Equipe luta contra a homofobia no futebol do Distrito Federal

Foto: divulgação Bravus

Justin Fashanu era um jogador dentro da média. Em 1978, iniciou sua carreira no futebol, defendendo as cores do Norwich City, da Inglaterra. Foi atleta dos Canários até o ano de 1981, disputando 90 partidas e marcando 35 gols. Os números não foram lá muito altos, mas também não eram de se jogar fora.

Seu desempenho no Norwich City lhe rendeu um recorde para a época: Fashanu foi o primeiro jogador negro da história do futebol inglês a ser negociado por mais de um milhão de libras, ao ser vendido para o Nottingham Forest. No Notts ele não correspondeu às expectativas e, tendo marcado apenas 3 gols em 32 partidas, sua carreira começou a entrar em declínio.

Depois de diversas passagens por clubes inexpressivos de países como Canadá, Austrália e Estados Unidos, Fashanu chegou à primeira grande polemica de sua carreira, em 1990, quando declarou em entrevista ao tabloide britânico The Sun sua homossexualidade, logo após ter sofrido chantagens por parte dos repórteres.

Após passar por várias equipes, sofrendo diversos tipos de discriminações de companheiros, imprensa, torcida, opinião pública e políticos, Fashanu se suicidou. Em março de 1998, um jovem de 17 anos o acusou de agressão sexual, quando o jogador já estava aposentado e residindo nos Estados Unidos. No dia 3 de maio, depois de ter regressado à Inglaterra, Justin Fashanu foi encontrado enforcado em Shoreditch, próximo a Londres.

O ex-jogador deixou para trás uma carta de suicídio, em que dizia: “Não quero mais ser uma vergonha para meus amigos e família (…) Espero que Jesus me dê boas vindas e que eu finalmente encontre paz”. Foi o melancólico fim do que poderia ter sido uma carreira brilhante.

Anos mais tarde, o preconceito contra homossexuais no futebol ainda é fortíssimo. Desde então, nenhum futebolista profissional se assumiu a homossexualidade como Fashanu fez. O que existem, são rumores sobre alguns jogadores, que mesmo sem ninguém saber ao certo sobre suas sexualidades, sofrem com a homofobia. Torcedores de determinados clubes são taxados de gays e, por isso, ridicularizados por torcedores rivais.

Em muitos estádios pelo mundo, cantos dos torcedores fazendo alusão a sexualidade de jogadores, árbitros e torcidas rivais são cantados à plenos pulmões, partida após partida. O futebol ainda é visto como um esporte único e exclusivamente para heterossexuais.

A resistência sobrevive

O Bravus é um clube de futebol de Brasília, formado por Rodrigo Antonello, que, além de fundador, também é atleta da equipe. O time é inteiramente formado por jogadores homossexuais e é o primeiro e único da capital federal integrado apenas por gays. Formada em 2017, a equipe treina todas às quintas-feiras e sábados, geralmente às 21h30, no Real Park Society, no Setor Hípico de Brasília.

A equipe foi criada em razão da exposição de outras equipes formadas por homossexuais pelo Brasil afora, graças à LGNF – Liga Gay Nacional de Futebol – ou LiGay Nacional de Futebol, onde equipes amadoras de futebol, formadas inteiramente por homossexuais, podem praticar o bom e velho esporte bretão entre si sem sofrerem qualquer tipo de preconceito ou discriminação.

A Liga organiza a Champions LiGay, uma competição que reúne equipes amadoras de gays de todo o Brasil. A competição já foi realizada por duas oportunidades e teve como último campeão o Bulls, do estado de São Paulo. Sediada em Porto Alegre, a última edição ocorreu nos dias 14 e 15 de abril, no complexo Soccer City, na capital gaúcha.

O Bravus terminou a competição em 4° lugar, perdendo apenas para os campeões do certame, nas semifinais. Na disputa pelo 3° lugar, os brasilienses empataram em 1 a 1 com os Sereyos/SC e perderam na disputa de pênaltis, pelo placar de 2 a 0. Esta foi a segunda participação do Bravus em duas edições da Champions LiGay e a equipe não pára por aí: em 2019, a edição será sediada em Brasília e, evidentemente, o Bravus estará novamente na busca pelo título inédito da competição.

Em conversa com a equipe do DF Sports, Rodrigo conta que os homossexuais também são capazes de praticar esportes. “Nós conseguimos demonstrar para a população heterossexual que somos normais e sabemos jogar futebol, inclusive incentivando as pessoas que têm problemas de aceitação, que nosso ambiente é acolhedor, e que aqui essa pessoa pode ser quem realmente é”, Explica Rodrigo.

