Elas só querem trabalhar em paz nos estádios

Uma das idealizadoras do movimento, a repórter Bruna Dealtry, conta sobre o começo do “Deixa ela trabalhar” e lembra casos de assédio

Foto: Arquivo Pessoal

Mês passado, pouco depois do dia internacional da mulher, um grupo de jornalistas esportivas lançou uma campanha contra o assédio e machismo na profissão. Intitulado “Deixa ela trabalhar”, o movimento ganhou repercussão mundial ao divulgar um vídeo com jornalistas dos mais diversos veículos exigindo respeito.

A ideia começou quando a repórter Bruna Dealtry, do Esporte Interativo, foi beijada na boca por um torcedor do Vasco quando ela fazia uma entrada ao vivo em frente ao estádio de São Januário antes de um jogo da equipe carioca pela Copa Libertadores.

“No momento, você nunca espera que isso vá acontecer. Tentei encarar da forma mais natural possível porque eu conseguia continuar fazendo meu trabalho. Assim que eu saí do ar eu me senti muito humilhada, impotente, fragilizada. Eu olhava em volta, não tinha a mínima proteção, via pessoas rindo, uma criança rindo e todo mundo achando aquilo o máximo. Meu ambiente de trabalho, eu lutei tanto para estar ali que eu senti muita necessidade de falar sobre o assunto. Enquanto eu estava no estádio, eue escrevi o texto que eu coloquei nas minhas redes sociais”, disse a jornalista.

O vídeo com o momento do beijo e o texto postado na página de Bruna já somam mais de 1,6 milhão de visualizações e 10 mil compartilhamentos. Além disso, a jornalista sentiu que precisava fazer algo a mais. Foi então que veio a ideia do “Deixa ela trabalhar”, convidando profissionais de vários veículos de comunicação para gravar o primeiro vídeo da ação.

Apaixonada por futebol desde a infância, a repórter lembra que os casos de assédio vêm desde cedo e relata sua luta para poder entrar no mundo do futebol. “A mulher sofre preconceito desde cedo. Lembro várias vezes no Maracanã, vibrando, e sentia uma mão na minha bunda. Parece que a mulher quando está ali ainda não é bem-vinda. Lembro do meu começo, que existia uma resistência, uma desconfiança: ‘Será que ela vai saber falar sobre futebol?’. Parece que a gente tem que fazer muito mais força para provar nosso valor”, conta Bruna.

O caso fez a repórter se aproximar do feminismo. Mesmo diante de situações como essa, ela vê o futuro com otimismo. “As mulheres antigamente não podiam votar, eram impedidas de entrar em vários lugares. Hoje em dia já estão trabalhando cada vez mais no jornalismo esportivo. Se a gente já chegou até aqui, acredito que a gente possa ir muito mais longe. Acho que esse movimento foi um marco no jornalismo esportivo. Acredito que o futuro vai ser muito melhor para uma nova geração e até para a gente”, conclui.

Confira o vídeo da entrevista:

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Destak Jornal

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