Emily Lima: ‘Falta muito para transformar o Brasil em potência feminina no futebol’

LUCAS FIGUEIREDO/DIVULGAÇÃO/CBF

O desafio é árduo, diário, exaustivo e, muitas vezes, frustrante. Em um esporte praticado majoritariamente por homens e, por conta disso, envolvido em um universo exageradamente machista, mulheres que se arriscam a tentar a sorte no futebol enfrentam dificuldades. Uma delas, no entanto, marcou seu nome na História: Emily Lima.

A ex-técnica da seleção brasileira feminina de futebol, primeira mulher da História a ocupar tal cargo, sentiu na pele o preço da paixão pelo esporte. Literalmente, como revelou em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil.

“Já tirei muito dinheiro do bolso para ajudar a modalidade e as atletas. Isso é amar. Amar não é ocupar um cargo e dizer que ama, mas nunca ter passado por dificuldades”, conta.

Demitida pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) após apenas 9 meses de trabalho à frente da equipe nacional, Emily viu de perto, muito perto, o quão precária é a estrutura da modalidade no País e o tamanho do abismo que separa o mesmo esporte do praticado pelos homens.

“Ainda é preciso muita coisa para transformar o Brasil em potência feminina no futebol. Aqui o pensamento é o oposto do que acontece na Europa. Lá eles veem os times femininos como investimento, não como um gasto. Aqui a CBF organiza o campeonato, mas não investe, pois diz que não dá renda e retorno. Investimento eles fazem no masculino. E a gente ainda tem que ouvir isso. É duro, mas é real. Enquanto não mudarem essa chavinha, a história será sempre a mesma.”

Emily tentou esconder a mágoa pela forma como saiu da CBF e omitiu o nome do desafeto que, para ela, causou sua queda. A ex-treinadora do Brasil revelou, no entanto, que não foi pega de surpresa com o anúncio de sua demissão.

“Estava mais ou menos esperando. Acho que minha demissão já estava marcada por conta de uns problemas que tivemos lá dentro. Já senti que a gente [comissão] não chegaria até o Sul-Americano, pois algumas ideias eram muito diferentes do que acreditamos que seja bom para o futebol feminino. Certas pessoas estão chegando hoje e acham que é igual ao [futebol] masculino. Mas não é assim”.

Ela foi dispensada logo após duas derrotas em amistosos contra a Austrália na casa deles.

Substituída por Vadão, que curiosamente também foi seu antecessor (e chegou a transformar a seleção em queridinha nacional durante a caminhada ao 4º lugar nos Jogos Olímpicos de 2016), Emily Lima preferiu não reforçar as críticas que fez à época do anúncio do retorno do treinador pela CBF.

A treinadora garantiu que estará na torcida pelas meninas que estarão em ação na Copa América no Chile, entre os dias 4 e 22 de abril. O torneio poderá garantir uma vaga ao Brasil na próxima Copa do Mundo e também nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

“Eu, como cidadã brasileira, tenho obrigação de torcer pela seleção. É meu mercado de trabalho, independentemente de quem está lá. Quanto melhor for a seleção, melhor para nós. Vou torcer para um bom trabalho na Copa América e para que venha a classificação para o Mundial e para a Olímpíada.”

Emily considera, no entanto, que a preparação da seleção não está no nível ideal para encarar de igual para igual potências estrangeiras, como Estados Unidos, Austrália, Alemanha e demais ponteiras do ranking mundial da Fifa.

“Estamos assistindo a elas jogarem. Estamos em março só vendo as grandes seleções em competição. Vai da escolha de cada um, mas falta bastante investimento no país para ver a modalidade crescer.”

O alento, segundo Emily, vem do apoio de algumas federações, em especial a Paulista. “Algumas federações estão dando um passo à frente, criando campeonatos sub-20, sub-17. A obrigatoriedade imposta pela Fifa, Conmebol e CBF de os clubes terem times femininos é um passinho pequeno, mas já ajuda”, explica. Segundo nova determinação, quem não tiver times femininos de futebol não poderá disputar a Libertadores com as equipes masculinas, a partir de 2019.

          O futuro de Emily Lima

Emily Lima não ficou desempregada por muito tempo, pois, pouco depois de sair da seleção, acertou contrato com o Santos. No comando de um dos times que mais investem em times femininos de futebol no Brasil, Emily espera conquistar títulos e, se possível, ajudar a renovar o elenco da seleção brasileira para futuras competições.

“Temos Paulista, Brasileiro e Libertadores pela frente. Claro que é difícil ganhar tudo, mas o planejamento foi feito para chegar a todas as finais. Temos atletas com condições de chegar à seleção, mas isso vai depender muito do treinador e do que ele conhece do elenco do Santos. Buscamos referências físicas na Europa para que elas, se chegarem à seleção, não tenham problemas para estar na forma ideal.”

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: HuffPost

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