Jogo no campo da Graça, em Salvador

Jogo no campo da Graça, em Salvador

O pontapé inicial que o futebol deu em terras baianas foi por volta de 1901. Assim como no Rio de Janeiro, onde as elites, com seus jovens estudantes que, ao voltarem da Inglaterra, traziam consigo uma bola de futebol e o manual de regras, o futebol baiano teve a sua introdução atribuída ao jovem José Ferreira Júnior, mais conhecido como Zuza. Como muitos garotos filhos da ilustre burguesia baiana, Zuza, quando criança, foi mandado a Europa para receber uma boa educação e costumes. Seu pai, o senhor José Ferreira, então tesoureiro do British Bank, em Salvador, acreditava que na Europa era o lugar ideal para a educação do seu filho, muito diferente da educação baiana arraigada em valores arcaicos. Terminados os estudos na Inglaterra, Zuza retorna a Salvador em 25 de outubro de 1901. Logo no primeiro domingo após sua chegada, o jovem garoto, reúne alguns poucos amigos entre eles, Petersen e Drumond, além do seu irmão, Tapioca no Campo dos Mártires (Campo da Pólvora), “recolhe algumas pedras para montar as traves, dá algumas instruções a seus amigos, pega a bola e dá um forte chute para cima: Assim começa o futebol na Bahia”.

As primeiras partidas de futebol em Salvador entre 1901 e 1905 ainda eram poucas, sendo realizadas nos dias de domingo e feriado, no Campo da Pólvora e no Rio Vermelho. Pelos menos nos seus dois anos iniciais os jogos eram disputados em sua maioria por jovens da elite soteropolitana. Haroldo Maia, principal memorialista do futebol baiano, afirma que “os jovens que voltavam dos estudos realizados na Inglaterra e Suíça é que eram os mestres da bola, pois já tinham contato com o esporte na Europa”. Desta forma, o jogo era uma espécie de divertimento, de lazer para uma pequena parcela da juventude soteropolitana.

Entre 1901 e 1905 o futebol em Salvador era praticado esporadicamente. Os times eram reuniões entre amigos que se uniam e disputavam partidas nos campos de Salvador. Em 1903, precisamente no dia 31 de outubro, o Jornal Diário de Notícias divulga na primeira página regras sobre o futebol. Rapidamente as edições de jornal acabaram. No mesmo ano meses depois, 23 de dezembro a loja Pinto Moreira “anuncia nos jornais que as meias para a prática do esporte já chegaram da Europa. Assim como as regras de futebol, as meias da Pinto Moreira também se esgotam rapidamente”. Estes pequenos episódios ocorridos no ano de 1903 podem ilustrar a dimensão que o esporte ia adquirindo na sociedade baiana, não só entre os setores abastados comprando seus materiais importados, como das classes subalternas, fugindo da polícia.

Outros dois episódios importantes que ocorrem no ano de 1903 é que mostram que naquele pequeno intervalo de tempo o futebol já estava mudando. Até aquele momento não havia nenhuma espécie de agremiação ou clube onde os jovens poderiam se reunir periodicamente para a pratica do futebol. Os times eram formados por amigos que nos finais de semanas e feriados praticavam o jogo da bola. Todavia, em 7 de setembro de 1903 um grupo rapazes que trabalhavam no comércio se reuniu e resolveu fundar um clube. Com a fundação do clube, os jovens se reuniam todos os domingos para a prática do futebol:

Rapazes do Comércio, animados, fundam o primeiro clube de futebol da Bahia. Foi ele o Sport Club Bahiano, fundado em 7 de setembro de 1903 e a quem a Bahia esportiva ficou a dever reais serviços. Os seus sócios realizavam todos os domingos partidas de futebol entre os times Branco e Verde e uma banda de música alegrava o público. No dia 15 de novembro um grande jogo foi realizado entre os já afamados times Verde e Branco.

Também foi no ano de 1903 que houve a primeira partida de futebol envolvendo um time da Bahia contra um time inglês. Esta foi a primeira partida internacional que se tem notícia no Brasil. Um navio que se encontrava no porto de Salvador tinha entre seus tripulantes um time inglês. Feito o convite por alguns desportistas baianos, em 30 de agosto daquele ano foi realizada uma partida deste time contra um combinado baiano que tinha no seu time alguns ingleses. A partida foi vencida pelo combinado baiano pelo placar de 2×0.

