Copa escancarou assédios e guerra na Rússia por liberdade sexual da mulher

Mulher tira foto em frente a painel de mascote da Copa (Imagem: AFP PHOTO / Jonathan NACKSTRAND)

A Copa do Mundo da Rússia foi a Copa das mulheres. Mas, ao mesmo momento em que elas tiveram em várias áreas do evento, o torneio também escancarou a dificuldade que elas enfrentam em um ambiente tão masculino quanto o futebol e em uma sociedade tão patriarcal quanto a Rússia. Se a primeira fase do Mundial ficou marcada pelos casos de assédio, a segunda metade do torneio teve como protagonismo uma guerra pela liberdade sexual da mulher.

As discussões sobre o comportamento sexual das russas em relação a estrangeiros dominaram rodas de conversas, o VK (o Facebook do país) e até os jornais mais populares. Mulheres passaram a ser perseguidas por se envolverem com torcedores estrangeiros e julgadas por exercer seu direito de ter vários parceiros (e deixar russos para escanteio).

De fato, as mulheres se permitiram viver mais livremente. Na cena noturna de Moscou, tornou-se comum vê-las aos beijos com estrangeiros – especialmente latinos. O aplicativo de relacionamentos Tinder registrou picos de utilização em dias de jogos do Mundial, principalmente quando a ação era em Moscou ou São Petersburgo. De acordo com o jornal Vedomosti, a operadora MTS registrou um tráfego de dados 11 vezes maior na capital em dias de jogos. Alguns grupos feministas acreditam que o ambiente do Mundial e a chegada de turistas propiciou isto.

A sociedade russa, no entanto, não está preparada para isso. Mikhail Antonov, usuário do VK, fala abertamente que não aceita este tipo de atitude. “O comportamento das russas tem que seguir os valores da moral e da cultura. Graças a Deus, nosso país ainda tem mulheres que são o exemplo para todos. A mulher pode escolher o parceiro que quiser para encontrar o amor de sua vida. Mas eu me preocupo com a frequência de troca de parceiros. Eu não gostaria que a minha esposa fosse desse jeito”, afirmou ao UOL Esporte.

Os homens do país chegam a atacar as mulheres. “Esse direito (de liberdade sexual) é exercido com os estrangeiros. Com os homens russos, todas as mulheres querem parecer inocentes, querem ser princesas virgens. As mulheres russas são mentirosas e sempre querem provar que não são assim”, disse Vitaly Lopatkin, outro usuário do VK.

“Para nós, este comportamento não é surpreendente. Eu, pessoalmente, me preocupo em como o comportamento das mulheres fica solto em relação aos homens estrangeiros. Não pedem nada deles.  Com os homens russos, se comportam de uma maneira absolutamente diferente. Representam estresse, rigidez, não tomam de iniciativa, fazem muitas reclamações e julgamentos. Quando a mulher fala com o estrangeiro, não precisa se esforçar tanto”, completou Lopatkin.

A necessidade de controle chegou ao ponto de integrantes do governo se manifestarem contra as mulheres. A presidente da Comissão da Família da Duma, Tamara Pletnoia, falou em plenário que as jovens russas não deveriam se relacionar com estrangeiros durante a Copa para não engravidarem. No VK, o grupo extremista “boceta rosa” culpa as mulheres pelo assédio que sofreram e as chama de prostitutas. São várias as piadas com textos apelativos dizendo que as russas traem seus maridos com estrangeiros.

Essa “confraternização” entre russas e torcedores causou um fenômeno inusitado. Os homens russos se sentem rejeitados e ressentidos. “Vejo que mulheres russas criam estereótipos nas redes sociais sobre homens russos. Escrevem que somos um lixo, somos um balde cheio de mingau”, analisou Antonov.

Lopatkin também reclama. “As russas acusam os homens de todos os problemas. Elas mesmas não podem resolver nada sozinhas. Quando nos conhecem, sempre pedem muito: você deve isso, aquilo, têm reclamações. Elas mesmas não têm independência, honra, dignidade ou compreensão da liberdade. Não podem tomar as decisões sozinhas”.

Durante o Mundial, um artigo do jornal Moskovskiy Komsomolets, um dos mais populares da Rússia, também entrou na discussão. O jornalista Platon Besedin escreveu que “a Rússia tem hoje uma geração de putas que envergonham o país e que elas se vendem para os estrangeiros”. Muitas mulheres se revoltaram com a situação e entraram com uma petição contra o jornal e o autor – que se explicou dizendo que só falava de parte das mulheres.

“A lógica dele é que nossos cidadãos pensam que os estrangeiros são deuses, especialmente as mulheres. É por isso elas se comportam como vadias: para se vender mais caro e, depois, imigrarem da Rússia. Só que essa lógica é louca. Nossas mulheres, de acordo com a Constituição, podem fazer sexo ou se relacionar com qualquer pessoa que desejem”, disse a jurista e ativista Alyona Popova. Ela entrou com uma reclamação formal contra o autor e o jornal.

Elena Odinokova é uma das mulheres que tenta lutar contra essa lógica da sociedade. Ela se posicionou no VK contra os homens que criticavam o comportamento sexual. “Infelizmente, a maioria das pessoas na Rússia continua a ter um pensamento conservador e supersticioso. Isso tem a ver com o nível de vida e social. As pessoas que condenam o sexo com o estrangeiro acham que ele é feito para ganhar bens materiais. Esse tipo de pensamento gera um patriotismo falso que leva à xenofobia.  Vale a pena ressaltar que, apesar do sexismo e do tradicionalismo dos russos, ninguém pode proibir nada às mulheres. A vida delas é a vida delas. Mas na Rússia é comum expressar a sua opinião desse jeito”.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: UOL Esporte

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