França mantém fraturas sociais 20 anos após título mundial da geração ‘black-blanc-beur’

Zidane disputando jogo pela França em 1998. Foto: Getty Images

A avenida Champs-Élysées tomada por uma multidão apaixonada. No caminho que liga o Arco do Triunfo e a Praça da Concórdia, dois dos principais símbolos de Paris, torcedores envoltos em bandeiras da França, alguns trajados com a camisa da seleção francesa, outros com o rosto pintado nas cores azul, branca e vermelha, juntos entoando em coro a “Marselhesa”, o hino nacional francês.

Essa poderia ser a descrição da maré de pessoas em êxtase que foi às ruas festejar a conquista do primeiro título mundial há exatos 20 anos, no dia 12 de julho de 1998. Poderia também corresponder à festa da última terça-feira, quando a equipe de Didier Deschamps se garantiu na final da Copa do Mundo com a vitória sobre a Bélgica por 1 a 0. Passado e presente pareciam se misturar por algumas horas. Apesar da sensação de déjà vu, especialistas asseguram que as “Franças” de 1998 e 2018 não se confundem.

Para William Gasparini, sociólogo especialista em esporte e professor na Universidade de Estrasburgo, a integração nacional impulsionada pela conquista da seleção há 20 anos foi um fenômeno passageiro. “A vitória da França criou uma grande emoção coletiva. Franceses de todas as origens se encontraram unidos nas ruas, apesar das diferenças culturais e sociais. Isso é uma realidade. Mas durou alguns meses, um ano e, em seguida, outros eventos fizeram com que eles não tivessem mais confiança. Foi efêmero”, analisa.

A equipe de 1998 ficou conhecida pela expressão “black-blanc-beur” (negra-branca-árabe, em tradução livre). O termo, que teve origem na periferia antes de ser importado ao futebol, qualifica a diversidade do time nacional, composto por franceses filhos de imigrantes. O representante “beur” era Zinedine Zidane, herói da decisão com dois gols marcados na vitória sobre o Brasil por 3 a 0 e integrante de uma família de argelinos. O grupo “black” era mais robusto: Lilian Thuram, Thierry Henry e Bernard Diomède (Antilhas), Christian Karembeu (Nova Caledônia), Patrick Vieira (Senegal), entre outros. Membros de famílias de operários e classes populares dos “blancs” completavam a tríade.

Essa diversidade expõe também uma sociedade heterogênea após diversas ondas de imigrações ao longo do século XX, sobretudo de africanos provenientes de ex-colônias francesas. Em 1998, a conquista inédita do Mundial deu aos europeus a esperança de que o futebol resolveria suas profundas fraturas sociais. No entanto, não foi o que aconteceu. Intolerância com imigrantes e marginalização de negros e árabes ainda é uma realidade na França.

“Há muita integração, mas há também discriminação, principalmente no esporte amador. Vemos, frequentemente, insultos raciais direcionados a jogadores negros nos campos de futebol de cidades pequenas. A conquista de 1998 deu a imagem da diversidade da França, mas, ao mesmo tempo, temos o que chamo de racismo ordinário, que persiste na sociedade”, diz Gasparini. E complementa: “Há poucos franceses oriundos de imigração na política, assim como há poucos chefes de empresas provenientes de imigração no mundo econômico.”

Para o sociólogo, as eleições presidenciais de 2002 são um exemplo da fragilidade desse momento histórico. Na ocasião, Jean-Marie Le Pen, candidato do partido de extrema-direita Frente Nacional (atualmente Encontro Nacional), disputou o segundo turno do pleito com Jacques Chirac. Onda conservadora que voltou à tona no ano passado, quando Marine Le Pen (FN) desafiou o presidente Emmanuel Macron (Em Marcha!) nas urnas.

“A gente celebra a equipe ‘multicultural’ e, ao mesmo tempo, os franceses votam e levam ao segundo turno um político que é contra a imigração. É um paradoxo”, ressalta Gasparini, enfatizando que o termo “multicultural” deve ser usado com ressalva pelo fato de ser um time de jogadores franceses ligados a diversas origens.

Dentro de campo, o amistoso entre França e Argélia, em 2001, reflete também esse conflito interno. Aos 12 minutos do segundo tempo da partida, o gramado do Stade de France foi invadido por torcedores, que gritavam “Argélia” e arremessavam garrafas. Sem conseguir retomar o controle da situação, o árbitro encerrou a partida. Era o primeiro jogo entre as duas nações desde que a Argélia obteve a sua independência, em 1962.

Os dois episódios evidenciam a união efêmera desse país marcado nos últimos anos por uma série de atentados reivindicados pelo Estado Islâmico, como as tragédias “Charlie Hebdo” et Bataclan, ambas em 2015. O retrospecto faz diversos especialistas classificarem a França “black-blanc-beur” de 1998 como um “mito”. Esse é o ponto de vista de Emmanuel Blanchard, pesquisador em ciências políticas, e igualmente do sociólogo Stéphane Beaud.

“A eclosão da nova ordem política (11 de setembro de 2001, Guerra no Iraque) somada a fraturas sociais internas da sociedade francesa e à fraqueza das políticas públicas durante sucessivos governos contribuíram para enterrar o mito da França “black-blanc-beur”. Em seu lugar surgiu, atualmente, um país profundamente dividido socialmente, o espectro de ‘duas nações em uma’, descrito por Disraeli para a Inglaterra do primeiro capitalismo”, analisa Beaud.

Já o sociólogo William Gasparini refuta o uso da palavra “mito”. “Eu não concordo totalmente com essa ideia porque ‘1998’ foi um momento importante para os franceses. Era uma realidade. O mito foi sobretudo pensar que uma vitória da equipe francesa ia resolver os problemas sociais. Resolver essa questão da integração passa pela escola e pelo emprego, não pelo esporte.”

Depois de 20 anos do principal título dos Bleus, a pluralidade volta a ser uma característica da equipe nacional. O time de 2018, comandado por Didier Deschamps, soma 14 jogadores de famílias de imigrantes africanos. Kylian Mbapée, por exemplo, é filho de pai camaronês e mãe argelina; já Paul Pogba tem origens na Guiné e N’Golo Kanté, em Mali. No entanto, “black-blanc-beur” é uma expressão que ficou no passado.

“Não usamos mais esse termo porque a equipe da Copa do Mundo é francesa. Alguns dirão que essa é, sobretudo, uma equipe ‘black’. Observamos que atualmente há um aumento de jogadores de origem africana em comparação ao time de 1998”, justifica Gasparini.

Apesar das diferenças, a história pode trilhar o mesmo rumo 20 anos depois. No domingo, às 12 horas (de Brasília), a França enfrenta a Croácia no estádio Lujniki, em Moscou, em busca do bicampeonato mundial e da consagração de uma nova equipe ‘multicultural’. Se o título se confirmar, a avenida Champs-Élysées voltará a ser invadida por uma multidão apaixonada. Negros, brancos e árabes estarão novamente unidos pelo futebol e quem sabe, dessa vez, de forma duradoura.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: YahooEsportes

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