Percebe-se que rapidamente uma nova dinâmica começava a penetrar no futebol baiano. Até então não se formavam clubes de futebol em Salvador. As agremiações ou clubes existentes eram os de regatas, que praticavam o remo ou então os clubes de cricket. Estas duas práticas esportivas eram as mais famosas em Salvador, nas quais a participação popular era quase inexistente. Seus principais representantes eram o Esporte Clube Vitória no cricket e remo e o São Salvador, rival do Vitória no remo. Com a formação dos clubes de futebol, este esporte começava a ter e até superar o status dos outros esportes.

A formação destes clubes também transformou profundamente as relações sociais no futebol baiano. A criação destes pode ser interpretada como um processo de distinção social através da formação de um habitus (BORDIEU, 1992). Como se sabe, a prática do futebol não exigia um poder aquisitivo para a compra de materiais adequados a sua prática, qualquer pessoa poderia praticá-lo. No cricket e remo, entretanto, o material exigido impossibilitava a prática destes pelos populares. Neste sentido, a formação de clubes com estatutos, deveres obrigações, restringia e selecionava a participação dos indivíduos.

Enfim, inicialmente no futebol baiano são realizados diversos amistosos, reunindo ilustres pessoas interessadas em praticar e conhecer o novo esporte. Estes amistosos se constituíam enquanto um meio de sociabilidades entres as elites soteropolitanas. Estas, constituídas por profissionais liberais, como médicos, advogados, além de comerciantes e principalmente estudantes, viam no futebol um espaço de construção de identidades.

Os amistosos realizados contribuíram na formação de diversos clubes futebolísticos. Os principais clubes baianos, como o Vitória e São Salvador, fundados em 1899, inicialmente para a prática do remo, o Yankee, em 1917, e o Bahiano, em 1911 eram formados por jovens estudantes ou rapazes do comércio, todos membros da alta sociedade baiana. Nestes clubes era comum a ocorrência de festas, saraus e outros tipos de eventos de socialização envolvendo seus filiados. Sobre uma festa de aniversário do Vitória encontramos:

O Vitória comemorou seu quinto aniversário em 13 de maio de 1904, com presença de senhoras e senhorinhas, na garagem da Barra. Houve uma sessão comemorativa presidida pelo Sr. Pedro Almeida com a presença do novo presidente Cezar Spinola. A sessão terminou após o meio dia. Às três horas da tarde no field (campo) da Quinta da Barra houve uma partida de foot-ball. Venceu o team (time) chefiado pelo Sr. Arthur Moraes que fez dois goals (tentos) contra o team do Sr. Álvaro Tarquínio que fez um só goal. Os esforçados moços construíram um barracão com assentos que não foram suficientes para alojar o número de exmas. famílias que compareceram àquela festa esportiva Terminado o torneio, os diretores do Sport Clube Vitória fizeram servir a todos os convidados um profuso copo d’água.

Após a formação destes clubes, percebemos também o processo de institucionalização do futebol baiano em 1904, período da formação de uma Liga que reuniria os principais clubes soteropolitanos.

Acreditavam os primeiros clubes formados para a prática do futebol que um campeonato de futebol para os desportistas era o que faltava no futebol baiano. Um torneio em que fossem realizados jogos com mais freqüência e certa periodicidade. Através de um campeonato mais partidas seriam disputadas, sendo que no final deste um campeão seria declarado recebendo assim um troféu representando a sua conquista. O São Paulo, clube baiano formando por paulistas, por já ter contato com o futebol no sudeste brasileiro percebeu que a criação de uma liga em Salvador seria de fundamental importância para o desenvolvimento do esporte naquele estado. Sendo assim o clube em parceria com o Bahiano, convida o Vitória e Internacional para fundarem, no dia 15 de novembro de 1904, a primeira liga de futebol da Bahia. Há algum tempo os jornais baianos, observando a experiência do futebol em outros lugares do Brasil, reclamava pela criação desta liga. A criação desta foi bem vista pelos jornalistas baianos. Dois dias após a criação da Liga de Futebol o jornal de notícias informava aos seus leitores:

Ante-hotem, 15 às 11 horas do dia, reunidos alguns sócios dos clubes Vitória, Internacional, Bahiano e São Paulo, na sede deste, instalaram a LIGA BAHIANA DE SPORTS TERRESTRES que tem por fim dar maior desenvolvimento aos sports terrestres na Bahia. Procedida a eleição a sua diretoria ficou assim composta: – Presidente F. G. May, – Vice- Artemio Valente – Secretário Astolfo Margarido e Tesoureiro Aníbal Pertesen.

