Salvador Rodríguez Moya, também conhecido simplesmente como Salva Moya. Espanhol, Doutor em Humanidades pela Universidade de Alméria, jornalista, correspondente dos jornais Marca e Mundo Deportivo, apresentador e produtor no Canal Sur da Andalucía e com passagem pela RTVA, é também escritor e defensor no combate ao racismo. Salva já escreveu dois livros na Espanha, Tarjeta Negra al Racismo e Mordisco al Racismo (ambos sem tradução para o português). O segundo foi escrito relacionado com o gesto do brasileiro Daniel Alves ao comer uma banana atirada por um torcedor, em uma partida pelo Campeonato Espanhol em 2014.

Salva Moya concedeu uma entrevista ao Observatório e falou sobre como o racismo é visto na Espanha, como são os trabalhos realizados e da luta para combater o preconceito. Confira abaixo:

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Salva Moya no lançamento do seu livro em Barcelona (Foto: arquivo pessoal)

OBSERVATÓRIO – Como surgiu a ideia de escrever os livros e quais as diferenças entre eles?
SALVA MOYA – Há 12 anos estudo os casos de racismo no futebol. Tarjeta Negra al Racismo, o primeiro livro, surgiu da minha tese de doutorado, visto que na Espanha nunca ninguém havia estudado sobre o racismo neste nível. É um relato da maioria dos gestos racistas encontrados no futebol espanhol e internacional, países como Brasil, Uruguai, Peru, Inglaterra e França, também são relatados.

Mordisco al Racismo é uma reconstrução da história através do ato de Daniel Alves ao comer uma banana jogada por torcedores do Villarreal em uma partida contra o Barcelona, realizada em abril de 2014, pelo Campeonato Espanhol. O livro ainda conta com a opinião do próprio Daniel Alves, o árbitro, o infrator (torcedor que atirou a banana), psicólogos e jornalistas.

Sendo assim, podemos dizer que Tarjeta Negra al Racismo, consiste em uma coleção de gestos racistas no futebol, já Mordisco al Racismo é o oposto, pois o livro é desenvolvido em cima de um único gesto.

OBSERVATÓRIO – Como se percebe o racismo na Espanha, há algum lugar mais preconceituoso que outro?
SALVA MOYA – Não existe um racismo mais concentrado em uma região do país, o racismo no futebol é a própria tendência da sociedade europeia, não há mais racismo no futebol do que estamos vivendo fora do esporte, é um reflexo. São gestos isolados, se somar todas as categorias de base do futebol (infantis, juvenis, etc) o percentual de gestos racistas são muito pequenos, porém isso não significa que por serem pequenos não devemos dar a devida importância. Não podemos fechar os olhos diante disso e dizer que não acontece nada. Entretanto existem alguns países europeus, caso da Rússia e da Ucrânia, no Leste Europeu, o qual o racismo é muito mais forte. Um exemplo é o Zenit, de São Petersburgo, que durante anos não aceitava jogadores negros, isso não acontece na Espanha, no Brasil, na Alemanha ou na França.

Outra diferença é o futebol europeu e o futebol Sulamericano. Na Espanha existem sistemas de monitoramento para cuidar dos casos de racismo, xenofobia e violência, a TV ajuda a detectar os infratores. Já na América Latina, há menos punições, a polícia é menos forte e, em muitos casos, eles têm medo dos barras bravas (torcidas organizadas). Algumas ações dos barras bravas, na América do Sul, intimidam até mesmo a policia, o judiciário e as federações.

OBSERVATÓRIO – Existe no regulamento da Liga Espanhola algum artigo que trata a questão do racismo? Como trabalha a Liga Espanhola no combate ao Racismo?
SALVA MOYA – Na Espanha existe a Lei 19/2007 que é contra a violência, o racismo, a xenofobia e intolerância no esporte. Antes disso não existia nenhuma lei para punir os gestos racistas.

A Lei surgiu, pois até 2006 havia cânticos racistas em quase todos os estádios espanhóis, até que um dia, em uma partida entre Barcelona e Zaragoza gritos racistas foram proferidos ao camaronês, Samuel Eto’o, que manifestou o desejo de deixar o gramado. A partir deste fato foi criado um Observatório para monitorar os casos de racismo. O Observatório foi composto por clubes, sindicato dos jogadores, Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), Conselho Superior do Esporte, organização de torcidas, ONG’s contra a intolerância, entre outros. Com a criação da Lei 19/2007 é possível punir qualquer gesto racista no estádio e ao redor dele.

