Da seleção italiana ao recomeço: brasileiro fala de racismo, lesões e volta ao Brasil

Fabiano Santacroce (foto reprodução)

Fabiano Santacroce (foto reprodução)

Todo mundo achava, quando ele surgiu, que fosse dar certo e que seria zagueiro da seleção italiana por anos, sobretudo, no Napoli, que pagou um bom valor por ele”. A afirmação do jornalista italiano Dani Monti resume bem parte do sentimento da imprensa do país sobre a história do zagueiro Fabiano Santacroce, um baiano de Camaçari que deixou o Brasil ainda criança e chegou à seleção principal da Itália com apenas 21 anos de idade, em 2008. Personagem anônimo no Brasil, Santacroce despontou cedo, foi alvo de comparações – até com Alessandro Nesta -, se transferiu ao Napoli e chegou a receber elogios de Fábio Cannavaro antes de cair no esquecimento.

Mas o defensor, que encheu os olhos do ex-técnico da Azzurra, Marcello Lippi, sofreu com seguidas graves lesões no joelho e, após rodar pelo Parma e disputar a Terceira Divisão da Itália pelo modesto Juve Stabia na última temporada, procura, agora, um clube. E um recomeço.

– Eu já estou recuperado. Agora, eu não tenho mais problemas. Mas, por dois anos, eu não pude jogar com força total. Minha esposa teve uma gravidez difícil. E, para estar perto dela e da minha filha, eu decidi ficar e jogar perto de casa. Mas, agora, eu quero recomeçar e jogar em um nível elevado – diz Santacroce, que não fala português e mora atualmente em Nápoles, que fica ao Sul da Itália.

          A carreira

Filho de mãe brasileira e pai italiano, Fabiano Santacroce chegou à Itália com a família aos quatro anos para morar em Casatenovo, na região da Lombardia. Viu brotar cedo a paixão pelo futebol e dispensou as aventuras como judoca e nadador. Na base, atuou pelo Como, onde se profissionalizou. De lá, rumou ao Brescia para, de fato, começar a se destacar e a ser convocado para as categorias de base da seleção italiana. Rapidamente, chamou a atenção, ao lado do eslovaco Marek Hamsik, e acabou se transferindo para o Napoli no início de 2008 por cerca de ‎€ 6 milhões – atualmente 22 milhões de reais.

“Quando o Santacroce surgiu no Brescia, ele surgiu muito bem, porque exercia duas funções. Ele fazia o papel de central e pela lateral. Era um jogador com muita força, tinha bastante qualidade. O Napoli, na época, até o contratou por um valor alto. Ele ainda era novo. Na primeira temporada, foi mais ou menos. Na segunda, já foi titular. Mas o Napoli não era o que é hoje, ainda estava montando. Depois, começaram as lesões que ele teve. Mas, no começo, todos achavam que fosse jogador da seleção italiana durante muito tempo”, relata o jornalista italiano Dani Monti.

Fabiano Santacroce em ação pelo Parma contra a Juventus, na época com Fabio Quagliarella (Foto: Getty Images)

Fabiano Santacroce em ação pelo Parma contra a Juventus, na época com Fabio Quagliarella (Foto: Getty Images)

Santacroce não demorou para assumir a titularidade no Napoli. Em 2008, Pasquale Bruno, ex-jogador ídolo da Juventus, afirmou que o brasileiro estava, naquele momento, no mesmo nível de Nesta, Maldini e Cannavaro – todos em atividade na época. No mesmo ano, recebeu sondagens de outros clubes da Itália e da Espanha e acabou convocado por Marcello Lippi para dois jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010 – contra Bulgária e Montenegro. Não chegou a entrar em campo, mas, ao menos, conviveu com Buffon, Gattuso e Fabio Cannavaro, de quem recebeu o maior elogio da carreira.

– Depois do jogo de qualificatória, eu queria levar um saco de bolas no treinamento para o Fabio Cannavaro, e ele me disse: “Deixe ai, que daqui a pouco sou eu é quem vou trazê-lo para você”. Foi o melhor elogio que já recebi até hoje – conta.

          Racismo durante infância na Itália

Santacroce acumula passagens por Napoli, Parma e pela seleção italiana (Foto: Divulgação/Arte GloboEsporte.com)

Santacroce acumula passagens por Napoli, Parma e pela seleção italiana (Foto: Divulgação/Arte GloboEsporte.com)

Após chamar Fabiano Santacroce para a seleção italiana em 2008, Marcelo Lippi concedeu uma entrevista na época e afirmou que a convocação de um jogador negro poderia, de alguma maneira, ser uma resposta contra o racismo no futebol. E, pouco tempo depois, o próprio zagueiro se manifestou sobre o assunto afirmando ter sido vítima durante a infância na Itália. Ao GloboEsporte.com, o defensor relatou o episódio.

– Eu tive alguns problemas quando eu era um menino, por causa da estupidez de algumas pessoas. Mas isso me fez ficar mais forte dentro de mim. Ainda me lembro dos primeiros insultos racistas em um jogo quando eu era pequeno. Eu era insultado pelos pais dos jogadores das outras equipes. Ficava muito irritado. Mas depois eu percebi que isso é apenas por estupidez e ignorância que eles dizem certas coisas – conta.

          Retorno ao Brasil?

Depois de deixar o Napoli em 2011, Santacroce defendeu o Parma. Lá, conviveu com os salários atrasados em um clube à beira de uma turbulência – o que de fato aconteceu. Livre no mercado após passagem por Ternana e Juve Stabia e com as lesões deixadas para trás, Fabiano Santacroce projeta, agora, uma primeira experiência fora da Itália. Sonha, quem sabe, até mesmo em uma volta ao país natal para dar continuidade à carreira

– Eu quero ir ao Brasil para introduzir as minhas filhas à minha terra. E, se eu encontrar equipe no Brasil, será ainda melhor. Seria definitivamente uma grande experiência para mim e para a minha família. Pelo menos eles seriam acostumados a ver um mulato (risos). Eu quero trabalhar fora da Itália. Eu tenho parentes residentes em Goiânia. Acho que eu vou em um ano. Quero que a minha filha veja onde o seu pai nasceu – encerra.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 2014 e 2015, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: GloboEsporte

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