Então a partir de 1905, principalmente, depois de Salvador vivenciar uma institucionalização do futebol em vias de consolidação, em nove de abril de 1905, mais precisamente, começa o primeiro campeonato baiano de futebol. O Campo da Pólvora conta com uma grande assistência. Autoridades, a alta sociedade soteropolitana. O campo está embandeirado. “Uma banda de música delicia os espectadores enquanto não se inicia o campeonato”. Cinco clubes participariam deste campeonato.

O Torneio é um verdadeiro sucesso. Praticamente todas as partidas contam com um público formidável, constituído tanto de pessoas elegantes, quanto populares. Os cinco clubes participantes, Vitória, São Salvador, Internacional, Bahiano e São Paulo são todos originários das altas rodas, sobretudo o Internacional, fundado por imigrantes ingleses. Este clube acaba vencendo todas as partidas e conquistando o campeonato.

Após a realização do primeiro campeonato de futebol baiano, Salvador ainda experimenta a existência de outras sete edições deste campeonato. No período de existência destes torneios é possível associar o imaginário da modernidade presente na vivência da cultura futebolística por parte de certos grupos sociais de Salvador especialmente as elites a as classes médias da cidade. Entre 1905 e 1912, momento em que ocorrem as edições do torneio de futebol baiano e o período da existência da LBDT, Salvador experimenta uma cultura do futebol entendida como uma cultura “oficial”. Esta é marcada principalmente por uma experiência do futebol tipicamente elitizado.

O imaginário da modernidade no futebol soteropolitano encontrava bastante sentido na prática do amadorismo. Esta condição no futebol brasileiro foi experimentada em todo o Brasil constituindo-se em um forte aparato regulador da participação de grupos subalternos nos principais clubes brasileiros e nos campeonatos. O sujeito considerado amador era uma pessoa que tinha uma profissão bem aceita pela sociedade e não dependeria do esporte para garantir seu sustento. O futebol então consistia em uma diversão, um lazer. A moderna sociedade brasileira experimentava uma nova dinâmica nas suas relações sociais. A rapidez pela qual a sociedade se transformava exigia novos padrões de comportamento e expressão corporal. Neste sentido, o futebol contribuiria para o amadurecimento desta nova sociedade. Através da prática do futebol estes amadores estariam melhores condicionados para enfrentar os desafios do mundo e trabalho moderno. Desta forma, o sujeito depender do futebol para o seu sustento era inaceitável. O amadorismo também se caracterizava por um perfil social e racial dos seus praticantes bastante distinto. Dos quatro primeiros participantes do campeonato, o Internacional e o São Paulo eram formados respectivamente por colonos ingleses e paulistas que se estabeleceram em Salvador, enquanto que o Vitória e o São Salvador tinham sua base formada na aristocracia baiana. Estes jogadores pertenciam às elites soteropolitanas, constituídas de profissionais liberais, médicos, advogados, comerciantes, donos de casas comercias e muitos acadêmicos, estudantes.

No amadorismo também é possível perceber a construção de representações e práticas culturais a respeito da modernidade e civilidade, que remetem a uma tentativa europeizar-se.

Todos os conhecimentos acerca do futebol, regras, sistemas táticos, estilos de jogo que desde meados do século XIX na Europa passavam por um processo de aperfeiçoamento acabou chegando ao Brasil e foi profundamente absorvido pelos grandes clubes e jogadores. Naquele tempo, o futebol brasileiro ainda não era conhecido pelo seu gingado e malandragem. Afinal, estas características do jogador brasileiro são atribuídas ao negro que até então tinha sua participação na cultura futebolística oficial negada. O que era moda e se tornou a base do estilo de jogo brasileiro era o inglês. O principal responsável pela difusão do estilo de jogo inglês no Brasil foi Mario Sérgio Cardim. Grande cronista esportivo do início do século, Cardim em 1905 elaborou um guia de foot-ball onde constavam todas as informações a respeito do jogo de bola. Os estilos, as formações táticas a forma de jogar e controlar a bola, além das regras, estava dentro deste livreto que virou referência para todo jovem que desejasse iniciar no futebol.