[Samuel Eto’o não sofreu racismo apenas nesta partida em 2006, ocorreram outros episódios ao longo da sua carreira como em 2004 e  2010. Atualmente o camaronês luta por medidas mais rígidas no combate ao racismo e fala das suas experiências vividas em campo em relação aos atos discriminatórios.]

OBSERVATÓRIO – Com a Lei os casos de racismos foram reduzidos?
SALVA MOYA – Não se conhece na Espanha o real número de casos de racismo que acontecem no futebol europeu, pois apenas os que são divulgados pela imprensa ganham repercussão, mas existem diversos casos que acontecem, principalmente, nas categorias de base que não são noticiados. A Lei é muito boa, mas não é aplicada adequadamente, não se aplica com contundência, não se aplica a lei no futebol de base ou não profissional. No futebol profissional, segundo meus dados, há uma queda nos episódios racistas desde a criação da Lei. Entretanto, nas categorias de base ou no futebol de várzea, é outra história.

OBSERVATÓRIO – Existe algum trabalho ou organização que trabalha a questão do racismo no futebol espanhol?
SALVA MOYA – Em 2006 teve início a criação do Observatório com representante de diversos órgãos e entidades do futebol espanhol. Após o fim do trabalho do Observatório as ações passaram a ser individuais de cada clube, campanhas e ações contra o racismo para seus torcedores.

OBSERVATÓRIO – O que você acha da ação da FIFA em parceria com a FARE para monitorar os casos de racismo durante as eliminatórias para a Copa de 2018?
SALVA MOYA – Acho uma boa ação, esse trabalho de monitoramento já foi feito na Euro, porém é preciso uma maior preocupação com os jogos de menor repercussão, principalmente os que envolvem as categorias de base, não profissionais, pois nestes jogos os atos de racismo não são registrados e acabam por não existir punição, nem para os clubes e nem para os atletas ou infratores. Nos grandes jogos os casos de racismo pouco acontecem, pois o infrator sabe que vai ser identificado e punido.

OBSERVATÓRIO – Existe algum tipo de trabalho educacional contra o racismo com as torcidas espanholas?
O Observatório criado em 2007 representou também todos os torcedores. A grande maioria dos torcedores não são racistas, realizam ações comigo, mas são gestos individuais no combate do racismo. Exemplo, os torcedores do Rayo Vallecano já levaram cartazes para os jogos contra o racismo, torcedores do Cadiz (segunda divisão) elaboraram um livro contra a violência nos estádios.

OBSERVATÓRIO – O que você achou do gesto do Daniel Alves?
SALVA MOYA – Conversando com Dani ele afirmou que seu gesto foi espontâneo, diferente do que se noticiou no Brasil (que foi um gesto planejado por uma agência de publicidade). Afinal, não existia a combinação com um torcedor para que jogasse no campo uma banana. Existe a intenção de muitas pessoas em desmerecer os bons gestos, por isso acabou se colocando esse ponto de interrogação no gesto de Daniel Alves.

Fico sempre na dúvida tentando entender por que as pessoas tentam desmerecer um grande gesto e espontâneo, um gesto contra o racismo. Dani jamais poderia imaginar que uma banana fosse cair em seus pés, seu gesto foi totalmente espontâneo e merece ser reconhecido. Uma imagem vale mais que mil palavras. No meu livro ele informa que sabia da existência de uma campanha preparada para o Neymar, mas que desconhecia as ações, que seu gesto de comer a banana nada teve a ver com isso.

O que poucos sabem é que Dani Alves sofre racismo todos os dias, não apenas naquele jogo e que além dele, muitos outros sofrem em silêncio, pois não há denúncia, não há televisão. Não conhecemos os que ficam calados, não conhecemos muitos casos porque não há denúncia por medo, principalmente no futebol não profissional.

OBSERVATÓRIO – Jogadores espanhóis são unidos para tratar do racismo?
SALVA MOYA – Não ocorre união, são gestos individuais. Às vezes participam de campanhas contra o racismo, mas de forma pessoal, não coordenado. São mais gestos particulares, individuais. Faz falta um mecanismo ou uma associação que comporte como coletivo. Por exemplo, se fosse eu, um treinador ou jogador de cada equipe da primeira divisão espanhola, me solidarizaria com Alves, mas isso sou eu, minha opinião.

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