A banalização do Racismo

O Racismo continua a persistir nos campos de futebol… como erradicá-lo permanentemente? A situação Coentrão e Marega é só a ponta do iceberg

Portugal é um País onde o fantasma do racismo, de quando em vez, teima em aparecer. Longe vão os tempos de discriminação declarada e ostracização, mas o racismo ainda existe e está vivo. O futebol português não é pródigo neste tipo de eventos, mas a justiça, quando instada a atuar, não é igual para todos.

No passado dia 24 de Janeiro de 2018, Sporting CP e FC Porto defrontaram-se para as meias-finais da Taça CTT, com o Sporting a sair vitorioso após a marcação de grandes penalidades. Nada de novo até aqui, contudo o jogo fica manchado de uma forma profunda, ainda que muitos teimem em esquecer, num acontecimento por volta dos 75 minutos. Após uma falta de Coentrão sobre Marega, é despoletado um “bate-boca” que culmina com Marega a agarrar o pescoço de Coentrão e a ver, consequentemente, o amarelo. No meio desta confusão, é possível verificar que Coentrão, dirige-se a Marega com a expressão “…preto do cara***”.

Não quer isto dizer que Coentrão seja racista. Isto denota um problema social ainda mais profundo onde é normal caracterizar alguém pela sua tez, mas tendo a ela associada uma conotação negativa. Como muitas mentes retrógradas poderão afirmar, o jogador do Sporting CP apenas lhe chamou “aquilo que ele é”. Mas nada disso seria relevante se, atualmente, a conotação da palavra “preto” utilizada nestes contextos não fosse pejorativa e com uma intenção de causar dolo no outro.

Obviamente que o futebol é um desporto onde todos os jogadores se insultam mutuamente e onde até insultam os árbitros, infelizmente. Poderemos questionar se isso é bom ou mau, se esta primitividade não é indissociável do próprio desporto, mas devem ser criadas barreiras e limites que não podem, nunca, ser transpostos.

Coentrão, presumivelmente, na sua inocência, utilizou uma expressão que muitos portugueses ainda hoje usam quando pretendem insultar alguém, sem no entanto serem, necessariamente, racistas. É apenas algo, na maior parte das vezes, usado como arma de arremesso que traz uma conotação muito maior e mais agressiva do que todos os outros insultos que possam ser proferidos naquele momento.

O problema neste caso é que Coentrão fê-lo num jogo transmitido televisivamente, em horário nobre, na televisão pública portuguesa. Torna a ofensa em si mais grave? Não. Mas quando alguém “desfila” perante milhões de pessoas que olham os jogadores de futebol como exemplos, como ídolos, onde o desporto se assume como “rei”, o assunto toma proporções agigantadas.

No entanto, e contra toda a lógica, este acontecimento desapareceu da comunicação social desportiva num espaço de dois ou três dias. Os inúmeros programas televisivos que versam sobre todos os acontecimentos na vida desportiva portuguesa, que acompanham até os dias de folga dos jogadores, decidiram ignorar algo que aconteceu perante milhões de pessoas e que vai contra todos os princípios de Fair Play que devem reger o futebol.

O próprio Conselho de Disciplina parece ter ignorado os regulamentos que visa defender e o assunto cai, aos poucos, no esquecimento. E é nosso papel, como amantes do futebol, de proteger o espírito de um desporto, talvez dos poucos no Mundo, acessível a todos os estratos sociais, a todos os cantos do mundo, desde que haja uma bola e dois chinelos para enterrar no chão e fazer de poste.

Como sempre, deveríamos olhar para os nossos conterrâneos no Velho Continente para aprender algumas coisas. Dando de barato que a conjuntura social e cultural varia de país para país, existem pelo menos dois países que nos devem servir de exemplo como bastiões de luta contra o racismo: Inglaterra e Itália.

Talvez poucos se lembrem, mas em 2011 Luís Suárez era condenado a uma suspensão de 8 jogos e uma multa de 40,000 libras por proferir insultos raciais contra Patrice Evrà. Uma das maiores estrelas à altura da maior e melhor Liga do Mundo era punido, de forma severa, por este tipo de atitudes. Mas a luta contra o racismo não foi pontual e ainda este ano vimos Graham Rix e Gwyn Williams, antigos treinadores das camadas jovens inglesas, a serem acusados por abusos realizados durante anos a fio. Por outro lado, a Itália e a sua federação têm sido incansáveis na luta contra o racismo num País onde este é prática comum. São inúmeros os casos de cânticos dirigidos a jogadores, de arremesso de bananas, entre outros eventos lamentáveis.

No passado dia 4 de Janeiro de 2018, o Verona foi condenado a um ano de pena suspensa de interdição parcial do estádio e uma multa de 20,000€ por comportamentos racistas dirigidos a Blaise Matuidi. Estes países estão longe de ser o ideal, mas são aqueles que, na atualidade, mais se tentam aproximar dele e mais esforços desenvolvem nesse sentido.

A UEFA tem tido, também, um papel importantíssimo neste aspeto e a interdição parcial ao estádio do SC Braga na receção ao Hoffenheim para a Liga Europa devia trazer novamente para a baila esta discussão. Este episódio não é virgem, já que em Abril de 2012, o FC Porto havia sido multado por cânticos racistas contra Mario Balotelli, num jogo contra o Manchester City.

Neste momento, Portugal e o Conselho de Disciplina estão a anos-luz destes exemplos e teimam em não apresentar respostas cabais a um flagelo social que tanto potencial disruptivo carrega em si. O único clube condenado, até hoje, a jogar à porta fechada por cânticos racistas foi o Leixões SC, em 2013, na 2ª Liga Portuguesa. Por sua vez, exemplos de racismo como os cânticos de macaco dirigidos a Hulk na Luz e insultos racistas a Nélson Semedo em Guimarães, no passado ano, passaram incólumes a este mesmo órgão. Esse mesmo conselho que puniu o Rio Ave com uma multa de 536€ por cânticos racistas contra Renato Sanches.

Fazer parte deste desporto é, também, saber vive-lo e compreender que a responsabilidade acresce com a posição de ídolo perante milhões de pessoas. Era necessário fazer deste caso um exemplo, para mostrar que o racismo não é aceitável, não é natural, não se coaduna com os valores da sociedade portuguesa. Mas, por clubite, por medo, por vergonha, por empatia, virou-se a cara. E perdeu-se mais uma batalha.

Say NO to racism (foto reprodução UEFA)

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Fair Play

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