Brasileiro usa futebol pra levar esperança a refugiados na Jordânia

Rafael Teixeira (de boné), coordenador do projeto, jogadores mirins e Fabrício Carioca (de óculos escuros), voluntário do projeto e missionário. Foto: Projeto de Futebol Tocar

Golaço da solidariedade brasileira no Oriente Médio! Voluntários driblam adversidades e usam futebol para levar esperança e perspectiva a crianças e adolescentes refugiados na Jordânia. Entre eles, um brasileiro: Rafael Teixeira, 26 anos.

Só quem já participou de torcidas organizadas sabe como é o clima durante o encontro de equipes rivais, em dias de jogos decisivos. Uma realidade bem conhecida no Brasil.

Agora imagine essa situação de tensão potencializada, do outro lado do mundo, em um contexto de guerra civil nada amistoso…

Oriente Médio, Jordânia, Município de Mahis. Milhares de adultos, jovens e crianças em situação de refúgio fogem dos países de origem, em busca de um recomeço.

Famílias tentam reconstruir a vida com a roupa do corpo, e a dor pela perda de entes queridos. É comum ver muitos perambulando pelas ruas, ou em condições de quase escravidão, em troca de teto e comida.

É nesse contexto que há pouco mais de um ano, o futebol é usado como ferramenta para levar esperança e valores a crianças e adolescentes, a maioria em situação de risco.

São jovens de vários países, que fugiram da perseguição religiosa do Estado Islâmico no Iraque, e da guerra civil na Síria, que há mais de seis anos preocupa a comunidade internacional.

Mas em quê o futebol poderia melhorar essa situação complicada, que ainda não tem data para mudar?

Seria possível amenizar essa tensão crescente, e oferecer a esses jovens uma atividade que ensine tolerância, trabalho em equipe e coragem para vencer desafios?

A resposta é sim! E isso vem das bases de times brasileiros.

          Superação

Rafael Teixeira, viu o pai, tios e tantas pessoas próximas respirarem futebol desde cedo. Ele escolheu o mesmo caminho, a paixão pelo esporte, e jogou nas bases do Santos até a adolescência.

Entrou para a Torcida Jovem do Santos. E aí acabou se envolvendo com más companhias, em episódios de vandalismo e brigas entre torcidas organizadas. Até sofrer um acidente grave, e ficar entre a vida e morte.

Quando conseguiu se recuperar, Rafael deixou a torcida organizada e os campos.

Foi quando conheceu a Jocum, Jovens com uma Missão, um movimento internacional e interdenominacional que há décadas mobiliza jovens em todo o mundo em favor da obra missionária.

Rafael Teixeira em Mahis

Lá Rafael conta que foi acompanhado pela liderança, amadureceu e mudou de vida.

Participou da Escola de Treinamento e Discipulado e também da Escola Missão Mundo Muçulmano, ambas da Jocum. Se tornou um missionário, com foco no Oriente Médio.

Foi aí que começou a pensar que, com a orientação certa, o esporte poderia ser uma ferramenta poderosa para dar esperança e perspectiva de futuro a crianças e adolescentes em situação de refúgio.

          Jordânia no coração

Depois de um período, Rafael liderou uma equipe que foi à Jordânia em 2015, para socorrer famílias, principalmente de refugiados. Depois de alguns meses, ele voltou ao Brasil. Mas percebeu que o coração tinha ficado em solo árabe…

Rafael se planejou, fez um workshop para treinadores da Confederação Brasileira de Futebol, além de meses de treinamento técnico em São Paulo, para em 2016 voltar à Jordânia, só que desta vez para ficar!

          Socorro aos refugiados

Em parceria com a Missão Mais no Oriente Médio – uma organização não-governamental cristã que presta socorro, além de promover ações de desenvolvimento comunitário e treinamento de missionários para tarefas globais – Rafael Teixeira começou em setembro de 2016 a ensinar arte circense e futebol na Jordânia, mesmo sem um local fixo para os treinos.