Apesar de todos estes aspectos da cultura futebolística baiana que indicam a relação de influência para com o futebol inglês, o que mais chama atenção em relação à cultura futebolística moderna eram os ritos comportamentais em que os jogadores e torcida estavam inseridos. Antes de ir ao jogo, os homens colocavam suas melhores roupas, freqüentando aos jogos de termo, gravata e chapéu. As senhoras e senhorinhas também com seus belos vestidos abrilhantavam as partidas. Existia certo padrão de comportamento que determinava a forma dos indivíduos dos grupos elitizados irem ao jogo. Toda partida inicialmente passava por um rito de celebração festiva por parte dos ilustres torcedores. Antes de começar o jogo uma banda, geralmente a da polícia, animava a platéia. Este aquecimento, por assim dizer, era um momento em que os grandes comerciantes aristocráticos se sociabilizavam compartilhando experiências de seus cotidianos, comentavam os fatos políticos e as notícias que ocorriam durante a semana soteropolitana. A partida de futebol era mais que um jogo: consistia em um momento de encontro de amigos, estudantes, comerciantes, naquele período, eram todos íntimos.

As partidas em sua maioria corriam de maneira tranqüila sem rivalidades ou lances violentos, pois o cavalheirismo, civilidade e disciplina prevaleciam dentro de campo. Os excessos cometidos como faltas eram sempre desculpadas pelos seus autores. A torcida, seu setor elitizado, também se comportava de maneira disciplinada, torcendo moderadamente Era comum familiares, namoradas dos jogadores assistirem os jogos. Ao fim das partidas os jovens adversários confraternizavam-se. Não raramente ocorria dos jogadores saírem do campo e irem confraternizar em bares, geralmente no famoso bar de Salvador, o Sul Americano como o cronista relatou entre o jogo do Vitória e São Salvador:

Ás 6 horas finda a luta e tão grande era o entusiasmo reinante que de momento se organizou magestoso prestito. A’s 15,15 desfilou este a caminho do Sul Americano tendo à frente a música da Polícia, o team vencedor, famílias, adeptos do clube, sócios de outros clubes congeneres e grande massa popular, em entusiástica passeata. No Sul Americano foi servido champagne oferecido por Artur Morais capitão do team, sendo erguida saudações ao grande Club Vitória, ao Internacional, Bahiano e a Liga. No mesmo entusiasmo seguiu a passeata até a Praça da Aclamação, onde se dispersou.

Enfim, o que podemos concluir sobre estes aspectos iniciais do futebol baiano? Todo este modo de ser, sentir e representar das elites baianas em torno do futebol baiano resultou na formação de uma cultura futebolística “oficial” e moderna em Salvador. O jeito chic de freqüentar os jogos dos rapazes e senhorinhas, a banda que anima a torcida, passando pelas táticas e estilos de jogos importados da Inglaterra através dos guias de foot-ball e chegando até a formação do clubes e da Liga com seus estatutos, juntos caracterizam uma forma desta cultura futebolística ser e representar no cenário soteropolitano. No sentido chartierano (CHARTIER, 1990), a representação sociocultural almejada pelos desportistas baianos era vivenciar o futebol enquanto uma prática civilizada, que contribuiria para o progresso e desenvolvimento da Bahia. Esta representação por sua vez está condicionada ao lugar social e cultural de onde este discurso é produzido: As elites brancas baianas inspiradas em modelos socioculturais de comportamento burgueses e europeus. A cultura futebolística “oficial” soteropolitana está, no bojo das transformações sociais e culturais atribuídas a modernidade, como o cinema, a educação e lazer feminino e a urbanização e remodelação do espaço urbano de Salvador. Além de estar no seio destas transformações, a cultura futebolística oficial também tinha como prioridade a distinção e separação das representações que os populares começavam a ter sobre o esporte. Em termos cronológicos a tentativa de homogeneização desta cultura no futebol perdura até meados na década de 1930 quando sofrerá mudanças substanciais, quando surgirá o profissionalismo no futebol baiano.

Neste momento é interessante pensar também que a tentativa de uma vivência futebolística que remete aos ideais da modernidade, como civilidade, cavalheirismo e europeização, a modernidade futebolística soteropolitana encontra certas peculiaridades no que diz respeito ao lugar dos populares, sobretudo dos negros na modernidade futebolística. Além do imaginário moderno de Salvador buscar uma europeização de seus costumes, existia também, ao menos no futebol, a tentativa de restringir os populares e negros pobres da vivência da própria modernidade. É como se a modernidade soteropolitana fosse negada às culturas subalternizadas. No âmbito da historiografia da primeira república da Bahia, encontramos algumas referências que acreditam que a modernidade em Salvador buscava, além da europeização, a negação e exclusão das culturas negras em um nítido processo de “desafricanização”, termo já consolidado na historiografia baiana, dos costumes e das práticas culturais subalternizadas. Enfim, paralelamente à exclusão das práticas socioculturais populares, nos arriscamos a dizer a dizer que, no que tange ao futebol, a modernidade soteropolitana buscava negar a participação popular neste esporte.