Para ele, tal ambiente de acolhimento ajuda também na luta pessoal de cada jogador contra a homofobia. Rodrigo ainda diz que, para que a homofobia seja extinta no mundo do futebol, os patrocinadores devem estar presentes na luta com os jogadores. “As grandes marcas devem incentivar seus jogadores homossexuais a se assumirem publicamente, pois sabemos que essas grandes marcas são detentoras dos direitos de imagem de vários atletas, e se assumir gay pode gerar quebra de contrato hoje em dia. Quem quer se assumir gay e perder milhões? Acabar com a carreira no futebol? Com certeza ninguém!” Opina o fundador.

A equipe é de fato importante na vida de seus atletas. O meio campista Rafael Miranda, por exemplo, explica que conheceu o Bravus por acaso, mas que se apaixonou pela iniciativa à primeira vista. “Conheci a equipe por acaso. Vi uma publicação em uma rede social e acabei tendo curiosidade em ir jogar sem compromisso para ver como era. Fui aceito da melhor maneira possível por todos e, desde então, troquei os campeonatos tradicionais pelos gays”, conta o atleta.

Para Rafael, a iniciativa de formar uma equipe de homossexuais é importantíssima na luta contra a homofobia no esporte. Ele deseja que a iniciativa se expanda por todo o território brasileiro, para que um dia possam haver competições locais. Ele ainda explica a emoção de disputar a LiGay. “Disputei a minha primeira LiGay este ano e foi a sensação mais prazerosa e emocionante que já vivi jogando futebol. Tanto que, após o jogo contra o Magia/RS (vencido pelo Bravus por 1 à 0), time que jogava em casa, desabei em choro de tão emocionado e pela entrega de cada um em campo”, desabafou.

Ao observarmos o papel do Bravus como pioneiros em Brasília, a mente de um sensato amante do esporte é bombardeada, no bom sentido, por diversas informações. Como estamos acostumados em viver numa sociedade culturalmente homofóbica, à primeira vista pode no parecer estranho a ideia de ter uma equipe de futebol voltada para atletas LGBT. Entretanto, utilizando-se do bom senso, percebemos que a importância da equipe é maior do que podemos calcular.

Opinião do autor

Ainda estamos num processo lento e doloroso de transição, onde boa parte da população é conservadora demais para aceitar a inclusão de homossexuais no futebol. Pergunte ao mais ferrenho e preconceituoso torcedor de seu clube o que ele pensa a respeito da contratação de um jogador assumidamente gay. Ele não vai perguntar se o atleta em questão é de qualidade, quais os números recentes ou quantos gols em marcou na última temporada. Provavelmente, este estereótipo de torcedor irá apenas esbravejar com a decisão de seu time em contratar um jogar homossexual. Afinal de contas, para este torcedor, ser um indivíduo homem e gay ao mesmo tempo, é motivo de chacota e vergonha.

Pense você em Richarlyson, ex-jogador do São Paulo, por exemplo. O atleta, sofreu vários tipos de discriminações por conta de sua suposta homossexualidade. Ao ser contratado pelo Guarani Futebol Clube de Campinas-SP, alguns torcedores explodiram bombas nos arredores do estádio Brinco de Ouro, no momento de seu apresentação ao clube. Para que não hajam mais tristes histórias como a de Justin Fashanu no futebol e na sociedade como um todo, é necessário que haja uma reeducação como o objetivo da compreensão da palavra respeito.

Rodrigo Antonello, ao ser perguntado qual o sentimento de ter formado e fazer parte da única equipe homossexual de futebol de Brasília, disse, “o sentimento é de dever cumprido, de fazer a diferença para tantos gays e para as gerações futuras de homossexuais que estão por vir. Somos o pontapé inicial. Tenho certeza que nos próximos anos teremos uma infinidade de equipes gays”, finaliza.

O Bravus é o pontapé inicial em Brasília, assim como a LiGay e suas equipes são no Brasil. Ainda há preconceito, e ele é um adversário fortíssimo. Mas nessa partida entre homofobia e respeito, a cada dia que se passa, as cores “respeitenses” se fazem mais fortes e vivas no Brasil e no mundo. Podemos ver que a equipe da homofobia lentamente se enfraquece e perde seu volume inicial de jogo.

A passos lentos, naturalmente o respeito vencerá e, um dia, poderemos viver numa sociedade em que o próximo Justin Fashanu possa desfrutar de sua carreira no futebol sem se sentir culpado por ser apenas uma pessoa normal. E no futebol, agradeceremos no futuro, à iniciativa como a da equipe Bravus, que, fazendo jus ao próprio nome, bravamente resiste diariamente ao preconceito no esporte.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: DF Sports

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