Apresentação do Observatório no debate “Controvérsias e o Indizível no Futebol: Machismo, Homofobia e Racismo”

Mesa 3: racismo no futebol (foto reprodução)

Mesa 3: racismo no futebol (foto reprodução)

O Museu Brasileiro do Futebol, espaço cultural que funciona no estádio do Mineirão, abriu suas portas para uma série de debates cujo tema central foi “Controvérsias e o Indizível no Futebol: Machismo, Homofobia e Racismo” e para minha alegria encontrei uma sala repleta de pessoas animadas em discutir os preconceitos e discriminações que ocorrerem em nossa sociedade e que infelizmente são reproduzidos nos estádios de todo o Brasil e do mundo. O debate inicial levantou algumas dúvidas: O que acontece nos estádios é reflexo da sociedade? Ou temos comportamentos diferentes dentro do estádio e fora dele? Alguém pode ser violento e preconceituoso só dentro do estádio?

Geralmente começo minhas apresentações com a história da inserção do negro no futebol brasileiro, uma vez que em seu início no Brasil o hoje esporte mais popular do país era racista e elitista, contudo devido às inquietações dos presentes ao evento em decorrência das mesas anteriores que tratavam da “Diversidade Sexual no Futebol” e “A mulher no Futebol”, mudei minha apresentação.

Iniciei minha fala apresentando o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, seus objetivos e seu histórico nesses três anos de atuação nas redes sociais e fora delas.

ilustração: Dsenhorama

ilustração: Dsenhorama

Ao falar da história do negro no futebol brasileiro, inserção e racismo, destaquei que a inclusão não foi a passagem do racismo para o não racismo e, sim causada pela questão financeira; da necessidade dos times em poder contar com jogadores que não eram funcionários das fábricas ou sócios dos clubes, condição essa imposta pelo futebol amador da época. A profissionalização foi a deixa para a entrada dos negros nos clubes e para a popularização do esporte.

Mas não podemos esquecer o racismo que aconteceu nessa passagem. Primeiro: que os jovens, brancos, que praticavam o esporte se negaram a profissionalização. Segundo: que com a profissionalização o negro passou a ser um funcionário que não precisava frequentar o clube, em muitos casos entrava e saia pelas portas dos fundos.

A entrada e o sucesso dos negros nos grandes clubes fez nascer três mitos: 1. Negros são ótimos para jogar futebol, mas não servem para outros esportes; 2. O futebol assim como a música passa a ser uma das poucas possibilidades de ascensão social, o pensamento que todo o negro bem de vida ou é jogador ou pagodeiro dura até hoje; 3. Que o futebol passou a ser o retrato da “Democracia Racial” que pretensamente diziam existir no Brasil. Três mentiras que se perpetuaram durante muitos anos.

Mesmo com o sucesso de vários jogadores negros no Brasil e no exterior a discriminação racial não deixou de existir. Episódios como o da análise realizada pelo psicólogo João Carvalhes que barrava a dupla Pelé e Garrincha de irem a Copa de 58 ou o grande número de incidentes raciais nos estádios comprovam isso.

Logo, foi apresentado o Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol e suas duas edições 2014 e 2015, os números do próximo Relatório 2016, que será lançado em breve. Os alarmantes números de 2017, que em apenas quatro meses apresenta mais de trinta denúncias de racismo não só no futebol, mas também em outros esportes.

Importante salientar que as denúncias de casos apresentados através dos Relatórios, pelo site e redes sociais são a ponta do iceberg, afinal a discriminação racial no esporte brasileiro pode ser vista na não presença de negros como treinadores, dirigentes, conselheiros e presidentes nos principais clubes do Brasil. A barreira que nasceu em 1933, ano da profissionalização do futebol, continua existir. Ou como explicar que num país com grande número de atletas negros não é o racismo a barreira para a presença de treinadores negros, ainda mais, se nos atentarmos ao fato que a maioria dos treinadores são ex-atletas. Quantos treinadores negros tivemos na história da seleção brasileira?

Sobre o combate ao racismo é correto afirmar que falta participação de clubes, entidades e federações. Faltam campanhas efetivas e não apenas ações pontuais. Diversos clubes já desenvolveram ações de marketing contra o racismo, mas para onde foi o valor arrecadado com as ações? Para alguma entidade do Movimento Negro? Para alguma entidade de combate ao racismo?

Não menos importante é refletirmos que a mudança não se dará apenas com a participação dos clubes, entidades, federações, CBF, Ministério do Esporte, a mudança deve começar por cada um de nós, ao não reproduzirmos atos racistas e atitudes preconceituosas e não deixar que sejam reproduzidas por nossos amigos e familiares.

Precisamos pensar, refletir e acolher os atletas que denunciam o racismo e os que silenciam. Entender por que isso acontece. E perceber a falta de apoio aos que denunciam por parte dos clubes, da mídia e da sociedade. Vivemos num país tão racista que na sua inversão de valores acaba culpando a vítima que cobra seus direitos e, sempre, encontra uma desculpa para quem cometeu racismo.

O futebol que já foi considerado o ópio do povo, precisa ser pensado como instrumento de mudança, afinal fatos do mundo da bola são muito reproduzidos pelos veículos de comunicação. O esporte mais popular do país tem muito espaço na mídia e tudo que acontece tem grande impacto na educação das nossas crianças. A educação dos nossos filhos não se dá apenas com o que ensinamos, mas muito com o que eles aprendem ao assistir televisão, nos jogos de futebol televisionados, na escola e no comportamento dos pais, amigos e demais torcedores dos estádios.

A mudança já começou, pelas bordas, pelos torcedores e quiçá os clubes entendam seu papel social e sejam atuantes na mudança de comportamento da sociedade. Afinal, precisamos construir um mundo mais igual, sem tanto ódio e preconceito.

Obrigado a Mara Evaristo e Luciano Jorge que estavam na mesa sobre racismo. Ao amigo Thiago Costa, do MBF, pelo convite e a todos que interagiram no evento em Minas e, também, aos que após o evento entraram em contato via redes sociais.

#ChegadePreconceito

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