Acreditamos que o processo de institucionalização do futebol em Salvador com formação de clubes e de uma Liga pode ser pensado não só como um fomento e desenvolvimento daquele esporte, mas também uma tentativa de restringir os setores populares da prática do futebol. Este esporte rapidamente se popularizou na sociedade baiana descaracterizando a sua intenção inicial de contribuir para a o progresso e civilidade da sociedade soteropolitana.

Encontramos diversos elementos que corroboram a argumentação do caráter restritivo da Liga e dos clubes. Em estatutos de clubes considerados da elite, como o Yankee de 1914 encontramos as seguintes restrições:

Capítulo III
Da Admissão, Eliminação, Readmissão e Punição dos socios.
Art. 15 Não poderão ser admittidos como socio deste club.
a) aquelles que exerçam profissões humilhantes que lhes permitam recebimento de gorjetas;
b) os que tirem proveito da pratica de sport directa ou indirectamente;
c) os guardas civis e praças de pret exceptuando-se porém aquelles que forem obrigados ao serviço militar em virtude de sorteio e os alumnos das escolas militares;
d) os que se entreguem a exploração de jogos prohibidos; os analphabetos e os que embora tendo posição, profissão ou emprego estejam a juízo da Directoria abaixo do nível moral exigido pelo amadorsimo;
e) os pronunciados emquanto durarem os effeitos da pronuncia e todos aquelles que forem condemnados por crimes capitulados no Código Penal ou provadamente culpados de actos deshonrosos.

O estatuto do Yankee pode ser traduzido em uma única palavra que até meados da década de 1930 definiu a condição do futebol em Salvador: o amadorismo. Talvez encontremos no amadorismo o grande agente regulador e selecionador dos indivíduos aptos a participarem dos clubes e campeonatos. Uma das principais características do amadorismo em seu aspecto institucional era a criação dos estatutos O artigo número 15 do capítulo terceiro do estatuto do Yankee Foot-ball Club proíbe a participação de analfabetos, desempregados e de indivíduos que exerciam profissões humilhantes como engraxates, peixeiros, pedreiros, entre outras profissões subalternas. Ora, na Salvador das primeiras décadas republicanas as profissões subalternas eram totalmente ocupadas por pobres, quase todos pretos, heranças do seu passado colonial. No que diz respeito à alfabetização em Salvador, nas primeiras décadas republicanas, 75% da população soteropolitana era analfabeta. Enfim, estas tentativas de restrições e limitações em torno da participação dos sujeitos nos clubes e liga de Salvador demonstra claramente a distinção social e também, acreditamos, racial que permeava o futebol naquele momento. Infelizmente ainda não foi possível encontrar estatutos de outros clubes soteropolitanos como do Vitória e São Salvador. Todavia, é muito provável, pensando em na perspectiva do indício historiográfico  que estes se assemelhem ao estatuto do Yankee, uma vez que na década de 1900 o amadorismo era muito mais latente na sociedade soteropolitana.

Um outro estatuto bastante oportuno para as nossas discussões é do Sport Club Bahia. Fundado em 1903, sobre o nome de Bahiano, este clube, durante alguns anos da década de 1900, fica afastado das práticas esportivas. Retorna ao cenário futebolístico de Salvador em 1911, como o nome de Sport Clube Bahia. Em seus estatutos, quanto à admissão de sócio encontramos que “em hypotese alguma poderá fazer parte do club pessoas de côr”5. Enfim, este estatuto, assim como o do Yankee, revela que as restrições quanto à participação de pessoas nos clubes é uma questão não só classista como também racial.

Ao final, encontramos ainda outras fontes que acabam corroborando nossas argumentações no que diz respeito à interpretação de uma modernidade soteropolitana que, no futebol, buscava excluir a participação popular.

