Futebol: Seleção belga pode unir país dividido?

(REUTERS/Max Rossi)

Como explicar o recente entusiasmo nacional com a seleção de futebol da Bélgica, que após a derrota para a França vai decidir o terceiro lugar na Copa do Mundo 2018, na Rússia? Afinal, é um país onde existe a sombra do separatismo entre duas regiões com duas línguas distintas.

“É difícil imaginar que a seleção possa, de repente, ser o acontecimento capaz de unir o país”, disse David Jamar – Sociólogo, da Universidade de Mons (Bélgica).

“No início dos anos 2000, a seleção belga raramente se classificava para a Copa, pelo que não havia uma grande paixão pelo futebol. As bandeiras e palavras de apoio eram para os Diabos Vermelhos, enquanto seleção em si, e não tanto como representantes de uma nação”, explicou, à EuroNews, David Jamar, sociólogo e professor na Universidade de Mons.

O bom desempenho da seleção face a grandes potências do futebol mundial pode ter ajudado para que valões e flamengos se sintam mais próximos debaixo da mesma bandeira, mas para o sociólogo não se pode ter demasiadas expetativas sobre o efeito a longo prazo.

“É difícil imaginar que a seleção possa, de repente, ser uma espécie de solda que une o país. Na verdade, o partido nacionalista N-VA, um dos que está no governo, não tem sequer feito comentários sobre estes resultados desportivos, como acontece com outros partidos. Penso que as questões políticas vão ressurgir”, acrescentou o sociólogo.

Tal como outras seleções de países com um passado colonial, a seleção belga espelha a presença de comunidades oriundas de África e de novas vagas de migrantes. Mas o sociólogo diz que não se pode transpôr o exemplo para outras áreas da sociedade.

“De certa forma, a Bélgica está ligada ao contexto das migrações e há jogadores de origem estrangeira que estão na seleção nacional. O sucesso da integração ao nível do futebol é algo bastante excepcional quando comparamos com a discriminação que existir ao nível do emprego, tanto na Bélgica, como no resto da Europa. Há um certo impacto, mas de uma forma distorcida”, explicou.

O fato da seleção ter chegado tão longe, e de alguns dos maiores heróis serem de origem estrangeira, pode ser a semente para essa mudança, mas é preciso trabalhar o multiculturalismo a um nível mais profundo, defende David Jamar.

“Tudo dependerá da maneira como os grupos que lidam com as questões do racismo e da discriminação vão aproveitar, ou não, estas oportunidades para mudar as coisas. Isso implicaria analisar com atenção o caminho percorrido pelos próprios jogadores. Isto é, que apesar da discriminação, em geral e no mundo do futebol, eles encontraram uma forma de chegar até esta posição. Se não se fizer essa análise, provavelmente a seleção permanecerá simplesmente como um símbolo, dirá mesmo um pouco vazio, um pouco oco”.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: EuroNews

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