Já passou da hora de falarmos sobre xenofobia no futebol

Ao mesmo tempo que o futebol é um esporte propício para a propagação de boas ideias, também é acometido por um conservadorismo assustador.

Hoje em dia, a questão do combate ao racismo no futebol é muito difundida, bem aceita, amplamente debatida e, sobretudo, combatida. Já a homofobia, ainda não tem a mesma projeção, mas parece ensaiar um boom no debate.

Em contrapartida, a xenofobia ainda é um tabu, e é evidenciada em muitas questões práticas no dia a dia, no que diz respeito ao tratamento mais duro dado aos estrangeiros, ou em simples piadas e expressões pejorativas.

Só nos últimos meses, temos três grandes assuntos para abordar a xenofobia: envolvendo a chegada de Reinaldo Rueda ao Flamengo; o desabafo de Ángel Romero em entrevista coletiva; e agora, sutilmente, temos o caso do meio-campista Rómulo Otero.

No caso de Rueda, a discussão foi em torno de se trazer um treinador estrangeiro e tratar isto como um grande absurdo, como se os treinadores brasileiros fossem infinitamente melhores. O que não deixa de ir na contramão da política adotada de alguns anos para cá de treinadores brasileiros estudarem e fazerem intercâmbio no exterior. Ou então, um argumento ainda mais perigoso.

O então técnico do Botafogo, Jair Ventura, proferiu as seguintes palavras: “Não que eu seja contra os estrangeiros trabalharem aqui, mas estamos perdendo mercado lá fora. Daqui a pouco perdemos o interno.”

É um discurso muito próximo daquele: “Esses estrangeiros estão roubando os nossos empregos”, que normalmente é usado quando a grande parte deles migra sem nenhuma qualificação profissional relevante para competir com os trabalhadores de seu novo país. Uma linha muito tênue entre estar realmente temendo o desemprego alarmante e a xenofobia em si.

O segundo caso recente, é do paraguaio Ángel Romero, que ao criar uma polêmica inferiorizando o rival Santos, chamando-o de time pequeno, chamou-se a atenção em parte da imprensa para o fato de Felipe Melo ter falado algo semelhante um ano antes e não ter a mesma repercussão.

Fato é que Romero errou feio na entrevista à beira do campo, mas tocou numa ferida aberta ao falar do preconceito que sofre por não estar em seu país. Um ponto importante tocado pelo atacante, foi que aqui no Brasil depreciamos algo que é ruim com a expressão “ah, isso aí é do Paraguai, hein?!”, como utilizou o ex-jogador e comentarista Edmundo, ao dizer do atacante argentino Andrés Ríos que “esse argentino mais parece paraguaio”, diminuindo, portanto, sua capacidade técnica a partir da sua nacionalidade.

No caso do jogador Otero, do Atlético Mineiro, na última terça-feira (08), o técnico do San Lorenzo Claudio Biaggio lhe disse: “você não é venezuelano. Você joga muito!”. Mais uma vez a nacionalidade sendo usada como “aquele lugar lá? Não tem nada que preste!”. Não precisamos nem abordar e desvalidar o argumento, “mas é só uma brincadeira sadia…”.

Os casos de racismo são veementemente combatidos por clubes, jogadores e confederações, mas quando Franck Ribéry há alguns anos disse que Louis Van Gaal (conhecido por ser um técnico que não gosta de jogadores brasileiros) tinha certa aversão em trabalhar com atletas de origem latina, a repercussão foi mínima na época.

Pensamos atualmente que xenofobia é ter aversão a imigrantes do mundo árabe ou de qualquer lugar do continente africano, mas o preconceito mora perto, do outro lado de nossas fronteiras.

Em tempos que falamos tanto em diversidade e tolerância, é muito triste e ao mesmo tempo cômodo não fazermos nenhuma autocrítica com relação à nossa própria xenofobia diária.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Coluna

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