Um dos principais memorialistas do futebol baiano no texto original de sua publicação Almanque Esportivo da Bahia nos fornece alguns comentários acerca da restrição racial no futebol baiano e da tentativa de exclusão dos populares:

Com menos de cem anos de abolição de escravatura era natural que o negro ainda fosse olhado com certo rancor e reservas, pois a liga bahiana de desportos terrestres, para ser actual, não aceitava que seus clubes filiados tivessem jogadores de cor. Ser negro era macula indelével naqueles tempos de muito saudosismo dos baronatos e sinhasinhas.(…) temos de reconhecer que a discriminação racial foi, até certo ponto, benéfica ao nosso futebol. Porque o amparo material e moral que esse esporte precisou receber para se firmar teria que vir dos brancos, da alta sociedade de então, toda ela composta de homens descendentes de portugueses, teria de vir dos ingleses aqui residentes, que foram os grandes incentivadores.

Observa-se que os comentários do memorialista acabam ressaltando e defendendo o caráter eugênico do futebol baiano. Ao afirmar que o racismo no futebol foi benéfico, pois desta forma o esporte encontrou amparo material e moral para se desenvolver, o memorialista parece querer defender a idéia de evolução. Neste caso a evolução do futebol, deve passar pela raça branca, considerada a principal responsável pelo progresso de desenvolvimento da humanidade.

Finalmente, a própria LBDT era chamada pelos populares como a “Liga dos Brancos” justamente por não aceitarem a participação dos negros, o que reforça a nossa argumentação da peculiaridade da modernidade em Salvador.

Além dos racismos presente tanto na composição dos times como na LBDT, a própria Intendência Municipal, como era definido o poder municipal em 1903, regulava a prática do futebol na cidade, impedindo a prática em qualquer lugar:

O FUTEBOL – Resolvendo o pedido feito pela Secretaria da Polícia sobre Pontos onde possa ser efetuado jogo de futebol sem prejuízo da propriedade particular, conforme reclamações levantadas, a Intendência Municipal designou-se os seguintes pontos para realizar-se aquela diversão: Campo dos Mártires, no distrito de Nazaré; Quinta da Barra, no distrito da Vitória; Fonte do Boi, no distrito de Brotas; Largo do Barbalho, no distrito de Santo Antônio; e Largo do Papagaio, no distrito da Penha.

Enfim, de 1901 a 1912 entendemos a cultura do futebol baiano enquanto uma cultura “oficial” de caráter restrito, racista e selecionadora. Para além destas características, a cultura futebolística “oficial” representava também uma prática notadamente branca e, principalmente, europeizada.

Neste momento é interessante ressaltar que a nossa tentativa de identificar e localizar a existência de uma possível cultura futebolística oficial entre 1901 e 1912 não nos faz afirmar categoricamente que este sistema sociocultural foi indefensável ou impenetrável pelos grupos populares e, sobretudo, os negros. Apesar de encontrarmos diversas fontes que nos levam a definir uma cultura futebolística oficial enquanto racista e selecionadora, acreditamos ser apressado afirmar que esta cultura em nenhum momento permitiu um possível diálogo e, por que não, uma aceitação, mesmo contraditória, dos negros e populares no futebol “oficial”. Neste sentido, a leitura do clássico de Mário Filho nos é muito apropriada, uma vez que este autor, na interpretação dos primórdios do futebol carioca, consegue enxergar claramente os diversos pontos de contato e negociação da participação dos populares e do negro no futebol, como ele mesmo diz, “dos brancos”. Por exemplo, no Rio de Janeiro, Mário Filho afirma que existiam diversas formas de burlar o amadorismo e as restrições dos estatutos dos clubes. Quando os jogadores eram analfabetos, existia uma tentativa de alfabetizá-los rapidamente para que estes pudessem apenas assinar o seu nome o que acabaria comprovando uma suposta alfabetização dos mesmos. Mario Filho ainda nos diz que existia uma tendência de empregar grandes jogadores no comércio ou em empregos públicos. Estes empregos eram, muitas vezes, conseguidos por entusiastas e incentivadores dos clubes, burlando então os estatutos dos clubes que proibiam a participação de pessoas desempregadas. Enfim, a leitura de Mario Filho nos mostra o quanto dialógico e contraditório poderia ser a participação e o lugar dos populares e negros no futebol praticado pelas elites.

Acreditamos que na experiência futebolística de Salvador, talvez este dialogicismo pudesse ter existido na cultura “oficial”, embora afirmamos que, em termos, gerais é possível afirmar que, de fato, existia um racismo e restrição quanto a participação dos populares e negros no futebol das elites em Salvador nos primeiros dez anos da sua prática.

