Diego Moraes (foto reprodução)

Diego Moraes (foto reprodução)

Conhecemos pessoalmente Diego Moraes, repórter do esporte da Globo Rio, no dia do Lançamento do Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol 2015 em São Januário, sede do Club de Regatas Vasco da Gama.

Acreditamos que os incidentes racistas que estão analisados em nosso Relatório sejam a ponta do iceberg da questão racial no esporte brasileiro. Afinal, no esporte a presença de negros em cargo de comando ou na televisão como jornalistas é escassa e faz parte do racismo institucional. E por esse motivo resolvemos conversar com Diego para saber dele, que está dentro da estrutura gigantesca que envolve o futebol, como ele vê a questão racial no esporte e fora dele.

[Observatório] Quem é o Diego? Se apresente para nós.

[Diego] Sou Diego Moraes. Tenho 28 anos. Nascido em Itaperuna, interior do Rio de Janeiro. Fui criado em Macaé, também uma cidade do Rio. Sou o único repórter negro do esporte da Globo do Rio. Mas tem outros repórteres negros que trabalham com esporte: o Abel Neto de São Paulo e o Lucas de Senna, de Cuiabá. São os que também fazem matérias em jornais de Rede.

Sempre estudei em escola particular, mas como bolsista. Minha mãe era professora da escola que eu estudei em Macaé e me formei na Puc-Rio, também fui bolsista. Não corro de desafios. Se me entregam uma tarefa, eu vou fazer de tudo pra resolver por mais difícil que ela seja. Se erro, admito o erro. Se acerto, quero ser valorizado por isso. Luto por uma vida confortável pra mim e pra minha família. No trabalho, luto pra um dia ver a mesma quantidade de negros e brancos nas redações. Luto pra que um dia a capacidade não seja medida pelo tom da pele…Que o racismo seja um assunto do passado.

[Observatório] Qual o seu ponto de vista em relação ao racismo no futebol brasileiro?

[Diego] Racismo no futebol e no esporte nunca pode ser coisa boa. Existe e fica evidente em relação aos goleiros. Como em 1950, Barbosa foi visto como o protagonista da derrota brasileira, a partir daquele momento, quantos goleiros negros chegaram à Seleção Brasileira e foram titulares em uma Copa no Mundo? De cabeça, agora, só consigo lembrar do Dida. Já ouvi muito a frase: “goleiro preto não serve, não presta, atacante sim, mas goleiro preto não vai longe”. Ouvi essa frase de jornalistas esportivos. Se dentro do jornalismo, que cobre esporte tem, imagina nos estádios, torcedor falando com emoção muitas vezes solta o que realmente pensa….O racismo existe e para minimizar, tem que haver punição.

[Observatório] Na sua opinião os casos aumentaram ou o aumento foram nas denúncias?

[Diego] Pra mim, o aumento foi das denúncias. Muitos negros estão tomando coragem pra denunciar. Mas também tem que ter cuidado com extremismos. Se uma pessoas te chama de negão, isso não é racismo. Depende do tom de voz, de como a pessoa falou. Muita gente me chama de negão de forma carinhosa e eu gosto. Sou mesmo.

[Observatório] A não presença de treinadores negros nos grandes clubes brasileiros faz parte do racismo brasileiro?

[Diego] Existe a desconfiança ao negro sempre que ele ocupa um cargo de liderança ou importante.
Eu diria que tem poucos treinadores negros por parte do racismo e também por causa dos próprios negros, que quando recebem a oportunidade não se impõem.
Andrade, campeão brasileiro pelo Flamengo, por exemplo. Ficou com uma imagem de coitadinho depois. Coitadinho não deve ser opção para um negro. Não no país que vivemos. Todo mundo tem problemas, é demitido de um trabalho, nem sempre é por causa do tom da sua pele. Colocar sempre a culpa na cor é fácil e ao mesmo tempo prejudica os negros que querem ser treinadores.

Já no caso do Cristóvão Borges, eu encaro um pouco como racismo. Ele já treinou o Flamengo, Vasco, Fluminense, Corinthians, Bahia,…Vários times grandes e não conseguiu sucesso. infelizmente, muita gente atrela isso ao fato dele ser negro…Como consequência, quando algum desses vão contratar um negro pra ser técnico. Pode ser amanhã ou daqui a anos, mas sempre vai ter um que vai falar: “pode contratar, mas preto no poder, não faz muita coisa. Eles são melhores sendo comandados”.

[Observatório] E a não presença de jornalistas negros também é parte do racismo brasileiro?

[Diego] Faz parte da nossa história. Negros fazem parte de 70% da população pobre do país. Quantos conseguem estudar? Quantos conseguem estudar e conviver num ambiente completamente diferente do deles? Quantos conseguem ser raridade em grandes empresas no cargo, que exige diploma? São poucos em várias profissões, inclusive no jornalismo. Então, pra completar a resposta, é primeiro culpa da história brasileira, depois do racismo e por último, da vontade do negro de querer ser alguém na vida, ser um cara fora da curva.

[Observatório] Como você se vê entre os poucos jornalistas negros na televisão brasileira?

[Diego] Solitário, muitas vezes, mas ao mesmo tempo com a responsabilidade de representar a raça negra. Se eu faço um bom trabalho, não vão duvidar do próximo pretinho que estiver no processo de estágio da empresa. Agora, se eu faço um trabalho ruim…Vão pensar duas vezes se vale a pena contratar mais um escurinho.

[Observatório] Qual o papel da imprensa no combate ao racismo?

[Diego] Falar do racismo todas vez que acontecer. Racismo é crime e relatar é notícia.

[Observatório] Você já sofreu racismo?

[Diego] Sofro ao bater no peito em ambiente considerados de ‘branco’, que sou negão e gosto de incomodar. Já ouvi de delegado de jogo de futebol o que “esse neguinho tá fazendo no campo de colete de repórter”?Assim que comecei na reportagem, eu nunca era o repórter da equipe por mais social ou bem arrumado que eu estivesse.

[Observatório] O que pensa do trabalho do Observatório Racial da Discriminação Racial no Futebol?

[Diego] Valorizo bastante o trabalho do Observatório. Acho necessário estarmos de olho no que acontece no principal esporte do país. Isso reflete muito na rotina da sociedade, que convivemos. Minha monografia da faculdade foi sobre como a mídia aborda o racismo no futebol. Cheguei à conclusão na época, em 2010, que era muito ruim. Hoje, ainda é um pouco, mas já se fala de racismo. Acredito que quanto mais trabalhos como esse do Observatório, maior vai ser a exposição do racismo e com isso, aumenta a quantidade de pessoas punidas.