As torcidas organizadas mais políticas do futebol

Fonte: sports.vice.com

Eu, particularmente, tenho uma certa resistência às torcidas organizadas. Primeiramente por conta da sua participação em crimes, sejam os confrontos protagonizados de tempos em tempos, que resultam em mortos, feridos e resultam também no afastamento do torcedor comum e familiar dos estádios pelo Brasil; ou ainda pelo uso das torcidas como fachada para prática de outros crimes como o tráfico de drogas. Segundo, por conta de seu predominante ambiente machista, com cantos de teor homofóbico (e comportamento também).

Mas, ainda temos que valorizar o seu papel dentro do estádio. Eles que ditam o ritmo do torcedor comum, que inventam os cantos de apoio, que acompanham o time em todas as localidades possíveis, que fazem as bandeiras e tudo mais.

Temos ao redor do mundo diversas torcidas que conseguem unir suas duas funções: a da festa e a parte social. Na Europa é mais comum vermos essas torcidas com mais força, como é o caso da torcida do time alemão St Pauli.

O St. Pauli, fundado em 1910, é mundialmente conhecido por seu engajamento político e social, que vem de dentro da organização e também predomina na torcida.

Para começar no seu estilo, a bandeira do St. Pauli é praticamente um fenômeno pop: uma caveira com ossos atravessados, que remete muito a cultura punk; outra característica do clube. Inclusive, o rock é tão presente que a entrada em campo para seus jogos é ao som de Hells Bells da banda AC/DC.

Fora as aparências o St. Pauli conta com grandes marcos políticos na sua história. Foi o primeiro time alemão a banir nazistas de seu estádio, em 1981 e com essa medida aumentou a média de espectadores de 1.600 para 20.000 em 9 anos.

Outro ponto importante é que a agremiação teve, entre 2002 e 2010, um presidente assumidamente homossexual. Corny Littmann, levou o time da terceira divisão para a elite do futebol alemão. Dono de dois teatros no bairro em que o clube fica situado, tem forte atuação na classe artística.

A torcida, como percebe-se, tem forte tendência política para a esquerda. O time inclusive já realizou um amistoso contra a Seleção de Cuba, no estádio recheado de bandeiras do guerrilheiro Che Guevara. O resultado final foi 7×0 para o St. Pauli. O posicionamento da torcida e suas campanhas antinazismo e antifascismo, os fizeram aproximar-se de outras torcidas importante na Europa pelo seu posicionamento como a do Celtic.

O Celtic é um clube do leste da Escócia e seus adeptos sempre foram vistos como cidadãos de segunda classe. Essa marginalização explica a simpatia de sua torcida por outros povos marginalizados e menos favorecidos e a sustentação de seus ideais, através de ações. A principal torcida inclusive se descreve como uma ampla frente anti-fascista, anti-rascista e anti-sectária.

E uma torcida que não pode deixar de ser citada é a do Rayo Vallecano, da Espanha. Representando a resistência da classe trabalhadora na Espanha, onde o maior clube é herança do ditador Francisco Franco, a torcida barrou a contratação do meia ucraniano Zozulya por seu apoio e filiação a movimentos políticos de extrema-direita. Os Bukaneros, como é chamada a principal torcida do Rayo Vallecano, são reconhecidos por suas lutas contra a homofobia e suas homenagens a personagens de esquerda.

No Brasil, assim como a população em geral, as principais torcidas não são engajadas politicamente. Mas há as frentes com seu posicionamento declarado, principalmente na internet e claro, principalmente, de esquerda. A página do Facebook “Vascomunistas” conta com quase 30 mil seguidores e nela posta diversos conteúdos onde demonstra e promove debates sobre os temas mais recentes da política.

A página “Palmeiras AntiFascista” é outra, que é um ponto fora da curva, tendo em vista que a torcida do Palmeiras vem sofrendo um grande processo de elitização, alavancada por decisões políticas de dentro do clube.

Assim como já citei anteriormente em relação aos clubes, mas agora falando da posição das torcidas: todo movimento de massa é político e no futebol isso não é diferente. É importante o crescimento de tais agremiações, pois ele serve como enfrentamento à cultura machista e homofóbica do nosso esporte preferido e mais popular, tornando ele mais inclusivo e mais seguro.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Itu

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