A história do racismo no futebol: Do pó de arroz a Aranha

(foto reprodução)

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Hoje, 20 de novembro, é o dia da consciência negra. Mesmo que o dia tenha um importante significado para o movimento negro no Brasil, há muitas pessoas que questionam a sua existência, utilizando argumentos rasos, que não merecem ser registrados aqui. É inegável que o racismo existe no Brasil e no mundo, e é um problema gravíssimo na nossa sociedade. Um exemplo disso são os casos de discriminação, preconceito e injúria racial no esporte, sobretudo no futebol. Os últimos anos têm sido repletos de demonstrações estúpidas de racismo contra jogadores de futebol, não só na Europa, como no Brasil e na América do Sul.

O racismo acompanha o futebol brasileiro desde seu início. Jogadores negros não eram admitidos em muitos clubes, por conta do caráter aristocrático do esporte nos anos que sucederam sua chegada ao país. Apesar de muita imprecisão sobre os fatos, sabe-se que o jogador Carlos Alberto, em 1914, usava pó-de-arroz no rosto para jogar pelo Fluminense. O clube, no entanto, contesta a versão que a causa disso fosse racismo praticado por sua torcida e diretoria. Mesmo com tal, no mínimo, suspeita, a torcida tricolor continua a usar o pó-de-arroz como marca.

Há imprecisão sobre qual foi o primeiro clube brasileiro a admitir negros em seu plantel. O fato é que Bangu e Ponte Preta podem ter sido os primeiros a contarem com negros, mas foi o Vasco da Gama o protagonista na inclusão do negro no futebol, entre os anos de 1923 e 1924. Seu time contava com 12 atletas negros, e conquistou o título carioca em 1923, o que gerou insatisfação pelos demais clubes tradicionais, como América, Botafogo, Flamengo e Fluminense, que formaram uma liga alternativa, exigindo que o Vasco expulsasse seus atletas negros para que pudesse ser a ela admitido. O Cruzmaltino não cedeu, e acabou por entrar na nova liga com todos os atletas negros que quisesse.

A partir deste momento, sobretudo na década seguinte, os negros passaram a ocupar o futebol brasileiro de maneira mais forte. Um exemplo claro disso é o inventor da bicicleta Leônidas da Silva, o Diamante Negro, considerado por muitos o primeiro ídolo do futebol brasileiro. Outros negros contemporâneos de (ou um pouco posteriores a) Leônidas ajudaram a fincar de vez a presença protagonista do negro no futebol brasileiro, como os irmãos Domingos e Ladislau da Guia, Didi, Zizinho, o injustiçado Barbosa, Jair Rosa Pinto, Djalma Santos e tantos outros heróis e lendas do futebol brasileiro.

O marco mais significativo, no entanto, ocorreu na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Foi lá onde se consagrou a maior dupla da história do futebol mundial: Pelé, um garoto de 17 anos, que iniciava a carreira mais bem sucedida da história do futebol, viria a ser o maior jogador da história, eleito o atleta do século XX, o maior artilheiro da história do futebol mundial, o jogador que mais ganhou Copas do Mundo, uma lenda, um mito, o deus do futebol; e Garrincha, que veio a ser campeão de duas Copas do Mundo, maior jogador a história do Botafogo, o driblador mais icônico e mais inspirador da história do futebol mundial, outra lenda, outro deus (o futebol é politeísta). A dupla se aposentou invicta atuando junta pela Seleção Brasileira, e colocou o negro pela primeira vez no ponto máximo de uma posição de destaque no país.

