Idolatria e loucuras na Índia, racismo na Europa: a volta ao mundo de ex-joia do Flu

Raphael Augusto é cercado por fãs no desembarque na Índia: meia é ídolo por lá (Foto: Reprodução)

Raphael Augusto é um dos muitos jogadores que surgiram como promessa na base do Fluminense. Porém, diferentemente de Wellington Nem e Wellington Silva – parceiros da mesma geração em Xerém -, o garoto não conseguiu engatar uma sequência no Tricolor. A porta fechada não desanimou o meia, que colecionou empréstimos no Brasil e, oito anos depois, ganhou o mundo.

A carreira começou aos nove anos, no futsal do clube do Rio de Janeiro, chegou ao profissional no campo, rodou por Estados Unidos, Polônia e chegou até a Índia. Atualmente, aos 26 anos, titular do Chennaiyin FC, a aparência é praticamente a mesma do garoto que buscava espaço no estrelado grupo do Fluminense, em 2009, mas a cabeça é completamente diferente.

Antes de embarcar para o continente asiático e reencontrar os companheiros, o meia recebeu a reportagem do GloboEsporte.com, se divertiu ao listar os costumes do país e relembrou a trajetória no futebol.

– Claro que meu maior sonho era subir para o profissional do Fluminense e ficar no clube, fazer minha história no Fluminense. Comecei no futsal, imagina ficar lá para sempre? Era meu maior sonho. Mas hoje eu sou muito feliz. Fui formado no Fluminense, joguei seleção brasileira sub-19 por causa do clube, e agora estou muito feliz na Índia – destacou o jogador.

          Do futsal ao profissional do Flu: “Eu deslumbrei”

Com apoio da família, os primeiros passos foram em 2002, ainda nas quadras. No futsal do Fluminense, Raphael Augusto ganhou destaque e a atenção de pessoas do clube. Não demorou muito para a transição ao campo. Aos 14 anos, as primeiras dificuldades no gramado, que naturalmente desapareceram com o tempo.

O que era sonho foi ficando cada vez mais palpável após duas edições da Copa São Paulo de Futebol Junior. Ganhou status de promessa e, como todo garoto, tinha preferência pelos clássicos, principalmente contra o Flamengo.

– Fui pegando confiança, as pessoas me ajudando bastante. Eu fui muito feliz na maioria dos clássicos na base. Claro que perdemos alguns, mas é gostoso demais, era gostoso demais. Um Fla-Flu… Uma atenção especial. Se tinha o jogo no sábado era a semana toda na tensão. Contra o Flamengo era o melhor, sempre foi bom, desde a época do futsal, no campo mais pressão ainda.

Raphael foi garoto propaganda no lançamento do uniforme de 2010 (Foto: Reprodução)

Aos 18 anos, a rotina mudou radicalmente. Ainda jovem, foi incorporado ao elenco profissional e viu de perto seus ídolos. Porém, a concorrência era forte, mas as lembranças são positivas. Como esquecer Parreira, o primeiro treinador, ou o primeiro treinamento ao lado de Fred? A rápida ascensão, contudo, subiu à cabeça. Após poucos jogos em 2009 e sem espaço no ano seguinte, o sonho no Tricolor foi interrompido por uma sequência de empréstimos.

– Na minha época, tinha grandes jogadores. Thiago Neves, Conca, aí chegou o Deco, Belletti… Três da minha posição e de destaque. Eu era moleque e não iam pegar um garoto para colocar no lugar do Deco ou do Thiago Neves. E isso também acontece (deixa subir à cabeça). Aconteceu comigo também. Fui subindo rápido dos juniores até o profissional, eu deslumbrei um pouco. Nunca fui um garoto de sair, curtir a noite. Até hoje não bebo. Mas foi mais por ser moleque, às vezes não estava jogando e ia para o treino desanimado, sabendo que não ia jogar. Foi mais isso (um relaxamento).

          Passaporte em dia: vida nos EUA e racismo na Europa

Na cabeça do brasileiro, o ano de 2011 foi marcante. Foi o primeiro com uma sequência como profissional. Começou com um empréstimo ao Duque de Caxias, clube que defendeu durante o Campeonato Carioca. Na sequência, malas prontas com destino a Natal para defender o América-RN na Série B. O próximo destino era internacional: em 2012, passagem pelo futebol dos Estados Unidos, já não mais como meia, mas sim como volante.

Após experiência nos EUA, o jogador aproveitou a parceria entre o Fluminense e o Légia Varsóvia e desembarcou na Polônia, para, talvez, um dos perídos mais complicados da carreira. Foram seis meses apenas treinando, sem ser utilizado pelo treinador, que alegava não ter pedido a contratação. Com a mudança no comando, foi aproveitado e se sagrou campeão nacional. Porém, fora de campo, a nota triste: o racismo.