Tal situação era tão visível que após, poderíamos dizer, a primeira fase do futebol baiano, marcada pelo desenvolvimento desta cultura oficial, os grupos populares acabam desenvolvendo uma cultura futebolística a parte, formando os próprios clubes e uma própria Liga de Futebol o que veremos a seguir.

       Cultura popular do futebol baiano e a expressividade negra

Como observamos, os grupos populares de Salvador tiveram várias restrições no que diz respeito a sua participação no futebol considerado “oficial”. Entretanto, apesar de terem a sua participação negada pelos clubes de elite, os populares não deixaram de praticar o esporte. Desde 1901, quando chegou à Bahia, o futebol, entre os populares, foi se desenvolvendo, criando, inventando espaços e práticas culturais próprias. Observa-se que a rua se torna um espaço privilegiado para a prática do futebol. Era nestes locais onde a crianças pobres e adultos praticavam os seus babas. Não raramente é possível encontrar notícias nos jornais se queixando da prática do futebol nas ruas por pessoas desocupadas e desordeiras:

O foot-ball de garotos no Largo de São Bento, que reunem-se todos os dias naquele largo. É uma turma de desocupados jogando foot-ball, quebrando vidraças, vidros de lampiões públicos, incomodando o trânsito. Ainda hoje o general comandante do distrito por pouco ia sendo atropelado por uma bola que esses vadios não deixam. Ao Sr. Alfredo Braga, policial desta capital, endereçamos estas linhas.

Parece-nos que, enquanto na década de 1900, o futebol praticado pelas elites soteropolitanas foi encontrando certa legitimação e institucionalização com um ligeiro apoio da Intendência Municipal, os populares tiveram que forjar os seus próprios espaços de prática do futebol. Acreditamos que a prática esportiva pelos populares, de certa forma, constitui-se em um processo de territorialização de alguns espaços públicos em Salvador. Aliás, já no século XIX, podemos perceber a territorialização dos espaços públicos em Salvador, através dos escravos urbanos que imprimiam costumes e valores socioculturais nas ruas e praças pelas quais circulavam. No incipiente período republicano percebemos então que a prática futebolística pelos populares nos terrenos baldios, nas ruas e nas praças públicas destinadas a civilidade moderna, se constituía em apropriações dos espaços públicos. Apropriações que, por sua vez, geram sistemas culturais próprios. Enfim, estritamente falando, enquanto as elites praticavam um futebol em espaços já delimitados e legitimados pela Intendência Municipal, os populares se apropriavam de alguns espaços causando muitos transtornos, segundo vários jornais da época, a senhorinhas e senhores que viam os logradouros públicos como um local de tranqüilidade.

Uma outra questão muito interessante e que marca a prática da cultura do futebol pelos populares é a própria apropriação do futebol das elites. Observamos nas fontes que além dos populares encontrarem formas de praticar o futebol de forma autônoma, estes também buscavam acompanhar e, de certa forma, vivenciar a cultura do futebol “oficial”, mesmo sabendo das restrições sofridas por estes. Mais uma vez os relatos de Haroldo Maia sobre o futebol baiano são bastante oportunos:

Os homens de cor compareciam aos campos de futebol, torciam por seus clubes prediletos, mas chamavam a Liga Bahiana de Sports Terrestres de Liga dos Brancos e os clubes a elas filiados de clubes dos brancos porque lhes era negado o direito de praticarem o futebol oficialmente.

Neste relato, observamos que mesmo com a participação negada, os “homens de cor” citados por Maia compareciam aos jogos participando contraditoriamente da cultura futebolística oficial. Esta participação e, ao mesmo tempo, não-participação revela o quanto dialógico poderia ser a cultura “oficial” do futebol baiano.

Outro ponto que nos chama bastante atenção no dialogicismo da cultura “oficial” é que naturalmente a participação contraditória dos populares envolvia uma impressão dos próprios na cultura “oficial”. O que queremos dizer é que a participação dos populares, ao menos torcendo pelos clubes de elite no futebol “oficial”, não se dá de forma passiva. Isto é, a forma da participação dos populares é altamente ativa e ressignificada. Por exemplo, logo no segundo campeonato baiano disputado novamente pelo Internacional, um clube de ingleses, vencedores da primeira edição, houveram vários contratempos devido à hostilidade sofrida por estes jogadores:

É de lamentar que uma malta de desocupados perturbem as belas partidas a que o público acorre tão cheio de curiosa satisfação, prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os escutar ofensas quando perdem e dando triste idéia dos nossos foros de civilização. Convém notar que o Internacional é composto de ingleses que devem ter de nossa parte, como hospedes que são, todas as distinções. Achamos que a polícia bem podia sanar esta inconveniência que vai se tornando um péssimo costume.

