O Observatório entrevistou o Professor José Antônio pesquisador da história e da cultura negra no Brasil e que tem o objetivo é escrever um livro sobre Liga Nacional de Football Porto Alegrense, que ficou conhecida como Liga da Canela Preta ou dos Canelas Pretas.

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Entrevista com José Antônio

– Quem é José Antônio?

José Antônio dos Santos, Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2011), Mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (2001), Licenciado e Bacharel em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1997). Professor e pesquisador da história e da cultura negra no Brasil Republicano e da diáspora africana. Atua, principalmente, nos temas relativos ao ensino de história do negro no Rio Grande do Sul, imprensa negra, organizações sociais, intelectuais, e políticas de ações afirmativas. Tem trabalhado com a formação continuada de professores e com projetos e programas de extensão voltados aos estudantes, além de colaborar para o desenvolvimento de materiais didático-pedagógicos para implementação das Leis 10.639/03 e 11.645/08 no Ensino Básico. São exemplos, a participação nos Projetos Uma viagem pela África com Ibn Battuta no século XIV, contemplado pelo Programa UNIAFRO/2008, e RS Negro: Educando para a diversidade (2010), e a organização dos livros RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento (edições de 2008 e 2010).

– O que foi a Liga dos Canelas Pretas?

A Liga Nacional de Football Porto Alegrense, que ficou conhecida como Liga da Canela Preta ou dos Canelas Pretas, foi fundada em Porto Alegre no final dos anos de 1910, para congregar times de futebol formados, na sua maioria, por jogadores negros.

– Qual a origem da liga? E o objetivo?

O futebol em Porto Alegre iniciou em 1903, na oportunidade, o S.C. Rio Grande veio à capital para jogar contra um selecionado local. Como aconteceu em todo o país, o “esporte bretão” foi trazido por imigrantes e era praticado, inicialmente, pela elite econômica do Estado. Em Porto Alegre não foi diferente, as agremiações eram formadas por jogadores de origem europeia e com alto poder aquisitivo. Mas, como o esporte tinha regras simples e precisava de poucos apetrechos para a sua prática, rapidamente chamou a atenção das classes mais empobrecidas e passou a ser praticado por elas. A população da periferia da capital, formada por operários, funcionários públicos de baixo escalão, subempregados, imigrantes e negros pobres, obviamente, também passaram a organizar os seus times e associações de futebol.

– Quem participava da Liga?

A Liga era formada por times altamente organizados com diretorias, conselho consultivos, técnicos e grande número de torcedores que pagavam mensalidades e ingressos nos melhores jogos.

– Existia apenas essa liga no RS?

Nas décadas de 1910 e 1920, também existiram ligas de futebol para congregar os times de maioria negra também nas cidades de Rio Grande e Pelotas, respectivamente, as ligas Rio Branco e José do Patrocínio.

– Qual a situação social dos negros na época? E dos integrantes da Liga?

A situação socioeconômica da maioria da população negra no Estado era precária. Em Porto Alegre, recém saídos da escravidão, os negros ocupavam os espaços da cidade em piores condições de moradia, como a Colônia Africana e o Areal da Baronesa. Trabalhavam nos empregos que exigiam maior força bruta como vendedores, entregadores, artesãos, mas também em algumas atividades especializadas como costureiros, sapateiros, barbeiros, tipógrafos, e em alguns casos, como funcionários públicos de baixo escalão.

– O que te levou a pesquisar sobre a Liga?

A imprensa negra, formada de jornais escritos por negros para um público leitor de negros, que foi a principal fonte de pesquisa do meu mestrado e doutorado, seguidamente trazia notícias sobre os jogos de futebol no meio negro, o que me despertou para essa organização social e política. Não devemos esquecer que o futebol servia para demonstrar a capacidade organizativa, integração social e até de ascensão social dos negros, que deveriam seguir os princípios legais e de moralidade impostos naquela sociedade hegemonicamente branca.

– Tua pesquisa está disponível para quem se interessa pelo assunto?

Atualmente estamos pesquisando, o objetivo é escrever um livro sobre a Liga da Canela Preta que deve estar nas livrarias até o final desse ano.

por Marcelo Medeiros Carvalho