Seria ilusão, no entanto, pensar que o negro passou a ser respeitado no futebol brasileiro e mundial após isso. Há inúmeros casos de racismo no esporte que aqui podemos recordar. Na Europa, por exemplo, o camaronês Samuel Eto’o sofreu racismo na Espanha, na Inglaterra e na Rússia, países em que jogou e foi ídolo; o lateral Roberto Carlos foi outro a sofrer com o racismo na Rússia, quando abandonou o jogo de seu time, Anzhi, após a torcida do rival, Zenit, atirar bananas em sua direção; o brasileiro Hulk também sofre racismo com frequência no campeonato russo; o brasileiro Daniel Alves foi outra vítima de racismo, atuando pelo Barcelona, no polêmico episódio “somos todos macacos”, campanha criada por Luciano Huck (que adere apenas a causas que possam lhe trazer lucro); por último, cito o italiano Mario Balotelli, talvez a maior vítima de racismo no futebol europeu dos últimos anos. O atacante sofreu racismo da própria torcida italiana, quando lá atuou por Internazionale e Milan, e dos ingleses, onde atuou por algumas temporadas nos últimos anos. Um estudo aponta que Balotelli foi a maior vítima de racismo na Internet no futebol inglês na temporada 2014/2015, ano em que recebeu 8 mil mensagens com este teor.

Na América Latina, não é diferente. É muito comum que os argentinos se refiram aos brasileiros, sobretudo aos negros, como “macaquitos”. Talvez o episódio mais marcante de racismo na América Latina seja a prisão do zagueiro argentino Desábato, em 2005, após insultar o atacante Grafite, no Morumbi. Desábato ficou preso por dois dias e foi liberado após pagar R$10 mil de fiança. Já em 2014, a vítima foi o volante cruzeirense Tinga, que ouviu a torcida do Real Garcilaso, do Peru, gritar como macacos a cada vez em que ele tocava na bola. O clube peruano foi multado em apenas US$ 12 mil e terá o seu estádio fechado em caso de reincidência. No último mês, o meia Nikão, do Atlético Paranaense, foi vítima de racismo por conta da torcida do paraguaio Sportivo Luqueño. O caso permanece sem punição aos responsáveis.

No Brasil, há diversos casos de racismo ao longo da história, mas há um grande número de acontecimentos recentes que preocupam. No início deste mês, o meia Michel Bastos, do São Paulo, foi ofendido por integrantes da própria torcida tricolor na Internet. Outra torcida que mostrou uma lamentável face racista foi a do Flamengo, que perseguiu o técnico Cristóvão Borges por motivos táticos, mas com ofensas racistas. O caso recente de maior repercussão foi o do goleiro Aranha, à época do Santos, chamado de macaco por diversos torcedores gremistas na Arena do Grêmio. Os tricolores gaúchos, inclusive, têm histórico grave de racismo, já que costumeiramente chamam os torcedores do rival Internacional de macacos. O Grêmio foi excluído da Copa do Brasil daquele ano, e os torcedores identificados foram proibidos de entrar nos jogos do Grêmio pelo longo período eterno de dez meses. Posteriormente, ao acionar o Santos judicialmente e se transferir para o rival Palmeiras, Aranha sofreu insultos racistas da torcida do Santos.

Ou seja, assim como na sociedade, o racismo no futebol não tem time, não tem país, não tem classe social. Pode vir de qualquer lugar e atingirá sempre o negro. O Brasil não é uma democracia racial, e não são as medidas para amortizar o racismo, como cotas, as responsáveis pela escalada de ódio. Infelizmente, a falta de educação, conscientização e punição ajudam a perpetuar o racismo, que pode aparecer em diversos níveis e velado de inúmeras formas.

Por exemplo, quando há um caso de racismo no futebol, costuma-se dizer: “Mas justo no esporte que teve Pelé como seu maior nome…”. Correto. Serve para demonstrar que o negro não é respeitado nem nos espaços em que ocupa com protagonismo. Mas, ao mesmo tempo, tal pensamento pode trazer consigo um significado extremamente perigoso: o de que o negro merece respeito no futebol apenas por conta de ídolos negros, e que, consequentemente, não precisa ser respeitado em esportes e espaços de tradição e destaques brancos.

A superação do racismo deve ser um objetivo importante no Brasil e no mundo, e o futebol poderia ser um instrumento importante nesta luta. Por enquanto, não vem sendo. E, em mais um 20 de novembro, os negros continuam sofrendo preconceitos e injúrias, sendo marginalizados, mortos e perpetuados nessa posição de subjugação. Infelizmente.

Fonte: VintePress

Comments
  1. Fabio
  2. marcus vinicius

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