– Eu passei por situação de racismo. Fui ao mercado com a minha esposa, eu fui pedir alguma coisa para a menina, não falava inglês tão bem. Ela olhou para mim com desprezo, voltei para falar com minha esposa, e a menina disse algo. A minha esposa ficou brava, começou a xingar a mulher e falou para a gente ir embora do mercado. Até hoje ela não me falou o que era, mas foi algo assim, porque eles são muito racistas.

          Realidade na Índia: carinho dos fãs, pagode e culinária “louca”

Em 2015, o empréstimo ao Chennaiyin FC. No fim do ano, chegava ao fim o contrato com o Fluminense. Com isso, cada treino, desde a pré-temporada, era encarado como oportunidade para impressionar os indianos e conseguir estender o vínculo. O casamento foi perfeito, e o brasileiro caiu nas graças do ex-zagueiro e treinador italiano Marco Materazzi. Ao fim da temporada, título no currículo e primeira renovação até o fim de 2016.

Aos poucos o jogador foi virando ídolo da torcida, no futebol e no carinho com os fãs. O bom desempenho ficou refletido no novo contrato, dessa vez mais longo, até 2019. Realizado na Ásia, o meia sonha com uma ida ao futebol europeu – o Sporting, de Portugal, é uma ambição de menino -, mas não pensa em voltar para o Brasil.

Sem tirar o sorriso do rosto, Raphael, que aguarda a chegada da esposa Sophia e dos filhos Marcos e Miguel pela primeira vez na Índia, falou sobre os principais assuntos do país.

          GLOBOESPORTE.COM: Hoje você é feliz, mas quando foi para a Índia não pensava que poderia ser um campeonato ruim?

“Sendo sincero, fui com o pensamento de uma liga fraca, mas isso mudou totalmente. Quando você chega já tem um baque. A estrutura do campeonato é muito boa e é organizada pelos ingleses, os mesmos da Premier League. Os estádios são de primeira linha e o nível da liga muito bom. As pessoas devem pensar que não, mas é muito boa. Assinaram agora com o Berbatov, tem o Brown, que jogou no Manchester United. Por mais que tenham uma idade, isso atrai. Tem jogadores brasileiros que jogam lá e poderiam estar em qualquer clube grande no Brasil”.

          Como é a relação com os torcedores?

“Eles gostam de um drible (risos). Vivem me mandando mensagem. Gosto disso, querem saber qual o novo drible. E a torcida é grande, cabem 35 mil pessoas no nosso estádio, não é qualquer coisa. Tem estádio que vão 60 mil pessoas. Aqui no Brasil para colocar isso é difícil. Com toda a humildade, as pessoas gostam demais de mim. Uma vez dois garotos saíram da cidade deles, dormiram no hotel, mas não conseguiram me encontrar. Pagaram outra diária só para me ver e me encontraram no restaurante. Eles ficaram me olhando e fazendo reverência. Ficaram emocionados, me contaram a história e deram cartaz. Fiz questão de dar camisa para eles. As pessoas me tratam muito bem. Não tem coisa que pague”.

          E o Raphael na música? Mostra para os indianos o que a gente ouve aqui no Brasil?

“Gosto de pagode, MPB… Minha esposa comprou um cavaquinho para eu tentar tocar no tempo sozinho lá (risos). Já mostrei para eles no ônibus, coloco o som logo. Eles pedem. Coloco o Revelação, afeta todo mundo. Dia de jogo eles pedem. Tem que ver eles sambando (risos)”.

          Imagino que tenha sofrido com a comida, né? Já teve coisa estranha que teve que comer?

“Nossa senhora, vivo comendo coisa estranha (risos). Comi um negócio colorido, ainda perguntei o cara se tinha pimenta, ele falou “zero pimenta”. Só pelo cheiro eu sabia que tinha. Nesse dia era uma apresentação lá, a dona do clube me olhando, falando para comer, e eu tinha que comer, né? Sei que cuspi tudo em cima do negócio, fiquei sem graça para caramba (risos). Uma panela enorme, todo mundo pegando com a mão. Agora que vou para lá levo um feijão, mas acaba (risos). Vamos contando os dias”.

          A gente tem a informação que o trânsito na Índia é completamente diferente daqui. É verdade isso?

“É uma loucura. Se tenho que treinar às 8h, saio do hotel às 5h. Tem vaca na rua, rato passando. Mas é uma cultura que aprendi a viver. Você acaba se divertindo, você vive rindo com a cidade. É uma loucura, dez numa moto só. Outro dia tinham quatro na moto, criança, marido, uma menina no colo do cara. E eles tranquilos. Passo meu dia na janela do hotel rindo. Meu dia é esse (risos)”.

          E o assédio feminino… Tem maria-chuteira por lá? Sua mulher preocupa?

“Se tiver minha mulher pode ficar despreocupada, porque não tem nada demais não (risos). Nada mesmo. Ela vê e fala, “Índia? Pode ir” (risos). Tem algumas meninas que gostam de jogar futebol. Tem uma que cuida de um fã-clube meu, que também não é nada demais. Se fosse outra minha esposa ia bater de frente (risos)”.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 2014 e 2015, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: GloboEsporte

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