Enfim, percebe-se neste relato jornalístico a capacidade dos populares imprimirem novos significados e vivências à cultura futebolística oficial. Neste caso, percebemos uma sensível mudança no modo de torcer. Enquanto que as elites assumem uma postura comedida e discreta quando apóiam seus clubes favoritos, a “malta de desocupados” imprime uma nova forma de torcer, bastante hostil ao adversário, no caso os ingleses.

Até o dado momento, entendemos que a, aqui denominada cultura futebolística popular, inventou seus próprios espaços socioculturais e ressignificou outros. Entretanto, paralelamente ao processo de consolidação da cultura futebolística oficial, a cultura popular do futebol também se institucionalizaria, criando seus clubes e realizando os seus jogos e campeonato. Entendemos que a cultura futebolística popular buscou também uma institucionalização passando a viver uma cultura futebolística não só nos espaços das ruas como também na própria oficialidade.

Talvez o ano de 1911 tenha sido o grande marco para a cultura popular alcançar um status semelhante à cultura “oficial”. Naquele ano houve uma tentativa fracassada de criação de uma liga na qual participariam clubes de menor expressão encabeçados pelo Fluminense e Sul Americano.

Com o final da Liga Bahiana, a “Liga dos Brancos”, supostamente por divergências internas, em 1913 o Fluminense, o principal clube popular de Salvador, consegue fundar a Liga Brasileira de Desportos Terrestres, destinada aos clubes menores. Durante o seu período de existência, 1913-19, contou com a presença de várias agremiações consideradas pequenas nas rodas esportivas e também de clubes grandes como a Associação Atlética da Bahia, o que demonstra o seu caráter ambivalente. Dos pequenos clubes podemos citar o Germânia, o White, o São Bento além do Ypiranga, o clube mais popular daquele período. Estes eram constituídos por pessoas de grupos sociais menos favorecidos como pequenos e médios comerciantes e trabalhadores que exerciam profissões menos reconhecidas, como pedreiros, peixeiros, trabalhadores braçais. É interessante notar que nos estatutos destes clubes, como o do Ypiranga, por exemplo, não encontramos nenhum tipo de restrição quanto à questão de classe ou racial.

Rapidamente a Liga ganha imensa popularidade, pois além de ser o principal campeonato de futebol da cidade, uma vez que não mais existia a “Liga dos Brancos”, a nova Liga tinha uma maior identificação entre os populares.

Entretanto, apesar do sucesso da liga, o preconceito racial ainda existia para com os integrantes da Liga Brasileira. Eraconstantemente alvo de críticas pelos antigos praticantes do futebol baiano, agora denominados pela imprensa de a “velha guarda”. Estes acreditavam que a Liga Brasileira não representava verdadeiramente o futebol baiano, por ser constituída de pessoas que não pertenciam à fina sociedade. A então alta sociedade soteropolitana também reprovava o surgimento de clubes populares onde brancos e negros jogavam:

E houve também clubes de negros, os clubes dos operários, houve clube de mestiços, houve clubes mistos, em que se irmanavam brancos e homens de cor. Esses clubes mistos eram olhados com maior antipatia do que os clubes de negros porque cometiam o terrível pecado de juntarem as suas raças.

Enfim, devido ao caráter miscigenado, “A Liga Brasileira era considerada pela velha guarda como a Liga dos ‘Pretinhos’”.

Enfim, apesar das críticas dos grupos elitizados, a liga continuava fazendo sucesso. É interessante pensar que assim como a extinta Liga Bahaina era um meio de sociabilidade das elites, a “Liga dos Pretinhos” também atendia as necessidades de socialização por parte dos populares. Neste sentido, a cultura popular do futebol em Salvador contribuiu para a constituição de uma identidade coletiva entre as classes subalternizadas. A experiência coletiva da prática do futebol, desde os babas nos logradouros públicos até a formação de uma Liga de Futebol por estes grupos, fomentou a experimentação de uma cultura de classe, uma cultura associativa. No que tange a presença negra no futebol baiano, a “Liga dos Pretinhos” contribuiu significativamente para a formação de novos espaços de poder onde novas experiências e expressividades negras se articulavam e negociavam criativamente com antigas tradições para a formação de uma cultura negra soteropolitana relativamente autônoma.

Leia o artigo completo de Henrique Sena dos Santos