em agosto de 2017. A ideia do clube é seguir acolhendo homens trans na prática do futebol. Mas a proposta vai além das quatro linhas, também com a intenção de inseri-los nos mundos do trabalho, da educação e da saúde. “Atualmente somos uma parcela da população bastante marginalizada e estigmatizada. Nós, enquanto homens trans e organizadores do time, queremos que outras pessoas trans tenham acesso aos direitos humanos”, afirma Bernardo Gonzales, atleta do time.

No último mês, o MBB participou do festival Champions Alliance. Buscando reunir dinheiro para participar do campeonato, os jogadores se organizaram para vender balas nas ruas da cidade de São Paulo. “Também contamos com a parceria de um microempreendedor trans que fez a doação de um skate para rifarmos, além de uma rifa de itens exclusivos do time (camisetas e canecas)”, diz Bernardo.

“Também buscamos parcerias com empresas, coletivos e pessoas autônomas que se preocupam com a temática LGBTQIA (Lesbians, Gays, Bissexuals, Transgenderes, Queer, Intersex, Asexual, Ally) e conseguimos contribuições em dinheiro para custear nosso deslocamento, hospedagem e alimentação. Acreditamos que é na parceria com pessoas e organizações dispostas a mudar o mundo que conseguiremos levar nossas mensagens e ideias”, destaca.

O projeto do MBB tem ganhado espaço na mídia. (Foto: Divulgação/Meninos Bons de Bola)

A primeira equipe formada apenas por transgêneros no Brasil é um projeto que ganhou, recentemente, espaço na mídia, o que indica a importância de divulgar o Meninos Bons de Bola também fora de quadra. Como ressalta Bernardo: “O esporte na minha vida é uma ferramenta de militância, de problematização e uma estratégia de fazer política.”

“O MBB proporciona que todos os atletas voltem para o convívio social. Trabalhamos também para que cada um consiga enfrentar a sociedade e os preconceitos de cabeça erguida, mesmo sendo difícil”, enfatiza Raphael Martins, um dos fundadores do time.

Martins destaca a importância do esporte no controle do seu humor, que com o hormônio oscila muito, e na ajuda do convívio com outras pessoas para além do time. O atleta enxerga para o futuro do MBB não só um time, mas um centro de convivência para acolher homens transexuais e oferecer cursos profissionalizantes, além de encaminhamentos para ambulatórios e acompanhamento com psicóloga e assistente social — todavia, sempre mantendo o time como parte da grade de atividade.

O futebol surgiu na infância para Bernardo. Sempre teve gosto pela modalidade, mas a socialização como menina o impediu de seguir carreira profissional na adolescência. “As cobranças para as meninas destoam de praticar futebol. Aos 18 anos, desisti completamente de seguir com o assunto. Voltei a jogar, agora num time de homens trans, aos 28 anos”, conta.

Bernardo também fala do significado do esporte em sua vida: “Voltar a jogar futebol como homem tem sido um prazer sem fim. Não só pela prática, mas pela complexidade de significados que meu corpo representa em quadra e para o mundo do futebol. É uma resistência, é arte, é ativismo”.

Para ele, “o esporte e uma parcela gigante da sociedade não estão preparados para lidar com as possibilidades de outras identidades e sexualidades que não as binárias e heterossexuais. Estar no mundo, jogar futebol e ser gordo é, além de uma resistência, mostrar que a pluralidade existe e que é na pluralidade que está nossa potência”.

“Existir um time de futebol de homens trans é uma inserção para as pessoas que sempre ou quase sempre foram marginalizadas e também uma estratégia de resistir ao preconceito e aos pré-conceitos. Não é tarefa fácil. O time é uma novidade tanto para quem está de fora quanto para quem faz parte dele”, afirma Bernardo.

O MBB pretende disputar o Gay Games, que acontecerá em Paris em 2018. “Estamos, inclusive, buscando patrocínio e parcerias que acreditem na potencialidade do nosso trabalho. Sabemos que existem poucas iniciativas como essa para a população trans e também reconhecemos que ainda é um caminho a ser construído tanto no esporte quanto nas políticas públicas destinadas à comunidade.”

O esporte como ferramenta de inclusão social

A psicóloga Moira Escorse, especialista em demandas da comunidade LGBT, acredita que o esporte pode servir como ferramenta de inclusão social para esses grupos. “Pode ser um modo de viabilizar um encontro entre essas pessoas, proporcionando lazer e bem-estar, mas também um grupo de apoio entre pares”, afirma Moira. “Nisso, o esporte pode ser um catalisador de possibilidades de existir, dando um lugar de pertencimento e de apoio entre os jogadores.”

No caso das pessoas transgêneros que praticam esportes, a psicóloga destaca que no futebol, “nas condições em que ele é hegemonicamente exibido atualmente, a presença de outros corpos e formas de existência é um ato político”.

“Pelo esporte é possível um contato diferente com o próprio corpo e com outros corpos. Algumas vezes é algo bastante delicado na questão da transexualidade, e que faz questionar e refletir sobre padrões estéticos cisgêneros e binários”, pondera a psicóloga. Moira explica como o grupo é um espelho em que “eu me vejo e me reconheço e, assim, também sirvo de espelho a alguém e reconheço a existência deste alguém”.

A importância disso é ainda maior “quando esses meninos estão em espaços públicos, mostrando a possibilidade de existir, de resistir, de mostrar que a vida deles tem sofrimento como a de qualquer outra pessoa, mas que tem alegria, desejos, sonhos”, finaliza a psicóloga.

Monitoramento e legislação específica

A FIFA é assertiva em relação aos atos discriminatórios. Neste ano lançou um novo sistema de monitoramento antidiscriminação. O projeto vai incluir pessoas em locais estratégicos nos jogos da Copa do Mundo de 2018 para monitorar e relatar problemas de discriminação. O programa terá a colaboração da Rede Fare, uma organização com longa experiência na luta contra a discriminação no futebol. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) adota os mesmo critérios que estão definidos no Estatuto da Fifa.

Já o Comitê Olímpico Internacional (COI) divulgou em 2016 um relatório com diretrizes para participação de atletas transexuais em competições esportivas. Segundo o comitê, “é preciso garantir que os atletas trans não sejam excluídos da oportunidade de participar de competições esportivas”. O COI reconhece a importância da autonomia da identidade de gênero na sociedade. Além disso, o relatório considera desnecessárias as cirurgias de mudança de sexo. A posição do comitê é de que as cirurgias “não são necessárias para garantir uma competição justa e podem ser inconsistentes com o desenvolvimento de leis e dos direitos humanos”.

As regras são simples:
No caso de mudança de sexo biológico de masculino para o feminino, a atleta tem de ter declarada a identidade de gênero feminina e manter nível de testosterona, hormônio masculino, dentro do nível permitido para disputas: abaixo de 10 nmol/L durante os últimos 12 meses antes de sua primeira competição e manter este nível durante o período de competição.

Na mudança de sexo biológico feminino para o masculino não estão previstas restrições. O documento prevê ainda suspensão de 12 meses em caso de descumprimento dessas diretrizes.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: Medium – Sergio Trentini

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