A Ponte Preta espera, da Fifa, o reconhecimento como a primeira democracia racial do futebol brasileiro. A campanha, na verdade, foi lançada e é mantida por um grupo de torcedores apaixonados, que gratuitamente vasculham alfarrábios e jornais antigos à procura de documentos que comprovem um episódio importantíssimo da história. Dentre todos os times profissionais em atividade, a Macaca foi o primeiro a escalar um jogador negro. Miguel do Carmo, um rapaz de 16 anos, é citado em ata de agosto de 1900 como um dos jovens fundadores e atletas do clube.

O documento foi garimpado no próprio clube por José Moraes dos Santos Neto, professor de história da PUC-Campinas, que se ofereceu para elaborar o ofício, já protocolado na Fifa. Mas este foi apenas o primeiro passo da campanha. A chancela do órgão internacional depende de pesquisas aprofundadas em arquivos públicos. “Precisamos encontrar jornais de época, que atestam a escalação de Miguel do Carmo em jogos da Ponte”, fala o historiador. “Não existe uma única fotografia, por exemplo, do rapaz vestido com calção e chuteira”.

E fazer a pesquisa pormenorizada é quase uma utopia. O voluntário Neto sonha que diretores da Ponte ou patrocinadores privados financiem visitas a bibliotecas e museus, e permitam o estudo detalhado dos primórdios do futebol brasileiro. O trabalho, afirma, pode revelar capítulos importantes de uma sociedade que, na primeira metade do século passado, era racista ao extremo.

“A gente espera ver a Ponte reconhecida como uma instituição que ajudou na consolidação do futebol como um esporte das massas, aberto a cidadãos de todas as raças e classes sociais”, diz.

E o idealista Neto não está sozinho. A campanha chegou às redes sociais por meio de mensagens postadas pelo fonoaudiólogo Carlos Burghi, pontepretano apaixonado, descendente de Luiz Garibaldi Burghi, Nicolau Burghi e João Burghi, que também são citados na mesma ata de fundação do clube, escrita por Alberto Aranha. “Eu acho que não é uma campanha só de pontepretanos. É dos campineiros. Miguel do Carmo merece homenagem na Câmara, por exemplo, e sua história precisa ser conhecida no Estado, no País, no mundo”, fala. “É, sim, um trabalho de formiguinha. Mas se a gente conseguir despertar o interesse da comunidade, o assunto vai longe.”

O pioneiro

Miguel do Carmo nasceu em 1885. Quando menino, morava em uma daquelas históricas casas da Rua Abolição, reservadas a funcionários da Companhia Paulista. Ele trabalhou como ferroviário, e jogava futebol com os garotos no bairro onde nasceu o clube. O rapaz cresceu, se casou, teve dez filhos. Mas morreu muito jovem, aos 47 anos, em 1932. Um dos filhos, Geraldo do Carmo, está vivo até hoje, e mora no Jardim Garcia. Ele tinha só 5 anos quando o pai partiu deste mundo. Mas a paixão pela bola estava no sangue. Ele próprio se tornou jogador de futebol profissional.

Mas, ironia do destino, Geraldo nunca jogou na Ponte. Começou adolescente no Mogiana, na década de 40. Às vésperas de fazer 25 anos, em 1950, foi contratado pelo Guarani. E, daqui, o volante fez carreira: foi campeão paulista da divisão de acesso jogando pelo Linense, em 52; e também teve passagens pelo XV de Jaú, Comercial e Francana. Ele voltou a trabalhar no Guarani depois de aposentar as chuteiras. Foi técnico da equipe de base e treinou revelações como Zetti, Neto e João Paulo.

Hoje, o homem tem 86 anos. Mora em uma casa modesta da Rua Cerqueira César, no Jardim Garcia, e se diverte muito contando os causos da bola. Geraldo fala que, antes de vestir a camisa do Bugre, chegou a ser convidado para jogar na Ponte. Mas ele seria reserva do quarto-zagueiro Pitico. Quando pintou o convite do Bugre, ele não pensou duas vezes. “Era assim: o diretor encontrava com a gente de manhã e a gente jogava na mesma tarde”, fala. Época romântica, de dinheiro curto, mas de futebol apaixonado.

Hoje, Geraldo ainda bate uma bolinha no minicampo do bairro. Com saúde de ferro, diz que até toma umas cervejinhas pra animar. E ele é muito popular no bairro. Tanto é que dá nome à escolinha de futebol da associação de moradores.

Falando do pai Miguel, seu Geraldo diz que ficou orgulhoso de saber da campanha pelo reconhecimento da Fifa. “Ah, meu Deus do céu, eu cresci jogando bola. Tenho só um irmão vivo no Rio, dois anos mais velho que eu. Ele também foi jogador profissional. Tenho 4 netos e quero que eles também joguem bola. É assim. Acho que é genético”, diverte-se.

Bangu

Oficialmente, o primeiro time profissional brasileiro a escalar um jogador negro foi o Bangu. Em 1905, o time formado por operários de uma tecelagem era inscrito para disputar o campeonato municipal do Rio. Entre eles, estava o negro Francisco Carregal. Na época, a Liga Metropolitana de Futebol chegou a impedir a inscrição do rapaz, o que levou o Bangu a se afastar do campeonato.

Mas, na década seguinte, o Vasco criou seu departamento de futebol. Em 1923, por sinal, o time conseguiu seu primeiro campeonato carioca, escalando um time basicamente formado por negros. O episódio está registrado no clássico O Negro no Futebol, escrito por Mário Filho.

Aquele título do Vasco fez com que outros times deixassem de lado o preconceito. Nas décadas seguintes, surgiu nos gramados uma constelação de craques negros: Leônidas, Domingos da Guia, Djalma Santos, Pelé. O futebol virou um esporte de massa, cultuado por todas as raças e classes sociais.

Fonte: RAC