Sob a gerência da família Aziz, que há 3 anos está à frente de vários projetos sociais na região, Rafael afirma que ver o sofrimento dos refugiados foi importante na hora de decidir se mudar para um país tão diferente.

“O que me fez sair do Brasil foi o amor. Com os projetos sociais, atendemos a mais de 7 mil famílias de refugiados, entre muçulmanos sírios e cristãos iraquianos que fogem da perseguição religiosa do Estado Islâmico. Quando eu vi a realidade desse povo, não pensei duas vezes: esse é o meu povo, essa é a minha terra, essa é a minha família”, disse ao SóNotíciaBoa.

Sob a liderança da família Aziz, Rafael seguiu socorrendo os refugiados, e dando aulas de circo e de futebol para jovens.

Com o passar do tempo, conquistou o respeito e a simpatia da comunidade e do governo local, que cedeu um campo semi-profissional para os treinos de futebol, em junho deste ano.

Uma das equipes femininas do Projeto de Futebol Tocar

Assim Rafael oficialmente fundou o Projeto de Futebol Tocar. Junto com uma equipe de missionários e voluntários brasileiros e de outras nações, a iniciativa vem tocando a vida de jovens e famílias em Mahis.

Atualmente, 110 crianças e adolescentes participam do projeto.

Duas vezes por semana, as meninas jogam em 3 categorias: sub 11, sub 13 e sub 15; e os meninos em 4: sub 11, sub 13, sub 15 e sub 17.

As crianças menores treinam uma vez por semana.

          Convivência pacífica

Muçulmanos e cristãos, refugiados e jordanianos: é possível uma convivência pacífica e respeitosa?

No início, Rafael conta que separava muita briga em campo, principalmente entre jordanianos e refugiados.

Ele conversava com as equipes, sempre levando ambas as partes a perceberem que o respeito é melhor que socos, gritos e pontapés.

Treino pela manhã com crianças mais novas

“A gente vê que é possível resgatar a comunhão e o caráter das crianças por meio do esporte. Hoje, no Projeto de Futebol Tocar, nós temos cristãos e muçulmanos jogando num mesmo time, que comemoram juntos quando marcam um gol”, destaca.

Rafael e a equipe conquistaram a admiração dos pais dos participantes do projeto, e até mesmo de líderes e religiosos de Mahis. Ele conta que vai à mesquita do local e cumprimenta o líder religioso de lá.

“O respeito é a melhor forma de conquistar a confiança das pessoas. Todos do vilarejo sabem que sou cristão. O respeito e o amor pelas crianças foram fatores determinantes para também ser ouvido e respeitado, como cristão”, enfatiza.

          Adversários fortes

O projeto sobrevive de doações e busca mantenedores mensais e patrocinadores. Entre os maiores adversários do Tocar estão:

A falta de água potável – a água para as crianças e adolescentes beberem durante os treinos precisa ser comprada, já que não há água potável disponível;

O calor – as temperaturas variam entre 30 e 43 graus;

A falta de abrigo do sol – os participantes treinam ao ar livre, sem bebedouros, banheiros e vestiários;

E a falta de iluminação no campo à noite – quando as crianças e os adolescentes poderiam treinar sem o calor do sol forte.

Mesmo com todas as dificuldades, a coordenação organiza torneios e campeonatos para manter os participantes motivados. E conta com doações de bolas, uniformes e tantas outras coisas de voluntários.

De acordo com Rafael Teixeira, a equipe acredita no potencial de recuperação da autoconfiança e da capacidade de transformação da atual realidade, triste e dolorosa, em um futuro feliz e cheio de esperança para os jovens jogadores.

“Quem convive comigo sabe o quanto meu coração está moldado no formato da bandeira da Jordânia. Aprendi não só a amar esse país, como também a usar o futebol como ferramenta para levar paz, princípios e valores para essas crianças”, finaliza.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: SóNoticiaBoa

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